A maior mentira sobre empreender no Brasil

23 de julho de 2026 - por raulsena1


Essa é uma pergunta que praticamente todo mundo se faz em algum momento da vida profissional. Será que vale mais a pena abrir o próprio negócio ou seguir a carreira dentro de uma empresa? A resposta pode te surpreender: essa escolha, do jeito que ela costuma ser colocada, é uma falsa dicotomia.

A maior parte das pessoas que empreenderam com sucesso não largou tudo de uma vez. Elas fizeram as duas coisas ao mesmo tempo durante um período.

Se você simplesmente abandona o emprego do dia para a noite para empreender, como tanta gente prega na internet, a chance de quebrar é muito maior do que se você for construindo o negócio aos poucos, com o tempo livre, enquanto ainda tem uma renda garantida em outro lugar.

Veja também: Qual a diferença entre Empresário Individual e MEI?

A liberdade de empreender não é bem o que parece

Uma das coisas que mais se fala sobre empreender é sobre a tal liberdade. Você escolhe o nicho, escolhe o horário, escolhe o que vai fazer. Só que tem um detalhe que pouca gente comenta: quando você abre um negócio, você deixa de ter um chefe e passa a ter vários. Cada cliente vira, na prática, um novo chefe.

Além disso, tem sócio para lidar, banco para negociar, funcionários para gerenciar. A decisão final até é sua, mas se você não sabe ouvir feedback dos seus clientes, as chances de fracassar são grandes.

Um detalhe importante: muita gente que fala sobre empreendedorismo na internet não empreende do jeito tradicional. Ela vende produto digital, que tem margem alta justamente porque não entrega nada físico. É bem diferente de administrar uma hamburgueria, por exemplo, que precisa entregar um produto de verdade todo santo dia.

A previsibilidade da CLT também é relativa

Do outro lado, existe a ideia de que a CLT traz segurança e previsibilidade. Só que vale uma pergunta: você tem certeza de que vai continuar empregado daqui a três meses? A maior parte das empresas brasileiras não premia necessariamente o mérito. Subir de cargo tem muito mais a ver com jogo político, forma de se comunicar e habilidades específicas do que simplesmente estudar e se esforçar todos os dias.

Por outro lado, a CLT funciona como um colchão de segurança que está sempre disponível. Se o seu negócio quebrar, você sempre pode voltar a ser CLT, e normalmente com mais bagagem do que tinha antes. Não é à toa que existe o conceito de intraempreendedorismo: gente que constrói espaço, sociedade e reconhecimento dentro de empresas que não fundou. Muita gente que hoje é sócia ou tem participação em negócios grandes nunca abriu a própria empresa do zero.

Trabalhar em projetos grandes tem valor

Um ponto que costuma passar batido é a possibilidade de atuar em projetos enormes quando você está empregado em uma empresa estruturada.

Passar uma fase da carreira em cargos mais baixos, dentro de companhias grandes, pode te dar uma robustez que seria praticamente impossível conseguir sozinho, empreendendo do zero.

Depois, com essa bagagem, fica mais fácil migrar para negócios menores ou até abrir o próprio.

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Quem tem o perfil para empreender?

Aqui vai um ponto contraintuitivo: o risco de empreender ou ser CLT depende muito do seu perfil. Se você é uma pessoa organizada, boa com dinheiro, que toma decisões baseadas em dados e não é impulsiva, ficar de CLT pode ser mais arriscado, porque você fica refém de decisões de empresários que muitas vezes são irresponsáveis.

Por outro lado, se você tem dificuldade com dinheiro, já acumulou dívidas ou é uma pessoa muito impulsiva, empreender tende a ser mais arriscado para você.

Vale lembrar também que quem parece tomar muito risco, como grandes empresários conhecidos, geralmente já tem um colchão financeiro gigantesco por trás. O risco real deles é bem menor do que aparenta.

Confira: Todo empreendedor precisa dessa estratégia [Guia de investimentos para empresários]

Atacante ou goleiro?

Uma forma simples de se enxergar é pensar num time de futebol. Quem tem perfil de atacante, agressivo e disposto a correr risco, costuma crescer rápido como CLT: ganha variável agressivo, trabalha em projetos grandes e faz diferença. Se quiser empreender, precisa de um goleiro ao lado, ou seja, de um sócio que segure o risco. Ou pode intraempreender.

