13 de setembro de 2026 - por Raul sena
Consórcio como alavancagem patrimonial não fecha na conta. Quem tem R$ 80 mil, entra nesse plano e é contemplado logo no primeiro mês termina com um carro alienado, R$ 40 mil no banco e uma dívida corrigida pela inflação. Patrimônio líquido: uns R$ 13 mil. Refiz a conta do argumento que está circulando e ela está abaixo, linha por linha.
Atualizado em 29 de setembro de 2026. O texto parte do vídeo publicado em 19 de agosto de 2026, com a conta refeita por escrito.
Raramente comento vídeo de outra pessoa. Acho o formato ruim e não gosto de atrapalhar o trabalho de ninguém. Mas esse argumento cresceu demais, e o erro dele é de matemática, não de opinião.
Um aviso antes de começar. Nós somos habilitados a vender consórcio. O produto está na plataforma que operamos com o BTG Pactual, um dos nossos maiores parceiros. Bancos, corretoras e assessorias ganham muito dinheiro com ele. Falar mal do consórcio não me rende nada além de inimizade com gente de quem eu gosto. Estou falando porque a conta está errada, só isso.
E não acho que quem vende seja criminoso. Já sentei com vários vendedores, mostrei o modelo e muitos concordaram, pararam de usar o argumento e apagaram os vídeos. O problema é que eu sozinho não consigo ensinar o Brasil inteiro a fazer conta. Então vai por escrito.
Antes de assinar qualquer contrato, aprenda a fazer a conta
O que é “consórcio como alavancagem patrimonial”
É o nome bonito de um roteiro que se repete. Você tem R$ 80 mil e quer um carro de R$ 80 mil. O vendedor diz para nunca comprar à vista e propõe outra coisa:
- Uma carta de consórcio de R$ 100 mil.
- R$ 40 mil do seu bolso como lance.
- Mais R$ 20 mil de lance embutido, tirados da própria carta. Lance total: R$ 60 mil.
- Os outros R$ 40 mil ficam no banco rendendo “uns R$ 400 por mês”.
- Esse rendimento ajuda a pagar a parcela de R$ 750.
“Você saiu de R$ 40 mil para um carro de R$ 80 mil.” É essa a frase. Sobra pouco dela quando a gente olha de perto.
Ninguém garante que você vai ser contemplado
Um lance de mais da metade da carta no primeiro mês de um grupo é agressivo. A maioria dos participantes não tem esse dinheiro, então quem oferece isso tem boas chances. Boas chances não são garantia. Se alguém der R$ 41 mil naquele mês, leva. O seu dinheiro fica parado no grupo.
Faça um teste. Peça ao vendedor para escrever no contrato que você será contemplado no primeiro mês. Ele não vai conseguir, porque essa cláusula não existe. O plano inteiro depende de sorte.
Você não saiu de R$ 40 mil. Você tinha R$ 80 mil
Depois da operação, você tem um carro de R$ 80 mil alienado, R$ 40 mil no banco e uma dívida com o grupo. A prova de que o carro não é seu é simples: você vai pagar R$ 750 por ele todo mês.
Quem compra à vista sai da concessionária com o carro quitado. Quem entra nesse plano sai com metade paga e a outra metade para quitar, corrigida. É um financiamento com outro nome. Sem juros, sim, mas com taxa de administração maior e parcela reajustada.
Os R$ 400 de rendimento não pagam a parcela de R$ 750
Aceitando o rendimento de 1% ao mês sobre R$ 40 mil, o vendedor esquece o Imposto de Renda. Com a alíquota de 22,5% das aplicações mais curtas, R$ 400 viram cerca de R$ 310. Faltam R$ 440 por mês, que saem do seu salário.
Tem outro problema. Se você saca todo o rendimento para pagar a parcela, os R$ 40 mil nunca crescem. Ficam no mesmo valor enquanto a inflação come o poder de compra, ano após ano. A parcela vai no sentido contrário: sobe, porque é reajustada.
Quanto sobra de patrimônio depois do consórcio
Agora o que importa. Quanto essa pessoa tem depois da operação? Usei um cenário otimista, sem contar a depreciação do carro.
| Item | Valor |
|---|---|
| O que já foi pago do bem, descontada a taxa de administração | + R$ 32 mil |
| Dívida restante com o grupo (R$ 48 mil corrigidos por inflação de 4% ao ano ao longo de 64 parcelas) | − R$ 59 mil |
| Dinheiro guardado no banco | + R$ 40 mil |
| Patrimônio líquido | R$ 13 mil |
Quem tinha R$ 80 mil sai com cerca de R$ 13 mil de patrimônio líquido. Não existe mágica. Assumir uma dívida maior do que o dinheiro que você tinha não é alavancagem, é dívida.
