13 de setembro de 2026 - por Raul sena
Raramente eu comento o vídeo de outra pessoa. Acho esse formato ruim e não gosto de atrapalhar o trabalho de ninguém. Mas existe um tipo de conteúdo crescendo na internet que eu preciso desmontar com calculadora na mão: o que vende consórcio como alavancagem patrimonial. A promessa é que você sai de R$ 40 mil para um carro de R$ 80 mil sem perder nada. Fiz a conta, e ela não fecha.
Antes de qualquer coisa, deixo claro de que lado eu estou. A AUVP é habilitada a vender consórcio, e o produto aparece na plataforma que operamos com o BTG Pactual, um dos meus maiores parceiros. Bancos, corretoras e assessorias ganham muito dinheiro com esse produto. Falar mal dele não me rende nada. Rende inimizade com gente de quem eu gosto. Estou falando porque a conta está errada, só isso.
Também não acho que quem vende seja criminoso. Já sentei com vários vendedores de consórcio, mostrei o modelo matemático e muitos concordaram, pararam de usar o argumento e apagaram os vídeos. O problema é que eu, sozinho, não consigo ensinar o Brasil inteiro a fazer conta. Então vou fazer aqui, por escrito.
Antes de assinar qualquer contrato, aprenda a fazer a conta
A proposta que circula nas redes
O roteiro é quase sempre o mesmo. A pessoa tem R$ 80 mil e quer um carro desse valor. O vendedor diz para ela jamais comprar à vista e propõe outro plano:
- Fazer uma carta de consórcio de R$ 100 mil.
- Dar R$ 40 mil do próprio bolso como lance.
- Somar mais R$ 20 mil de lance embutido, tirados da própria carta. O lance total fica em R$ 60 mil.
- Guardar os outros R$ 40 mil no banco, rendendo “uns R$ 400 por mês”.
- Usar esse rendimento para ajudar a pagar a parcela de R$ 750.
No fim, a mensagem é: “você saiu de R$ 40 mil para um carro de R$ 80 mil”. Vamos por partes.
Primeiro furo: ninguém garante a contemplação
Um lance de mais da metade da carta no primeiro mês de um grupo é agressivo. A maior parte dos participantes não tem esse dinheiro, então quem dá um lance desse tamanho tem boas chances. Boas chances não são garantia. Se alguém oferecer R$ 41 mil naquele mês, quem leva é essa pessoa, e o seu dinheiro fica parado no grupo.
Faça um teste simples com qualquer vendedor: peça para ele escrever no contrato uma cláusula dizendo que você será contemplado no primeiro mês. Essa cláusula é impossível. O plano inteiro conta com um pouco de sorte.
Segundo furo: você não saiu de R$ 40 mil
Você tinha R$ 80 mil. Depois da operação, tem um carro de R$ 80 mil alienado, R$ 40 mil no banco e uma dívida com o grupo. A prova de que o carro não é inteiramente seu é simples: você vai pagar R$ 750 por ele todo mês.
Quem compra à vista sai da concessionária com o carro quitado. Quem entra nesse plano sai com metade paga e a outra metade para quitar corrigida. Na prática, é um financiamento com outro nome: sem juros, mas com taxa de administração bem maior e parcela reajustada.
Terceiro furo: os R$ 400 por mês não pagam a parcela
Mesmo aceitando o rendimento de cerca de 1% ao mês sobre R$ 40 mil, o vendedor esquece o Imposto de Renda. Com a alíquota de 22,5% das aplicações mais curtas, os R$ 400 viram cerca de R$ 310. Para pagar R$ 750, ainda faltam R$ 440 todo mês, que vão sair do seu salário.
E, se você saca todo o rendimento para pagar a parcela, os R$ 40 mil nunca crescem. Ficam com o mesmo valor nominal enquanto a inflação come o poder de compra deles ano após ano. A parcela vai no sentido contrário: sobe, porque é reajustada.
A conta do patrimônio, do jeito certo
Agora o que realmente importa: quanto essa pessoa tem de patrimônio depois da operação? Usei um cenário otimista, sem contar a depreciação do carro.
| Item | Valor |
|---|---|
| O que já foi pago do bem, descontada a taxa de administração | + R$ 32 mil |
| Dívida restante com o grupo (R$ 48 mil corrigidos por inflação de 4% ao ano ao longo de 64 parcelas) | − R$ 59 mil |
| Dinheiro guardado no banco | + R$ 40 mil |
| Patrimônio líquido | R$ 13 mil |
Quem tinha R$ 80 mil sai da operação com cerca de R$ 13 mil de patrimônio líquido. Não existe mágica: você não assume uma dívida maior do que o dinheiro que tinha e chama isso de alavancagem.
