16 de janeiro de 2026 - por Raul Sena (Investidor Sardinha)
Se voltarmos alguns anos na história recente do Brasil, é fácil perceber que praticamente não havia carros da BYD circulando pelas ruas. Em pouco tempo, a marca saiu do anonimato para se tornar presença constante no mercado automotivo brasileiro.
Esse crescimento acelerado despertou uma série de narrativas, alguns citam uma possível “invasão chinesa”, em acordos obscuros com governos, concorrência desleal e até na ideia de que carros chineses seriam produtos inseguros ou de baixa qualidade.
Este artigo não é patrocinado pela BYD. O objetivo aqui é compreender como a empresa se formou, quais fatores explicam sua expansão global e, especialmente, o que está por trás da forte presença da marca no Brasil.
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Quem é Wang Chuanfu, o fundador da BYD?
Para entender a BYD, é fundamental conhecer a trajetória de seu fundador, Wang Chuanfu. Diferentemente do estereótipo do bilionário, Wang tem uma história marcada por dificuldades. Nascido em 1966, em uma zona rural da China, ficou órfão ainda na adolescência e precisou trabalhar cedo para ajudar a sustentar a família.
Seu irmão mais velho abandonou os estudos para que Wang pudesse continuar na escola. Em momentos de dificuldade financeira, familiares chegaram a vender joias, para comprar livros. Essa trajetória ajuda a explicar o perfil do fundador: um engenheiro disciplinado, metódico e profundamente focado em eficiência produtiva.
Wang se formou em engenharia e desenvolveu uma obsessão específica: baterias recarregáveis.
O nascimento da BYD e a lógica da eficiência
A BYD foi fundada em 1995, em Shenzhen, inicialmente como uma empresa de baterias. Enquanto os concorrentes japoneses apostavam em automação pesada e maquinário caro, Wang foi em busca de criar uma bateria recarregável. Para isso, ele adotou uma estratégia oposta: fragmentou o processo produtivo em microetapas, utilizando mão de obra intensiva para reduzir custos.
O resultado não era um produto esteticamente sofisticado ou tecnologicamente perfeito, mas um item funcional, competitivo e muito mais barato. Essa lógica permitiu à BYD se tornar rapidamente uma fornecedora relevante no mercado global de eletrônicos, priorizando custo-benefício e escala.
Curiosamente, BYD significaBuild Your Dreams(Construa seus sonhos), um nome que reflete bem a trajetória do fundador.
Da bateria ao carro
Após abrir capital e captar recursos no início dos anos 2000, a BYD tomou uma decisão que parecia, um erro estratégico: em 2003, comprou uma montadora estatal chinesa quase falida. Para muitos investidores, a decisão soou como traição. Afinal, por que uma empresa de baterias iria adquirir uma fábrica de carros?
A resposta está na estrutura industrial chinesa. Wang não comprou a montadora pelos veículos que produzia, mas pela licença, pela infraestrutura e pela capacidade produtiva. O objetivo era claro: usar os carros como “casca” para inserir o verdadeiro diferencial da empresa: as baterias.
Reconhecimento global
Os primeiros carros da BYD apresentados no mercado internacional eram, de fato, frágeis em design e acabamento. Em um salão do automóvel nos Estados Unidos, a marca chegou a ser ridicularizada. Em uma entrevista famosa, Elon Musk reagiu com deboche quando questionado sobre a BYD, apesar de a empresa já fornecer baterias para a Tesla naquela época.
O cenário começou a mudar em 2008, quando a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, investiu cerca de US$ 230 milhões por 10% da empresa. A partir desse momento, o mercado passou a enxergar a BYD com outros olhos. O diferencial estava claro: eficiência na produção de baterias, justamente o componente mais caro e estratégico de um carro elétrico.
BYD começa a dominar
Ao contrário da Tesla, que se posiciona como uma empresa de tecnologia e software, a BYD adota uma abordagem menos “sexy” e mais industrial. Seu foco está no controle da cadeia produtiva, do início ao fim.
A Blade Battery é um dos principais exemplos dessa estratégia. Baseada na química LFP, ela ganhou notoriedade por oferecer maior segurança térmica. Testes de perfuração, como o famoso “teste do prego”, mostram baixa elevação de temperatura e ausência de incêndios, ao contrário de outras químicas mais voláteis.
Esse foco em segurança se tornou um pilar de marketing, especialmente em um mercado onde o medo de incêndios em veículos elétricos ainda é forte.
A chegada da BYD ao Brasil
A entrada da BYD no Brasil ocorreu em etapas: primeiro com ônibus elétricos, depois com presença industrial e, mais recentemente, com veículos de passeio a preços agressivos e alto volume.
A BYD conta com forte apoio do governo chinês. Bancos estatais oferecem crédito a taxas inferiores às praticadas localmente, mesmo em países com juros elevados, como o Brasil. Isso faz parte de uma estratégia industrial alinhada aos planos econômicos do Estado chinês, que não exige retorno imediato, mas sim expansão geopolítica e industrial.
Além disso, o preço competitivo dos carros da BYD vem acompanhado de polêmicas. No Brasil, a empresa já foi acusada de práticas trabalhistas irregulares, incluindo denúncias de condições análogas à escravidão. Além disso, a China exerce forte influência em setores estratégicos como energia, logística e portos, reduzindo custos ao longo de toda a cadeia.
Esses fatores ajudam a explicar como a BYD consegue oferecer produtos tão competitivos, mas também levantam questionamentos importantes sobre o custo social e político dessa expansão.
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Vale a pena investir?
Atualmente, a BYD está avaliada em cerca de US$ 100 bilhões. Ainda assim, está longe do nível de hype que a Tesla já alcançou.
As duas empresas representam teses completamente diferentes. A Tesla aposta em narrativa, tecnologia e marketing agressivo. A BYD aposta em eficiência industrial, controle de cadeia e execução. Isso se reflete inclusive no acesso ao investimento: a empresa não possui BDR patrocinado no Brasil, sendo acessível apenas via ADR nos Estados Unidos.
A BYD já é uma realidade consolidada. Seu valuation não é barato, mas também não reflete euforia extrema. O mercado chinês, historicamente, negocia com múltiplos mais baixos devido a riscos regulatórios, menor transparência e forte interferência estatal.
Para quem considera investir, a recomendação é ter cautela: diversificação, exposição moderada e plena consciência dos riscos envolvidos. A BYD pode ser uma porta de entrada interessante para quem deseja exposição ao mercado chinês, desde que isso seja feito de forma consciente.
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