A carta também não vale o que está escrito nela. Se uma carta contemplada de R$ 40 mil valesse R$ 40 mil, ninguém venderia carta contemplada com desconto. Quem tenta sair de um consórcio no meio do caminho descobre isso: ou vende com deságio ou espera o grupo acabar.
Consórcio é investimento?
Não. Para enxergar isso, troque a palavra consórcio por financiamento. Tenho R$ 200 mil na conta, dou R$ 50 mil de entrada num carro de R$ 200 mil e somo: “agora tenho um carro de R$ 200 mil e mais R$ 150 mil no banco”. Depois uso o rendimento dos R$ 150 mil para pagar a parcela.
Ninguém chama isso de alavancagem patrimonial, porque todo mundo sabe que no financiamento você paga bem mais do que o carro vale. No consórcio acontece a mesma coisa. O dinheiro que trabalhava a seu favor passa a trabalhar contra você, e ainda perde um pedaço para quem administra o grupo. Se a sua dúvida é entre os dois, eu comparo as modalidades em consórcio ou financiamento: qual dos dois escolher.
E se os R$ 80 mil ficassem rendendo?
Com juros de 14% ao ano, que era a taxa quando gravei o vídeo, R$ 80 mil passam de R$ 100 mil em dois anos e chegam perto de R$ 154 mil em cinco. Dá para conferir com os seus números na calculadora de juros compostos. Investimento e carro não competem; o consórcio só entrega o bem, e você pode comprar o mesmo bem juntando o dinheiro antes.
Vale para quem pensa em pagar R$ 2.500 por mês num consórcio. Investidos a 1% ao mês durante cinco anos, são R$ 150 mil aportados e cerca de R$ 204 mil acumulados. Compra o bem à vista e sobra.
E o argumento do rendimento depende de a taxa continuar alta. A Selic esteve em 2% ao ano em 2020. Quem montou o plano contando com juro alto viu a conta desmoronar quando a taxa caiu.

Quando o consórcio vale a pena
Não vou ser hipócrita e dizer que não serve para ninguém. Serve para quem precisa de um bem para trabalhar e não tem acesso a nenhum outro crédito. Está com o nome sujo, precisa de uma moto para fazer entrega, não tem outra porta. Aí é uma porta.
É o mesmo raciocínio do motorista de aplicativo que financia o carro: se a alternativa é alugar pagando o dobro da parcela, o financiamento compensa. O que precisa ser calculado é o que está ao seu alcance. Fora desse caso, consórcio não é investimento e não é alavancagem. É um jeito caro de comprar.
Por que o produto é bom só para quem administra
O consórcio nasceu como um grupo de pessoas com o mesmo objetivo, em que a cada mês alguém é contemplado. Para funcionar, quem já recebeu precisa continuar pagando a parcela corrigida pela inflação; senão, quem for contemplado daqui a cinco anos não compra o mesmo carro.
O resultado é conhecido. O produto é bom para quem é contemplado no começo, até a correção pesar, e ruim para quem recebe no fim, porque passou anos sem render nada. No agregado, só a administradora ganha.
Se alguém disser que conhece um contemplado feliz, peça para ver tudo o que a pessoa pagou e compare com o preço do bem na data da compra. Vai estar bem acima.
Um recado para quem vende consórcio
Não estou dizendo para ninguém largar o emprego. O Brasil é difícil e cada um faz o que pode para sustentar a família. Mas vender com essa conta é arriscado: quem comprou acreditando nela e se deu mal quando o juro caiu pode questionar a venda, e o vídeo fica gravado como prova.
Existe um caminho melhor para a experiência comercial que você já tem: tirar uma certificação do mercado financeiro e vender o que resolve o problema do cliente. Muita gente começou no consórcio, porque é a porta de entrada mais fácil. Dá para ganhar mais sem empurrar produto e sem meta absurda.
Dúvidas que sobram
Consórcio é investimento?
Não. É uma forma de comprar um bem a prazo: sem juros, mas com taxa de administração e parcela corrigida. O dinheiro que você paga não rende para você, rende para o grupo.
Lance embutido garante a contemplação?
Não. O lance embutido só aumenta a sua oferta usando parte da própria carta. Se alguém oferecer mais naquele mês, essa pessoa leva.
Dá para pagar a parcela com o rendimento do dinheiro guardado?
Só uma parte. No exemplo de R$ 40 mil rendendo 1% ao mês, sobram uns R$ 310 depois do Imposto de Renda, contra uma parcela de R$ 750. E, sacando o rendimento todo mês, o principal nunca cresce.
Para quem o consórcio vale a pena?
Para quem precisa de um bem para trabalhar e não tem acesso a nenhum outro crédito. Fora disso, é um jeito caro de comprar.