13 de setembro de 2026 - por Raul sena
A internet está cheia de histórias de quem “saiu do salário mínimo e ficou milionário”. Quase sempre falta a parte que importa: o que a pessoa teve de aprender em cada degrau. Meu primeiro salário registrado em carteira foi de R$ 550. Anos depois, cheguei a ganhar mais de R$ 100 mil por mês de salário como executivo e, já como empreendedor, a faturar R$ 900 mil num único mês.
Não escrevo isso para me vangloriar. Escrevo porque, se alguém tivesse me contado com essa sinceridade o que realmente faz uma carreira andar, eu teria chegado bem mais longe e bem mais rápido. Separei as lições de cada fase.
Ganhar mais é metade do caminho. A outra metade é fazer o dinheiro trabalhar
A herança que não aparece no extrato
Muita gente que conta história de sucesso não começou do mesmo ponto que você. Recebeu dinheiro dos pais, uma herança, uma estrutura pronta. Eu não tenho essa história: a herança financeira que recebi foram dívidas.
Mas recebi outra, que só fui valorizar depois: capital cultural. Nasci numa casa onde as pessoas liam e gostavam de estudar. Meu pai era designer gráfico e diagramador conhecido em Goiânia, e isso me colocou desde cedo perto do mercado editorial e das pessoas que faziam livros. Ser “o filho do Sena” abriu portas nos meus primeiros trabalhos.
É por isso que certos sobrenomes se repetem por gerações, mesmo quando a família quebra: educação e rede de contatos também se herdam. Se você não recebeu essa herança, dá para construí-la. Mas é bom saber que ela existe e pesa.
Degrau 1: R$ 550 e a lição da carteira de clientes
Meu primeiro registro foi numa editora pequena, com seis ou sete funcionários, que produzia livros e tinha contratos com o MEC. Na carteira digital consta trabalhador de manutenção de edificações, algo como zelador. Na prática, eu cuidava dos sites, editava fotos e fazia o que precisava, como em toda empresa pequena. O salário mínimo era R$ 510, e eu ganhava R$ 550.
Eu já fazia sites por fora e cobrava uns R$ 500 por projeto. O que mudou minha cabeça foi ver como a editora tratava os clientes: ela não esperava o cliente voltar. Quando um autor ia imprimir uma nova edição, alguém já tinha ligado para oferecer o próximo trabalho.
Parece pouco, mas foi uma virada. Passei a oferecer meus serviços antes de as pessoas precisarem deles. Quando a editora entrou em dificuldade, fiquei com a carteira de sites dela para fazer a manutenção. Fazendo sites, eu já ganhava mais do que em qualquer emprego registrado.
Degrau 2: o arquivo do jornal e o poder de perguntar
Mesmo ganhando bem com os sites, o dinheiro oscilava muito. E, em família mais pobre, o que vale é carteira assinada. Para dar estabilidade em casa, fui trabalhar num jornal de Goiânia. Um ano depois do primeiro emprego, meu salário inicial já era de R$ 1.020, quase o dobro do mínimo.
Eu trabalhava no arquivo do jornal e tinha tempo livre. Usei esse tempo para sentar na mesa dos jornalistas e fazer perguntas. Me pagavam para me ensinar: aprendi a escrever, aprendi o que é um lead, aprendi como funciona uma empresa com centenas de funcionários. Por ali passavam vereadores, deputados e governadores, e as pessoas me explicavam como o mundo funcionava.
Fui promovido muitas vezes. Poucos anos depois, o salário fixo já passava de R$ 3.800 e o último registrado foi de R$ 4.488, fora comissões. Em salários mínimos da época, seria como ganhar hoje algo em torno de R$ 11 mil a R$ 12 mil, ainda muito jovem. Cheguei a cargo de direção, fiz o site do jornal crescer e, muito novo, fui premiado entre os influentes da comunicação.

Degrau 3: o que o funcionário exemplar faz de diferente
Eu era o funcionário que toda empresa gostaria de ter. Saía da escola, almoçava na cantina do jornal e subia direto para trabalhar, muito antes do meu horário. Ninguém me pediu isso. Eu fazia porque queria.
