13 de setembro de 2026 - por Raul sena
Dá para aprender a investir sozinho, sem curso. Foi assim que eu comecei. O caminho que eu fiz tem seis passos: escolher a plataforma sabendo onde estão as armadilhas, pesquisar cada termo que não conhece, começar pela reserva de emergência, ler os livros certos, não parar de estudar e aprender o básico de planilha. Leva de dois a quatro anos para chegar a um bom nível prático. Um curso serve para encurtar isso, e eu explico no fim.
Atualizado em 29 de setembro de 2026. O texto parte do vídeo publicado em 16 de janeiro de 2023; as taxas citadas são da época.
Pode parecer estranho o fundador de uma escola de investimentos dizer isso. Mas o meu papel é ser realista. Quando comecei, não fiz curso, até porque a AUVP nem existia. Se eu aprendi sem curso, não posso dizer que existe um único jeito.
Quer encurtar o caminho para aprender a investir?
Passo 1: escolha a plataforma sabendo onde estão as armadilhas
Existem muitas plataformas no Brasil, várias anunciando taxa zero para comprar ações. Zero de verdade não existe. Alguém sempre paga a conta.
Investindo pelo banco onde já tem conta, você costuma pagar mais taxa e receber oferta de outros produtos, porque o seu dinheiro já está ali. As corretoras nasceram para tirar o investidor do banco: ações que o banco não oferecia, taxas bem mais baratas. Verdade. Mas com o tempo parte delas percebeu que a margem do banco era bem maior e passou a empurrar produto caro: fundo com taxa alta, operação estruturada, produto complexo.
Para isso, foi preciso recriar o personagem de confiança do banco. Lá era o gerente. Na corretora é o assessor de investimentos.
Como o assessor ganha dinheiro
Você abre a conta e logo alguém liga: “Sou seu assessor, vou te ajudar a investir da melhor forma”. Parece um profissional com 20 anos de mercado. Muitas vezes não é. Basta passar numa prova de certificação, e conheço gente que passou estudando dois ou três meses. Existem profissionais sérios com 30 anos de mercado, mas o nome da profissão é o mesmo. Confunde.
O que importa é a remuneração. O fixo costuma ser baixo; o resto vem do rebate: quando você investe em certos produtos, um percentual volta para quem vendeu. Se alguns produtos pagam rebate e outros não, qual você acha que vai ser oferecido? É por isso que se veem carteiras cheias de título de crédito ruim e fundo ruim. Não digo que todo assessor age de má-fé. Digo que o modelo cria um incentivo contra você, e quem vai investir sozinho precisa saber disso antes de começar.
Passo 2: pesquise cada termo que você não conhece
Comece pelos temas mais básicos e crie um hábito: ouviu um termo que não conhece, pesquise. O canal serve para isso; quando gravei, já eram quase dois mil vídeos. Não sabe o que é fundo imobiliário? Pesquise “fundos imobiliários Investidor Sardinha”. Ibovespa, Tesouro Direto, mesma coisa. Cada pesquisa leva a um termo novo, e cada termo a outra pesquisa. A base se forma assim.
Passo 3: comece pela reserva de emergência
Em algum momento você precisa investir de verdade. Antes, monte a reserva. A regra é seis meses dos custos fixos. Muita gente confunde com seis meses de salário e passa a vida tentando juntar. Ganha R$ 10 mil e gasta R$ 2 mil? A reserva é R$ 12 mil. Eu deixaria metade na conta corrente e metade no Tesouro Selic.
O Tesouro Selic é o investimento básico: rende a Selic, que na maior parte do tempo cobre a inflação e dá um troco. Quando gravei, estava em 13,75% ao ano. Só evite deixar a reserva onde você não consiga sacar se a conta for bloqueada ou o aplicativo cair. Para comparar com CDB e LCI, o comparador de renda fixa faz a conta líquida.
Recebeu uma herança ou um valor maior e está aprendendo agora? Tesouro Selic enquanto estuda. Aos poucos, conforme aprende, vá realocando. Sem pressa de fazer tudo de uma vez.
Passo 4: leia os livros certos
Perdi muito tempo lendo porcaria até descobrir o que valia a pena. Para você não passar por isso:
| Livro | Autor | Nível ou comentário |
|---|---|---|
| Pai Rico, Pai Pobre | Robert Kiyosaki | Fácil |
| Os Segredos da Mente Milionária | T. Harv Eker | Fácil |
| Investindo em Ações no Longo Prazo | Jeremy Siegel | Intermediário |
| O Investidor Inteligente | Benjamin Graham | Um pouco mais difícil |
| Ações Comuns, Lucros Extraordinários | Philip Fisher | Intermediário |
| O Andar do Bêbado | Leonard Mlodinow | Bom livro |
| Princípios | Ray Dalio | Grande, mas fácil de ler |
| Antifrágil | Nassim Taleb | Muito bem escrito |
| Security Analysis | Benjamin Graham e David Dodd | Muito difícil |
| A Random Walk Down Wall Street | Burton Malkiel | Bem mais complexo |
Os dois primeiros servem para entrar no clima de ler sobre dinheiro. O do Philip Fisher mudou minha forma de investir, mas exige base, por isso não está no começo. Princípios não fala só de investimento: é o método de um dos maiores gestores de todos os tempos para decidir qualquer coisa. Antifrágil tem gente que acha chato; eu acho um dos livros mais interessantes que já li.
