4 de fevereiro de 2026 - por Manoel Neto
Desde 2025, ganhou força a narrativa de que o mundo estaria passando por um processo de “desdolarização”. Esse argumento costuma aparecer sempre que o dólar enfraquece, o índice DXY cai e ativos como commodities, ouro, ações ou criptomoedas sobem.
Para muitos, a conclusão parece óbvia: “Se o dólar está caindo e os ativos estão subindo, então o dólar está perdendo relevância.”
Essa leitura, no entanto, é superficial e, em grande parte, equivocada. Para entender o que realmente está acontecendo, é preciso compreender o papel estrutural do dólar no sistema financeiro global e, principalmente, a natureza do próprio dólar.
O dólar não é reserva de valor: é a moeda de intermediação do sistema global
Diferentemente do que muitos imaginam, o dólar não ocupa o centro do sistema financeiro global por ser uma “reserva de valor perfeita”. Ele ocupa esse espaço porque é a principal moeda de intermediação do mundo.
Isso significa que o dólar é usado para:
- Liquidar comércio internacional
- Precificar commodities
- Estruturar contratos financeiros
- Denominar dívidas globais
- Servir de base para o sistema bancário internacional
O dólar é o “meio de troca” do sistema, não o ativo final de preservação de valor.
O dólar não é lastreado em ouro ou bens: é lastreado em promessas de pagamento
O dólar é uma moeda fiduciária, ou seja, não possui lastro físico. Seu valor existe porque há confiança em promessas de pagamento.
Na prática, cada dólar é:
- Um crédito
- Um direito de receber
- Uma promessa futura
Sempre que um novo dólar é criado, uma nova dívida nasce junto com ele. Não existe criação de dólares sem criação simultânea de passivos.
90% dos dólares no mundo são créditos bancários, não cédulas físicas
Quando alguém diz que “tem dólares”, na maioria das vezes essa pessoa não possui cédulas físicas. Ela possui:
- Depósitos bancários
- Títulos públicos
- Títulos privados
- Aplicações financeiras
- Reservas em instituições financeiras
Ou seja, créditos denominados em dólar.
São esses créditos que circulam globalmente e sustentam o funcionamento do sistema financeiro internacional.
A regra contábil inquebrável: todo crédito em dólar é dívida de alguém
Existe uma regra simples e imutável na contabilidade: todo crédito corresponde a um débito equivalente.
Se alguém possui dólares, alguém, em algum lugar do mundo, deve dólares. Quando o sistema cria mais dólares, ele não cria riqueza mágica. Ele cria obrigações futuras.
Por que dívidas importam: têm juros, vencimento e precisam ser pagas
Dívidas:
- Precisam ser pagas ou refinanciadas
- Geram juros periódicos
- Exigem liquidez no futuro
Isso vale para governos, empresas, bancos e países inteiros. Não importa o tamanho do emissor, a lógica financeira é a mesma.
Para criar mais dólares, o sistema precisa criar mais dívidas
O aumento contínuo da quantidade de dólares ao longo das últimas décadas só foi possível porque:
- Governos se endividaram
- Empresas se alavancaram
- O sistema financeiro expandiu crédito
Esse processo gerou inflação monetária persistente e valorização generalizada de ativos reais e financeiros.
Dólar fraco não é fim do dólar: é apenas liquidez mudando de mãos
Quando o dólar enfraquece, ocorre um movimento clássico:
- Ativos sobem em dólar
- Commodities se valorizam
- Mercados financeiros entram em modo “risk-on”
Isso leva muitas pessoas a trocar dólares por ativos reais ou financeiros, acreditando estar se protegendo de uma possível inflação ou perda de valor da moeda.
O erro está em achar que isso reduz a importância do dólar. Na prática, esses dólares não desaparecem. Eles apenas mudam de mãos.
O que a narrativa ignora: dívidas em dólar precisam ser pagas (com juros)
Todo dólar criado via crédito carrega uma obrigação futura. Esses dólares:
- Precisarão ser pagos
- Com juros
- Em datas futuras
Ou seja, a expansão de dólares hoje cria uma demanda ainda maior por dólares amanhã.
O paradoxo do crédito: expansão do dólar hoje cria escassez amanhã
Quanto mais crédito em dólar o sistema cria:
- Mais ativos sobem hoje
- Mais alavancagem se acumula
- Maior será a necessidade futura de liquidez
É como um elástico: quanto mais se estica em um momento, maior será a força necessária para puxá-lo de volta.
Por que crises financeiras são deflacionárias: corrida desesperada por dólares
Nos momentos em que chega a conta:
- Pagamento de juros
- Refinanciamento de dívidas
- Redução de alavancagem
O sistema entra em busca desesperada por:
- Liquidez
- Dólares
- Venda de ativos
É nesse momento que:
- Ativos caem
- O dólar se fortalece
- A escassez aparece
Não por falta de dólares no passado, mas por excesso de dívidas no presente.
Desdolarização é impossível enquanto dívidas globais forem em dólar
Enquanto:
- Dívidas globais forem denominadas em dólar
- Juros forem pagos em dólar
- Comércio for liquidado em dólar
- Reservas financeiras forem mantidas em dólar
O mundo continuará estruturalmente dependente da moeda americana. Mudanças marginais em comércio bilateral ou acordos regionais não alteram essa dependência de forma estrutural.
O verdadeiro risco: não é dólar fraco, é dólar forte demais (crise global)
Um dólar enfraquecido indica liquidez disponível. Um dólar excessivamente forte, por outro lado, sinaliza estresse no sistema.
Um cenário de DXY muito elevado representa:
- Choque deflacionário
- Quebra de mercados
Crises em países e empresas altamente endividados
O mundo está preso ao dólar, não se libertando dele
O mundo não está abandonando o dólar. O mundo está cada vez mais preso a ele. Quanto maior o endividamento global em dólar, maior será a dependência dessa moeda, especialmente nos momentos de crise. O enfraquecimento do dólar hoje não representa sua irrelevância, mas sim uma fase do ciclo de expansão de crédito.
Quando os credores chamam, quando a liquidez seca e quando as dívidas precisam ser honradas, todos correm atrás da mesma coisa: Dólar.