E a carta não vale o que está escrito nela. Se uma carta contemplada de R$ 40 mil valesse R$ 40 mil, ninguém venderia carta contemplada com desconto. Quem tenta sair de um consórcio no meio do caminho descobre que só consegue vender com deságio ou esperar o grupo acabar.
O mesmo raciocínio com um carro de R$ 200 mil
Para enxergar o absurdo, troque consórcio por financiamento. Tenho R$ 200 mil na conta, dou R$ 50 mil de entrada num carro de R$ 200 mil e somo tudo: “agora tenho um carro de R$ 200 mil e mais R$ 150 mil no banco”. Depois uso o rendimento dos R$ 150 mil para pagar a parcela.
Ninguém chama isso de alavancagem patrimonial, porque todo mundo sabe que no financiamento você acaba pagando bem mais que o valor do carro. No consórcio acontece a mesma coisa. O dinheiro que trabalhava a seu favor passa a trabalhar contra você, e ainda perde um pedaço para quem administra o grupo. Se a dúvida é entre os dois, eu comparo as modalidades em consórcio ou financiamento: qual dos dois escolher.
E se o dinheiro ficasse investido?
Com juros de 14% ao ano, que era a taxa no Brasil quando gravei o vídeo, R$ 80 mil passam de R$ 100 mil em dois anos e chegam perto de R$ 154 mil em cinco. Investimento e carro não competem. O ponto é que o consórcio só entrega o bem, e você pode comprar o mesmo bem juntando o dinheiro antes.
O mesmo vale para quem pensa em pagar R$ 2.500 por mês num consórcio. Se esse valor fosse investido todo mês a 1% ao mês durante cinco anos, seriam R$ 150 mil aportados e cerca de R$ 204 mil acumulados. Dá para comprar o bem à vista e ainda sobra.
O argumento do rendimento também depende de a taxa continuar alta. A Selic já esteve em 2% ao ano, em 2020. Quem montou esse plano contando com juro alto viu a conta desmoronar quando a taxa caiu.

Por que o consórcio só é bom para quem o administra
O consórcio nasceu como um grupo de pessoas com um objetivo comum, em que a cada mês alguém é contemplado. Para funcionar, quem já recebeu precisa continuar pagando a parcela reajustada pela inflação. Caso contrário, quem for contemplado daqui a cinco anos não conseguiria comprar o mesmo carro.
O resultado: o produto é interessante para quem é contemplado logo no começo, até a correção pesar. E é ruim para quem recebe no fim, porque passou anos sem render nada. No agregado, não beneficia ninguém além da administradora.
Se alguém disser que conhece um contemplado feliz, peça para ver tudo o que essa pessoa pagou e compare com o preço do bem na data da compra. O valor pago vai estar muito acima.
Quando o consórcio faz sentido
Não vou ser hipócrita e dizer que o consórcio não serve para ninguém. Ele serve para quem precisa de um bem para trabalhar e não tem acesso a nenhum outro crédito: está com o nome sujo, precisa de uma moto para fazer entregas e não tem outra saída. Nessa situação, é uma porta de acesso.
O raciocínio é o mesmo do motorista de aplicativo que financia um carro: se a alternativa é alugar e pagar o dobro da parcela, o financiamento compensa. O que precisa ser calculado é o que está ao seu alcance. Fora desse caso, consórcio não é investimento e não é alavancagem. É um jeito caro de comprar algo.
Para quem vende consórcio
Não estou dizendo para ninguém largar o emprego. O Brasil é difícil e cada um faz o que pode para sustentar a família. Mas vender o produto com essa conta é arriscado: quem comprou acreditando nela e se deu mal quando o juro caiu pode questionar a venda, e o vídeo fica gravado como prova.
Existe um caminho melhor para a experiência comercial que você já tem: tirar uma certificação do mercado financeiro e vender o que resolve o problema do cliente. Muita gente começou exatamente no consórcio, porque é a porta de entrada mais fácil. Dá para ganhar mais dinheiro sem precisar empurrar produto e sem metas absurdas.
Perguntas frequentes
Consórcio é investimento?
Não. Consórcio é uma forma de comprar um bem a prazo, sem juros, mas com taxa de administração e parcelas corrigidas. O dinheiro pago não rende para você.
Lance embutido garante a contemplação?
Não. O lance embutido só aumenta o valor da sua oferta usando parte da própria carta. Se outra pessoa oferecer mais naquele mês, ela é contemplada.
Dá para usar o rendimento do dinheiro guardado para pagar a parcela?
Só em parte. Descontado o Imposto de Renda, o rendimento fica abaixo da parcela, e sacá-lo todo mês impede o dinheiro de crescer enquanto a inflação corrói o valor.
Para quem o consórcio vale a pena?
Para quem precisa de um bem, principalmente para trabalhar, e não tem acesso a nenhuma outra forma de crédito.