Qualquer tarefa que me davam, eu tentava fazer da melhor maneira possível. Proatividade radical é o que faz alguém ser promovido rápido, e é muito mais rara do que parece. A maioria das pessoas faz exatamente o que foi pedido, nem um centímetro a mais.
Também aprendi que, numa empresa em dificuldade, pensar no que é melhor para o negócio é o que protege o emprego de todo mundo. Sempre olhei primeiro para a empresa. Isso me fez crescer rápido, mesmo quando não me tornava a pessoa mais querida da sala.
Degrau 4: nunca ter um trabalho só
Durante todo esse tempo, eu nunca estive em um lugar só. Larguei a faculdade de Geografia e usei o tempo livre para abrir negócios: uma empresa de sites, uma marca de camisetas, uma editora de quadrinhos. A maioria não deu muito dinheiro, mas cada uma me ensinou algo que levou à próxima.
Da editora de quadrinhos veio a renda de anúncios. Com ela aprendi a criar sites de nicho. Dos sites de nicho fui para a mídia programática. Ali aprendi arbitragem de tráfego: comprar audiência por um valor e vendê-la mais qualificada por outro. Os clientes foram crescendo, até chegarem grandes empresas e portais de comunicação.
É o que Steve Jobs chamava de connecting the dots. Você só enxerga a linha que liga os pontos olhando para trás. Os sites de Goiânia me levaram aos clientes do agro, que me levaram à mídia, que me levou aos portais. Por volta de 2018, meus sites já rendiam uns R$ 25 mil a R$ 30 mil por mês sem que eu precisasse trabalhar neles. Foi quando percebi que não dependia mais de emprego.
Degrau 5: quando só dinheiro deixa de bastar
Os primeiros milhões vieram da mídia, não dos investimentos, embora eu já investisse tudo o que sobrava. Passei anos da minha vida procurando só dinheiro. Quando ganhei muito, percebi o quanto aquilo que eu fazia era insignificante para a sociedade.
Foi nesse momento que comecei a olhar para o sistema financeiro e para quem ele realmente servia. Criei o canal Investidor Sardinha em 2019. Logo depois nasceu a AUVP, e ela tinha algo que nada antes teve para mim: ganhar dinheiro mudando para melhor a vida de quem estava ao meu redor. Contei essa parte em detalhe na minha biografia.
A lição que ninguém conta: carreira é feita de gente
Eu me considero estudioso, mas estudar não é o que mais explica o meu crescimento. O que mais pesou foi entender de gente. Empresa nenhuma tem regras sozinha: alguém definiu cada uma delas. Por isso sempre perguntei quem define a regra, e fui conversar com essa pessoa.
Algumas práticas que aprendi e uso até hoje:
- Seja útil para muita gente. Fale bem de quem trabalha com você para o chefe dele. Apresente contatos. Ajude a fechar um negócio mesmo sem ganhar nada.
- Nunca ofusque quem te ajudou. Quem te colocou num lugar precisa sentir que você vai empurrá-lo para cima, e não passar por cima dele.
- Troque favores e cobre os favores. Relações profissionais são de mão dupla, e isso não tem nada de feio.
- Chegue em quem decide. Em qualquer estrutura hierárquica, descubra quem manda de verdade e como chegar a essa pessoa.
- Investigue o que te incomoda. Se algo te dá uma pulga atrás da orelha, vá atrás. Foi assim que cada negócio meu começou.
O ser humano não está nem aí para o quanto você sabe sobre um assunto. Tudo passa pelas relações. Se eu tivesse entendido isso aos 15 anos, teria ido muito mais longe.
Perguntas frequentes
Qual foi o primeiro salário de Raul Sena?
R$ 550 por mês, numa editora de Goiânia, quando o salário mínimo era de R$ 510.
Como crescer rápido na carreira?
Na minha experiência: proatividade muito acima do que é pedido, oferecer valor antes de o cliente ou o chefe precisar, nunca depender de uma única fonte de renda e, principalmente, entender como as pessoas e as estruturas de decisão funcionam.
Ter mais de uma fonte de renda atrapalha o emprego?
Para mim foi o contrário. Os projetos paralelos me ensinaram coisas que o emprego não ensinava e, com o tempo, passaram a render mais do que o salário.