O Japão apertou o botão do caos

5 de janeiro de 2026 - por Raul Sena (Investidor Sardinha)


Durante quase três décadas, o Japão manteve sua taxa de juros próxima de zero. Esse cenário permitiu que investidores do mundo inteiro tomassem empréstimos baratos em ienes e aplicassem esses recursos em países com juros mais elevados. Essa estratégia ficou conhecida comocarry trade.

Na prática, o investidor captava dinheiro no Japão a um custo baixíssimo e direcionava esses recursos para ativos em outros mercados: títulos públicos, empresas, imóveis ou crédito privado. Tudo isso, com o objetivo de capturar a diferença entre as taxas de juros. Esse mecanismo se tornou uma das engrenagens centrais do sistema financeiro global.

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O grande financiador do mundo

Instituições japonesas desempenharam um papel decisivo nesse processo. O SoftBank, por exemplo, é um dos maiores bancos de investimento do mundo e opera alocando capital japonês em empresas e projetos espalhados por diversos países.

Startups e grandes companhias globais receberam, em algum momento, capital de origem japonesa.

Esse fluxo de dinheiro não se restringiu a empresas. Países inteiros passaram a se beneficiar desse crédito barato.

EUA, Europa e mercados emergentes absorveram volumes gigantescos desses recursos ao longo dos anos. Em 2024, o Japão possuía cerca deUS$ 3,2 trilhões investidos fora do país, sendo aproximadamenteUS$ 1,1 trilhão em títulos públicos americanos.

Esse volume é grande o suficiente para influenciar juros, preços de ativos e até a capacidade de governos financiarem seus déficits.

O que mudou no Japão

Nos últimos meses, esse cenário começou a se alterar. Os títulos públicos japoneses passaram a oferecer retornos significativamente mais altos para os padrões históricos do país:

  • Títulos de 20 anos: cerca de2,7% ao ano
  • Títulos de 30 anos: próximos de3,6%
  • Títulos de 40 anos: em torno de3,7%

Para países como o Brasil, esses números não chamam tanta atenção. Mas, para o Japão (que operou por décadas com juros próximos de zero), trata-se de uma mudança estrutural relevante.

O motivo pelo qual investidores aceitavam emprestar dinheiro ao governo japonês a juros tão baixos não era a busca por grandes retornos, mas sim por segurança. Grandes fortunas priorizam preservação de capital. Nesse contexto, o Japão sempre foi visto como um verdadeiro “porto seguro”, com risco de crédito praticamente inexistente.

O impacto sobre o carry trade

Com a alta dos juros japoneses, a lógica do carry trade começa a se desfazer. A diferença entre as taxas de juros do Japão e de países como os EUA diminuiu consideravelmente. Margens que antes giravam em torno de 3%, agora se aproximam de 1%.

Isso altera drasticamente o risco da operação, especialmente o risco cambial. Como resultado, muitos investidores japoneses passaram arepatriar recursos, optando por manter o capital aplicado dentro do próprio país. Esse movimento gera um efeito dominó global.

Consequências

O Japão é o maior credor internacional do mundo. Se ele reduz seus investimentos externos, especialmente em títulos americanos, os efeitos são imediatos:

  • Pressão na curva de juros dos EUA;
  • Dificuldade maior para o Federal Reserve reduzir taxas;
  • Volatilidade no crédito corporativo;
  • Impactos em financiamentos imobiliários;
  • Ajustes de valuation em empresas que se beneficiaram do dinheiro barato;
  • Busca global por liquidez.

Não se trata de o Japão “quebrar” o sistema, mas deretirar uma fonte essencial de financiamento, expondo fragilidades que sempre existiram.

Países altamente endividados dependem da estabilidade financeira do bloco, e qualquer estresse pode gerar desequilíbrios relevantes. Nos mercados emergentes, a ausência desse capital externo pressiona moedas, juros e crescimento econômico.

Possíveis cenários

Existem alguns caminhos possíveis para os próximos anos:

  • Ajuste gradual: o sistema se adapta lentamente, com menos liquidez e investimentos mais seletivos.
  • Ajuste abrupto: correções fiscais rápidas e quedas expressivas nos mercados.
  • Cenário otimista: o Japão controla a inflação, reduz novamente os juros e o sistema se estabiliza.
  • Cenário extremo: uma crise sincronizada de liquidez envolvendo Japão, Estados Unidos, Europa e China.

Independentemente do cenário, o período de dinheiro extremamente barato parece ter ficado para trás.

Em um ambiente mais incerto, a principal estratégia passa a ser diversificação global e foco em ativos reais e essenciais. Setores ligados a energia, água, alimentos e serviços básicos tendem a atravessar crises com mais resiliência, pois atendem necessidades permanentes da sociedade.

Crises também representam momentos de realocação de riqueza. Quem compreende os movimentos estruturais do sistema consegue identificar oportunidades antes que elas fiquem óbvias para o mercado.

Quer entender melhor sobre esse cenário e o que pode estar por vir? Então, assista ao vídeo em que comento mais sobre!

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