Banco do Japão sobe juros: US$ 80 Tri em derivativos podem travar liquidez global

Durante 30 anos, fundos globais pegaram dinheiro emprestado no Japão a 0% de juros (carry trade) e aplicaram em ações, treasuries e emergentes como Brasil. Mas em dezembro de 2025, o Banco do Japão subiu juros para 0,75% pela primeira vez em décadas. O problema? Quando o Japão para de emprestar dinheiro barato, a liquidez global seca, fundos vendem ativos de risco, dólar dispara e bolsas caem. Entenda como o fim do carry trade japonês pode ser o próximo grande choque dos mercados, e o que fazer para proteger sua carteira.

10 de fevereiro de 2026 - por Adriano Umemura


Durante anos, nós olhamos para o Japão como aquele “tiozão” da economia global: parado no tempo, população envelhecida, deflação eterna e uma economia que parecia um museu a céu aberto. Mas estávamos errados. Enquanto o mundo ignorava Tóquio, o Japão operava silenciosamente como a sala de máquinas do capitalismo global.

O problema? Essa máquina acabou de engasgar. E o aviso que vem lá do outro lado do mundo é claro: a “farra” do dinheiro infinito acabou, e a abstinência vai doer no bolso de todo mundo — inclusive no seu. Se você investe em Ações, Fundos Imobiliários ou Renda Fixa, precisa entender por que o Banco do Japão (BoJ) pode ser o responsável pelo próximo grande susto do mercado.

O que é Carry Trade: como funciona o dinheiro de graça que inflou as bolsas

Para entender o risco, precisamos falar da droga que viciou o mercado financeiro nas últimas três décadas: o Carry Trade. A lógica era simples e irresistível: grandes fundos e bancos pegavam dinheiro emprestado no Japão pagando juros de 0% (sim, de graça). Eles convertiam esses Ienes em Dólares e aplicavam em qualquer coisa que rendesse juros decentes: Títulos do Tesouro Americano (Treasuries), ações de tecnologia (as Magnificent 7) ou dívida de países emergentes, como o Brasil.

O lucro era a diferença (o spread). Enquanto o Iene se desvalorizava e o juro japonês ficava no chão, era uma máquina de imprimir dinheiro infinito. O Japão virou o fiador oculto da alta do S&P 500 e da estabilidade global.

Banco do Japão sobe juros para 0,75%: por que isso muda tudo

A resposta é a velha conhecida do brasileiro: Inflação. O Japão importou a inflação global e o salário real do trabalhador japonês despencou. A pressão política ficou insustentável. O presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda, foi obrigado a agir e subiu os juros para 0,75% em dezembro de 2025 — o maior nível em 30 anos.

Parece pouco perto da nossa Selic, mas para o sistema financeiro global, isso muda a gravidade do planeta:

  • O Juro sobe no Japão: O custo do empréstimo aumenta.
  • O Spread diminui: A operação deixa de valer a pena.
  • O Dinheiro volta para casa: Começa a maior repatriação de capitais da história. O investidor japonês agora prefere deixar o dinheiro em casa, sem risco cambial.

US$ 80 trilhões em derivativos ocultos: o risco que ninguém vê nos balanços

Se fosse só subir juros, seria um ciclo normal. O buraco é mais embaixo. O Banco de Compensações Internacionais (BIS) — o “banco central dos bancos centrais” — soltou um alerta aterrorizante: existe um rombo de mais de US$ 80 trilhões em dívidas escondidas via derivativos cambiais (FX Swaps) que não aparecem nos balanços oficiais.

Adivinha quem financia essa liquidez invisível? Os bancos japoneses. Se o Japão para de emprestar ou repatria o dinheiro, a liquidez global seca. É um credit crunch (aperto de crédito) silencioso, mas capaz de quebrar bancos na Europa e nos EUA que dependem dessa rolagem de dívida.

Por que o Brasil é o primeiro a sofrer

“Ah, Sardinha, mas eu invisto na B3, o que eu tenho a ver com o Iene?” Tudo. O Brasil é considerado um ativo de high beta (alto risco e alta volatilidade) nesse sistema. Nossa moeda, o Real, é historicamente uma das favoritas para esse jogo de apostas com dinheiro japonês.

Quando o Japão puxa a tomada:

  • O Gringo Vende: Para cobrir o prejuízo lá fora ou pagar o empréstimo em Ienes, os fundos vendem seus ativos mais arriscados. Quem apaga primeiro? O Brasil.
  • Dólar Explode: A saída violenta de dólares pressiona o câmbio.
  • Juros na Lua: O Banco Central do Brasil pode até querer baixar a Selic, mas se a liquidez global secar, o prêmio de risco sobe e os juros futuros disparam.

Como proteger sua carteira

O mercado já deu o primeiro sinal: na última sexta-feira, o Iene saltou 1,75% em poucas horas, forçando o Fed de Nova York a ligar para os bancos perguntando o que estava acontecendo.

Rumores de intervenção conjunta entre a Ministra Sanae Takaichi (Japão) e Scott Bessent (EUA) tentam acalmar os ânimos, mas a tendência estrutural mudou.

A era da liquidez infinita morreu em Tóquio. Para o investidor sardinha, a lição é clara:

  • Cuidado com a Alavancagem: O dinheiro vai ficar mais caro e seletivo.
  • Diversifique: Se o fluxo de capital reverte, estar 100% exposto ao risco Brasil é perigoso.
  • Monitore a Tecnologia: Parte da bolha de IA nos EUA foi inflada por esse dinheiro barato. Se o funding japonês acabar, as ações de tech podem sofrer.

Como diz o ditado: quando a maré baixa, é que vemos quem estava nadando pelado. E a maré
japonesa começou a baixar.

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