9 de janeiro de 2026 - por Raul Sena (Investidor Sardinha)
Naturalmente, uma notícia dessa magnitude desperta reações rápidas. Parte do mercado se anima com a possibilidade de ganhos financeiros, não exatamente pela queda de Maduro em si, mas pelo choque geopolítico envolvido. Outras pessoas ficam preocupadas com riscos de escalada, intervenções futuras e impactos indiretos. A realidade é que o tema é complexo demais para análises rasas.
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Venezuela e petróleo
A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, superando países como Arábia Saudita, Canadá, Irã e Rússia. Ainda assim, o contraste entre o potencial econômico e a realidade do país é evidente.
Esse dado, por si só, ajuda a desmontar a narrativa de que uma eventual intervenção externa teria como motivação exclusiva a defesa da democracia. O ac é central e isso nunca foi segredo.
Historicamente, empresas norte-americanas tinham forte presença no setor petrolífero venezuelano. A estatização promovida ainda no governo Chávez, sem compensações adequadas, deixou cicatrizes econômicas e políticas profundas. Mais recentemente, declarações explícitas do próprio Donald Trump reforçaram a intenção de controlar a transição e sobretudo, o petróleo venezuelano.
Não se trata apenas da Venezuela. O episódio reforça uma lógica já em curso no mundo: a substituição gradual do multilateralismo por ações unilaterais baseadas em força e interesse estratégico.
Quando grandes potências passam a agir sem grandes constrangimentos institucionais, abre-se um precedente perigoso. A pergunta que fica não é apenas “isso é bom ou ruim agora?”, mas“quem mais se sentirá autorizado a agir da mesma forma?”.
É nesse ponto que surgem preocupações mais amplas: Ucrânia, Oriente Médio, Taiwan. O problema não é um evento isolado, mas o padrão que começa a se consolidar.
Impactos imediatos para o Brasil e a América Latina
Do ponto de vista do mercado, o investidor global tende a olhar regiões de forma agregada. América Latina, para muitos fundos, é um bloco único. Em um cenário de maior percepção de risco, ativos latino-americanos podem sofrer, ainda que os fundamentos de cada país sejam diferentes.
No caso do Brasil, a resposta inicial do governo foi relativamente cautelosa. Houve condenação formal da violação de soberania, mas sem escalada retórica. Essa postura de neutralidade pragmática é coerente com a tradição diplomática brasileira e, possivelmente, a menos custosa economicamente.
Um alinhamento excessivo poderia gerar atritos comerciais, rever concessões tarifárias ou criar ruídos desnecessários em um momento de fragilidade política e econômica.
Efeitos no petróleo
No curtíssimo prazo, o petróleo tende a reagir com volatilidade quando há instabilidade em países produtores.
No entanto, olhando um pouco além do imediato, a saída de Maduro pode abrir espaço para a redução de sanções e para uma retomada mais organizada da produção venezuelana, agora sob forte influência norte-americana. Mais oferta no mercado, em tese, pressiona o preço do barril para baixo.
Isso tem efeitos mistos, combustíveis mais baratos ajudam a conter a inflação global.
Em contrapartida, empresas com custo de produção mais elevado, como a Petrobras, podem sofrer pressão sobre margens no médio e longo prazo. Por isso, as petroleiras americanas tendem a se beneficiar de maior protagonismo regional.
Como o Brasil deve se posicionar?
Um ponto sensível dessa discussão envolve o argumento utilizado para justificar intervenções externas com base no combate ao tráfico de drogas. Esse tipo de justificativa é especialmente delicada quando observada a partir da realidade latino-americana.
No Brasil, por exemplo, existem facções criminosas altamente organizadas, com atuação transnacional, controle territorial e influência direta em rotas internacionais do narcotráfico.
Ignorar essa realidade ao defender intervenções em países vizinhos cria uma contradição perigosa: se o critério for a existência de crime organizado, praticamente nenhum país da região estaria imune a esse tipo de ação.
Nesse contexto, um alinhamento automático a intervenções externas abre um precedente desconfortável para o próprio Brasil. Defender que outro país seja alvo de ação militar sob o argumento do narcotráfico poderia legitimar a ideia de que o mesmo poderia ser feito aqui no Brasil, o que é um absurdo.
É um raciocínio que enfraquece o princípio da soberania nacional e expõe o quanto esse tipo de narrativa precisa ser tratada com cautela.
Não é tão simples assim
A queda de um ditador não é algo a ser lamentado. É compreensível e legítimo que muitos venezuelanos celebrem esse momento. Após anos de repressão e crise, isso faz sentido.
O que não faz sentido é transformar um evento tão complexo em uma torcida política simplificada, ignorando as consequências de médio e longo prazo. Ditaduras são ruins em qualquer espectro ideológico. Intervenções armadas também têm custos, e eles raramente são pagos apenas por quem decide.
Mais do que comemorar ou condenar, o que faz sentido agora é torcer pela estabilização da região, pela reconstrução institucional da Venezuela e por uma solução que devolva o país aos venezuelanos o mais rápido possível.
No entanto, isso não ocorre tão rápido assim. É um processo complexo e que vai levar um tempo para se resolver completamente. Quer se aprofundar no assunto e entender as demais nuances a respeito? Então, assista ao vídeo em que falo um pouco mais sobre!
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