Dá para ir do mais fácil ao mais difícil. Eu misturei de propósito, porque foi assim na minha vida. Ler um livro para o qual você ainda não está pronto pode ser um bom caminho. O Investidor Inteligente me ajudou justamente por isso: quando não entendia, tinha de pesquisar, e pesquisando aprendi mais rápido. Só não espere ler tudo rápido. Essa lista leva tempo, e tudo bem.

Passo 5: não pare de estudar
Comecei a estudar investimento por volta de 2012. Em 2016, quatro anos depois, eu ainda sabia pouca coisa. Sabia o básico, fazia alguma análise fundamentalista, conhecia os indicadores. Mas não tinha uma estratégia organizada.
Funcionava, o dinheiro ia virando alguma coisa. Só que, quando a Bolsa caía, eu ficava com medo. Até 2014 ainda fazia venda errada: subia demais, vendia; caía demais, vendia. Em 2016 estava mais esperto, mas ainda acreditava em muita besteira.
Por isso uma recomendação forte: desconfie de qualquer livro, conteúdo ou pessoa que te empurre para análise gráfica e opções. A vontade de fazer besteira começa pequena e cresce.
O ser humano se acostuma com tudo com que convive. Você ouve uma música que não gosta, na terceira já está cantando. Com conteúdo de investimento é igual. Se você não gostaria de ter aquele comportamento, corte aquilo do convívio. E o contrário vale: conviver com bom livro e bom estudo te torna um investidor melhor.
Passo 6: o básico de planilha
Não é obrigatório, mas um bom investidor normalmente tem uma planilha guiando as decisões. Calcula os indicadores, salva os números das empresas que acompanha, revisa depois. Facilita muito. E não custa nada: LibreOffice é gratuito, as planilhas do Google também. Com isso e os passos anteriores, você vai desenvolvendo o seu método.
Então para que serve um curso?
Se dá para aprender sozinho, por que existe a AUVP? Resposta honesta: curso não é para quem quer aprender a investir. É para quem quer economizar tempo.
Sozinho, com esse roteiro, eu estimo de dois a quatro anos até um bom nível prático. Uns dois anos, dois e meio, se for muito dedicado. Um curso bem feito encurta isso: organiza o conteúdo, tira as dúvidas e entrega ferramenta pronta, sem você descobrir sozinho como montar cada planilha.
Pense em medicina ou engenharia. Dá para aprender sozinho com o material que existe hoje? Em teoria, sim. Mas quantos prédios você derrubaria até aprender a construir um? Nos investimentos, o prédio que cai é o seu dinheiro. Eu perdi bastante no começo. Se houvesse um jeito de não ter perdido, teria pago de bom grado.
Dito isso, quem é obstinado aprende sozinho. Eu aprendi. A diferença é o tempo e os erros pelo caminho. E quem faz curso e continua estudando depois vai mais longe ainda, porque conhecimento também funciona como juros compostos. Hoje eu faço curso de praticamente tudo o que quero aprender.
Pergunta de leitor: sacar o FGTS para a reserva vale a pena?
Alguém montando a reserva num CDB de 103% do CDI queria usar o saque-aniversário do FGTS para completar o valor.
Se o dinheiro cai direto na sua conta, vale. No FGTS a correção básica é 3% ao ano mais TR; a 103% do CDI rende bem mais. A pegadinha: alguns bancos oferecem “sacar o FGTS” quando na verdade estão oferecendo um empréstimo com antecipação do saque-aniversário. Aí os juros comem o dinheiro e quase nunca compensa.
Dúvidas que sobram
É possível aprender a investir sozinho?
Sim. Eu comecei assim. Plataforma escolhida com cuidado, hábito de pesquisar, reserva montada, os livros certos e estudo contínuo. Leva de dois a quatro anos para chegar a um bom nível prático.
Por onde começar?
Pela reserva de emergência: seis meses dos custos fixos, não do salário. Tesouro Selic é o investimento básico dessa etapa.
Quais livros ler?
Para entrar no clima, Pai Rico, Pai Pobre e Os Segredos da Mente Milionária. Depois Investindo em Ações no Longo Prazo, O Investidor Inteligente e Ações Comuns, Lucros Extraordinários. Os mais difíceis da lista: Security Analysis e A Random Walk Down Wall Street.
Preciso de assessor para começar?
Não. E antes de seguir qualquer recomendação, entenda como o assessor ganha: parte da renda pode vir de rebate dos produtos que ele vende. Isso cria conflito de interesse.