Quem tem perfil de goleiro, organizado, cauteloso e que decide com base em dados, é justamente quem deveria considerar empreender. Parece contraintuitivo, mas, entre os empresários com quem convivo, os que mais deram certo são os mais medrosos. Eles sabem exatamente onde tomar risco. Talvez eu atraia mais esse tipo de gente, mas é o padrão que eu vejo.

A base antes de abrir um negócio

Antes de se meter a empreender, alguns pontos são essenciais e vou explicar cada um deles a seguir!

Errar faz parte do processo. Eu mesmo já tentei mais de 50 negócios ao longo da vida, e a taxa de acerto foi baixíssima. Isso é normal para quem empreende de verdade.

Ter um colchão financeiro é fundamental. O ideal é ter pelo menos 12 meses dos seus gastos fixos guardados antes de começar, sem precisar tirar nenhum centavo do próprio negócio para viver.

Testar mercados já validados é mais seguro do que inventar algo que ninguém pensou antes. Um mercado com muita concorrência costuma ser sinal de que ele é bom. Já um nicho onde só você está presente pode significar simplesmente que ninguém quis aquilo.

Evitar dívidas irreversíveis é essencial. Se o negócio não der certo, o ideal é perder apenas o que foi investido nele, nunca multiplicar esse prejuízo com empréstimos pesados.

Três testes antes de abrir a empresa

  • Você gosta de lidar com gente? Empreender é lidar com funcionários, clientes e problemas o tempo todo, e muitas vezes baixar a bola. Se não gosta de pessoas, nem tente.
  • Você gosta de estudar e de números? Muitos empresários estudaram uma vez na vida, quando abriram o negócio. Quem estuda de forma contínua sai na frente justamente porque o nível médio é baixo.
  • O negócio fica de pé sem dívida pesada? Se a margem do negócio é de 30% e o custo da dívida também é de 30%, um negócio viável deixa de ser. E a planilha aceita qualquer coisa: você prevê 100 clientes, consegue 10, e a empresa quebra.

O caminho mais seguro para empreender

Um bom caminho é começar dedicando uma fatia pequena do seu tempo, algo como 10%, a um projeto paralelo enquanto mantém o emprego atual.

Conforme a receita desse projeto for crescendo e passando a representar uma parte cada vez maior da sua renda pessoal, você vai naturalmente podendo dedicar mais tempo a ele, até o ponto em que metade da sua renda pessoal já vem dele, ou seja, o projeto já paga o mesmo que o emprego. Aí dá para cogitar se dedicar 100% a ele.

Sair de uma vez, sem esse processo gradual, é o que explica boa parte das empresas brasileiras que fecham as portas. E isso não acontece porque empreender no Brasil é impossível, mas porque muitos empresários simplesmente não se dedicam a estudar e entender o próprio negócio.

Empreendedor ou ser autônomo?

Por fim, um ponto que confunde muita gente: nem todo profissional independente é um empreendedor.

Se o seu negócio depende 100% de você, se você é a peça central de tudo, você é um artista, não um empresário. E tudo bem, só que isso muda completamente a forma como você deve precificar o seu trabalho e pensar em crescimento.

Só quando você começa a escalar, contratar pessoas e tirar o negócio da dependência exclusiva da sua presença, é que ele realmente se transforma em uma empresa. Quer entender melhor sobre as diferenças e as vantagens e desvantagens de empreender? Então, assista à aula que dei sobre o tema!

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Perguntas frequentes

É melhor empreender ou ser CLT?

Na maioria das vezes, a escolha é falsa. Boa parte de quem empreendeu com sucesso fez as duas coisas ao mesmo tempo por um período, construindo o negócio aos poucos enquanto mantinha o emprego.

Quanto guardar antes de abrir um negócio?

Pelo menos 12 meses dos seus gastos fixos. No começo, você não deve tirar dinheiro da empresa para viver.

Quando dá para largar o emprego e ficar só com o negócio?

Quando o projeto paralelo já responde por metade da sua renda pessoal, ou seja, já paga o mesmo que o emprego. Conta o dinheiro que chega para você, não o faturamento da empresa.

Todo profissional independente é empreendedor?

Não. Se o negócio depende 100% de você, você é um artista e deve cobrar preço de artista. Ele só vira empresa quando escala, contrata gente e deixa de depender exclusivamente da sua presença.

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