22 de setembro de 2026 - por Raul sena
Se você ainda não parou para pensar no tamanho do impacto que Ozempic, Mounjaro e companhia estão causando na economia, chegou a hora. Não é exagero dizer que o mundo vai ser dividido em antes e depois dessas canetas. E se elas já estão bagunçando o mercado de alimentos desse jeito, dá para imaginar o que vem por aí quando a inteligência artificial começar a substituir empresas inteiras.
Mas antes, vamos entender o quanto essas canetas estão afetando o mercado de alimentos.
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O boom do contrabando de canetas
No Rio de Janeiro, uma tosadora de animais que ganha um salário mínimo está pagando cerca de R$ 400 a cada seis semanas por uma caneta emagrecedora vinda do Paraguai. Ela já perdeu 17 kg e nunca passou por um médico, compra direto de um conhecido.
Esse caso não é exceção, é a regra. O remédio virou tão popular que boa parte de quem usa nem passa por consulta médica. E o motivo é simples: sai muito mais barato. Enquanto a consulta mensal com o médico mais a caneta original custam uma grana preta, importar do Paraguai ficou muito mais acessível.
Na farmácia, uma dose inicial de tirzepatida custa em torno de R$ 407. Vinda do Paraguai, sai por R$ 294. Para quem ganha um salário mínimo de R$ 518, essa diferença é o que decide se o tratamento é viável ou não.
Funcionamento da caneta
O mecanismo por trás desses remédios é curioso. Quando você come, o intestino manda um sinal para o cérebro dizendo que já é hora de parar. Esse sinal é o GLP-1, hormônio descoberto originalmente na saliva de um tipo de lagarto que comia só três vezes por ano.
A caneta fabrica esse sinal em laboratório, uma injeção e o freio fica acionado por sete dias. Você simplesmente para de sentir fome e perde o interesse por comidas muito calóricas ou frituras.
Como todo remédio que vira febre popular, ele também virou commodity. E no Brasil, commodity dá em contrabando.
Como o Ozempic perdeu a coroa para o Mounjaro?
Aqui entra a parte que mais interessa para quem investe. A Novo Nordisk, dona do Ozempic, perdeu 75% do valor de mercado em dois anos, saindo de 640 bilhões de dólares para menos de 160 bilhões.
O tombo foi rápido, em junho de 2024 a empresa estava no auge, a mais valiosa da Europa. Já em setembro de 2025, veio o maior corte de empregos da história da Dinamarca, com 9 mil demissões. Em fevereiro de 2026 a empresa registrou a primeira queda de receita da sua história e a ação caiu 15% em um único dia. No mesmo mês, seu remédio mais promissor perdeu para o concorrente da Eli Lilly, dona do Mounjaro, e a ação caiu mais 16%.
Em março de 2026, a patente do Ozempic caiu no Brasil e na Índia.
O resultado nos últimos cinco anos fala por si: a ação da Novo Nordisk subiu apenas 10%, enquanto a Eli Lilly disparou 400%. Três anos atrás as duas empresas valiam praticamente o mesmo. Hoje a Eli Lilly vale mais de 1 trilhão de dólares, seis vezes mais que a Novo Nordisk.
O motivo é simples: o Mounjaro emagrece mais. Em estudos de 72 semanas, ele gera 20,2% de perda de peso contra 13,7% do concorrente. Isso fez médicos e pacientes migrarem em massa, dando à Eli Lilly 60% do mercado de obesidade nos Estados Unidos.
O Brasil usa mais que a média mundial
Um dado que chama atenção: 5,5% da população brasileira já usa algum tipo de GLP-1 para emagrecer, contra uma média mundial de 3,7%. Só perdemos para os EUA, que tem 12,5% da população usando.
Mais da metade dos brasileiros que usam esses remédios não compra por canais oficiais. As vendas de GLP-1 nas farmácias brasileiras somaram R$ 11 bilhões em 2025, com projeção de R$ 20 bilhões em 2026. Um quarto de todo o crescimento das farmácias do país veio desse tipo de medicamento.
O lado ilegal também cresce forte. A importação de canetas via contrabando aumentou 85% em 2026 e hoje 51% do mercado brasileiro vem de fontes não rastreadas, incluindo produtos falsificados. Já foram registradas 83 mortes suspeitas em investigação e mais de 3.600 complicações notificadas.
A resposta veio na forma de genéricos nacionais. Enquanto o Ozempic custa R$ 999 e o concorrente da Eli Lilly R$ 1.749 por caneta, a versão genérica de uma farmacêutica nacional já sai por R$ 452, e o genérico do governo deve custar cerca de R$ 310.
O que acontece quando o Brasil inteiro emagrece?
Aqui está o ponto que realmente importa para quem pensa em investir. Quando alguém começa a usar GLP-1, o comportamento de consumo muda inteiro. O gasto em restaurante cai 8%, o gasto no mercado cai 6,5% e as calorias consumidas despencam 21%.
O JP Morgan estima uma perda de 30 a 55 bilhões de dólares por ano para o setor de alimentos e bebidas até 2030. No primeiro trimestre de 2026, o mercado de cerveja caiu 1,03%, snacks caíram 0,82%, chocolate caiu 0,72% e refrigerante caiu 0,55%. Do outro lado, água cresceu 7,9%, suplemento proteico 9,1%, academia e bem estar 9,6% e alimentos frescos 11,5%.
Ou seja, o dinheiro está migrando de alimentos ultraprocessados para produtos mais saudáveis. O Goldman Sachs estima um aumento de 1% no PIB americano se 60 milhões de pessoas passarem a usar a caneta, já que a obesidade tira mais de 3% da produtividade por pessoa.
Mas nem tudo são flores, 65% das pessoas param de usar o remédio em até um ano e 2/3 do peso perdido volta logo depois. No Brasil, 29% dos usuários relatam perda de massa magra, ou seja, perda de músculo junto com a gordura. Isso mostra que o remédio não cura, ele vende uma assinatura. Quem para, volta ao peso de antes.
Quem sai ganhando nesse novo cenário
Para quem quer investir pensando nessa mudança, alguns setores estão com o vento a favor. O varejo farmacêutico, com redes como Raia Drogasil e Pague Menos, vem se beneficiando bastante. As farmacêuticas nacionais que fabricam genéricos, como EMS, Hypera e Eurofarma, também estão numa posição interessante.
Além disso, empresas ligadas a proteína de qualidade, água, suplementos, academias e estética vivem um dos melhores momentos.
Já quem depende de volume de alimentos ultraprocessados, bebida alcoólica e fast food vai precisar se reinventar. É bem provável que nos próximos anos a gente veja essas redes mudando cardápio, reduzindo gordura e carboidrato para tentar reconquistar um consumidor que simplesmente não sente mais tanta fome.
Estamos vivendo um dos momentos mais emblemáticos da economia recente. E o mais interessante é que ainda tem gente que não percebeu o tamanho dessa virada.
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