3 de fevereiro de 2026 - por Wilker Fagundes
O Ibovespa renovou sua máxima histórica aos 181.919 pontos, acumulando uma alta de 13,32% apenas neste início de 2026. Para quem estava “jogando a toalha” há exatos 12 meses, o cenário mudou drasticamente: o que era um sonho distante, os 200 mil pontos, agora é uma possibilidade concreta no radar de casas como o Morgan Stanley e o BTG Pactual.
Mas, antes de se deixar levar apenas pelo gráfico para cima, você precisa entender quem está pagando essa conta e por que o Brasil, no tabuleiro global, ainda é um “peixe pequeno” em um oceano de gigantes.
Fluxo estrangeiro no Ibovespa: R$ 17,7 bi em janeiro vs 11,2% de pessoa física
Se você acha que o investidor local está empurrando a Bolsa, os números mostram o contrário. A pessoa física representa apenas 11,2% das negociações, enquanto o investidor estrangeiro domina 59% do volume.
A virada de mão foi brutal:
- Em 2024, tivemos uma saída líquida de R$32 bilhões.
- Só em janeiro de 2026 (até o dia 23), já entraram R$17,7 bilhões — mais da metade de todo o capital externo que entrou em 2025.
O “Efeito Apple” e a nossa desproporção: B3 vale US$ 1 trilhão — Apple sozinha vale mais que toda a Bolsa brasileira
Para dimensionar o que está acontecendo, temos este dado estruturado: o valor de mercado total da nossa Bolsa (B3) gira em torno de US$1 trilhão. As bolsas americanas (NYSE e Nasdaq), juntas, somam mais de US$60 trilhões. A conta é assustadora: Os R$17,7 bilhões que entraram em janeiro equivalem a cerca de 0,08% do valor de mercado da Apple.
Isso significa que o Brasil é tão pequeno no cenário global que, se apenas 1% do capital das bolsas americanas decidir migrar para cá, o Ibovespa saltaria para perto dos 300 mil pontos instantaneamente. Estamos vivendo um rali movido por “migalhas” do capital global que, para o nosso mercado, são verdadeiros banquetes.
Ibovespa foi o 3º mercado que mais valorizou no mundo em 2025 (+49,48% em dólares)
Não estamos sozinhos. O rali é parte de uma rotação global para mercados emergentes, especialmente na América Latina. Em 2025, o Ibovespa foi o 3º mercado que mais valorizou no mundo (49,48% em dólares). O gringo olha para cá e vê uma combinação irresistível: valuation descontado, lucros corporativos sólidos e a expectativa de um ciclo de queda de juros que finalmente parece ganhar tração.
3 riscos que podem derrubar o Ibovespa: fluxo, fiscal e eleições 2026
Três riscos estruturais podem virar o vento:
- Dependência do Fluxo: Se o cenário externo azedar (novas tarifas globais, tensões geopolíticas ou um Fed mais rígido), o gringo aperta o botão de “venda” mais rápido do que apertou o de compra. A saída é sempre mais traumática que a entrada.
- O Fantasma Fiscal: A sustentabilidade da dívida pública continua sendo o “elefante na sala”. Sem um compromisso crível de ajuste fiscal pelo governo, a inflação pode desancorar, forçando o BC a manter juros altos por mais tempo, o que mataria o apelo da Bolsa.
- Eleições 2026: Embora nomes como André Esteves (BTG) digam que o gringo ignora o pleito no curto prazo, o investidor local é historicamente mais sensível. Espere volatilidade política conforme o calendário avançar.
Por que 200 mil pontos no Ibovespa não é mais ficção: projeções de mercado
A festa dos 200k pode chegar ainda este ano, mas ela escancara nossa dependência do capital estrangeiro em detrimento do local. O investidor brasileiro continua, em grande parte, “assistindo de fora” ou preso na renda fixa.
Aproveite o rali, mas não abandone a diversificação. O segredo não é prever o topo, mas ter uma carteira resiliente caso o humor de Nova York mude amanhã. Se o fluxo gringo secar, voltaremos rapidamente para o “deserto” de liquidez.