13 de setembro de 2026 - por Raul sena
Dá para aprender a investir sozinho, sem fazer curso nenhum? Dá. Eu sei porque foi assim que eu comecei. Quando comecei a investir, não fiz curso de investimento, até porque a AUVP ainda nem existia.
Pode parecer estranho o fundador de uma escola de investimentos dizer isso. Mas o meu papel é ser realista. Se eu mesmo aprendi sem curso, não posso dizer que existe um único jeito de aprender. Então vou mostrar o caminho que eu fiz, passo a passo, para você repetir em casa se quiser. E, no fim, conto com sinceridade para que serve um curso.
Quer encurtar o caminho para aprender a investir?
Passo 1: escolha a plataforma sabendo onde estão as armadilhas
A primeira coisa é escolher onde você vai investir. Existem muitas plataformas no Brasil, várias anunciando taxa zero para comprar ações. Só que zero de verdade não existe. Alguém sempre paga a conta.
O que você precisa identificar é se a plataforma está alinhada com os seus objetivos. Quando você investe pelo banco onde já tem conta, costuma pagar mais taxas e receber oferta de outros produtos financeiros, porque o seu dinheiro já está ali.
As corretoras nasceram justamente para tirar os investidores dos bancos. Ofereciam ações que os bancos não ofereciam e taxas muito mais baratas. Tudo isso é verdade. Mas, com o tempo, parte delas percebeu que a margem dos bancos era bem maior e passou a empurrar produtos mais caros para os clientes: fundos com taxas altas, operações estruturadas e outros produtos complexos.
Para fazer isso, foi preciso recriar o personagem de confiança que existia no banco. No banco, era o gerente. Na corretora, é o assessor de investimentos.
Entenda como o assessor é remunerado
Você abre a conta e, pouco depois, alguém liga: “Sou seu assessor, vou te ajudar a investir da melhor forma possível”. Parece um profissional com 20 anos de mercado. Muitas vezes, não é. Para exercer a função, basta passar numa prova de certificação, e eu conheço gente que passou estudando dois ou três meses. Existem profissionais sérios com 30 anos de mercado, mas o nome da profissão é o mesmo, e isso confunde.
O ponto mais importante é a remuneração. O salário fixo costuma ser baixo. O restante vem de um mecanismo chamado rebate: quando você investe em certos produtos, um percentual volta para quem vendeu.
Pense no conflito. Se alguns produtos pagam rebate e outros não, qual você acha que vai ser oferecido? É por isso que se veem carteiras cheias de títulos de crédito de má qualidade e de fundos ruins. Não estou dizendo que todo assessor age de má-fé. Estou dizendo que o modelo cria um incentivo contra você, e quem vai investir sozinho precisa conhecer essa estrutura antes de começar.
Passo 2: aprenda a pesquisar
Se você vai aprender sozinho, comece pelos temas mais básicos. E crie um hábito: cada termo que você ouvir e não conhecer, pesquise.
O próprio canal serve para isso. Quando gravei o vídeo, já eram quase dois mil vídeos. Ouviu falar em fundos imobiliários e não sabe o que é? Pesquise “fundos imobiliários Investidor Sardinha”. Não sabe como funciona o Ibovespa, ou como investir no Tesouro Direto? Mesma coisa. Cada pesquisa leva a um termo novo, e cada termo novo leva a outra pesquisa. É assim que a base se forma.
Passo 3: invista na prática, começando pela reserva
Não adianta só teorizar. Em algum momento você precisa começar a investir de verdade. Mas, antes, monte a sua reserva de emergência.
A regra é juntar seis meses dos seus custos fixos. Muita gente confunde com seis meses de salário, e aí passa a vida tentando juntar. Se você ganha R$ 10 mil e gasta R$ 2 mil por mês, a sua reserva é de R$ 12 mil. Eu deixaria metade na conta corrente e metade no Tesouro Selic.
O Tesouro Selic é o investimento básico: rende a taxa Selic, que na maior parte do tempo cobre a inflação e ainda dá um troco. Quando gravei o vídeo, a Selic estava em 13,75% ao ano. Um cuidado: evite deixar a reserva num lugar em que você não consiga sacar se a conta for bloqueada ou o aplicativo sair do ar.
E se você está aprendendo agora, mas já recebeu uma herança ou um valor maior? Coloque no Tesouro Selic enquanto estuda. Aos poucos, conforme aprende, vá realocando. Não tenha pressa de fazer tudo de uma vez.
Passo 4: leia os livros certos
Eu perdi muito tempo lendo porcaria até descobrir o que valia a pena. Para você não passar por isso, separei os livros que mais me ajudaram:
| Livro | Autor | Nível ou comentário |
|---|---|---|
| Pai Rico, Pai Pobre | Robert Kiyosaki | Fácil |
| Os Segredos da Mente Milionária | T. Harv Eker | Fácil |
| Investindo em Ações no Longo Prazo | Jeremy Siegel | Intermediário |
| O Investidor Inteligente | Benjamin Graham | Um pouco mais difícil |
| Ações Comuns, Lucros Extraordinários | Philip Fisher | Intermediário |
| O Andar do Bêbado | Leonard Mlodinow | Bom livro |
| Princípios | Ray Dalio | Grande, mas fácil de ler |
| Antifrágil | Nassim Taleb | Muito bem escrito |
| Security Analysis | Benjamin Graham e David Dodd | Muito difícil |
| A Random Walk Down Wall Street | Burton Malkiel | Bem mais complexo |
Os dois primeiros servem para você entrar no clima de ler sobre dinheiro. O livro do Philip Fisher mudou a minha forma de investir, mas exige uma base, e é por isso que ele não aparece no começo. Princípios não fala só de investimentos: é o método de um dos maiores gestores de todos os tempos para tomar decisões em qualquer situação. Antifrágil tem gente que acha chato. Eu acho um dos livros mais interessantes que já li.
Você pode ler dos mais fáceis para os mais difíceis. Mas eu misturei de propósito, porque foi assim na minha vida. Ler um livro para o qual você ainda não está pronto pode ser um bom caminho. O Investidor Inteligente me ajudou demais justamente por isso: quando eu não entendia alguma coisa, tinha de pesquisar, e pesquisando aprendi mais rápido.
Só não espere ler tudo isso rápido. Essa lista leva tempo, e tudo bem. Com essa base, você passa a ter muito mais senso crítico sobre o que vê por aí.

Passo 5: nunca pare de estudar
Comecei a estudar investimentos por volta de 2012. Posso dizer com segurança que, em 2016, quatro anos depois, eu ainda sabia pouca coisa. Sabia o básico, fazia alguma análise fundamentalista, conhecia os indicadores. Mas não conseguia desenvolver uma estratégia organizada.
Funcionava, o dinheiro ia virando alguma coisa. Só que, quando a Bolsa caía, eu ficava com medo. Até 2014, eu ainda fazia vendas erradas: subia demais, eu vendia; caía demais, eu vendia. Em 2016 já estava mais esperto, mas ainda acreditava em muita besteira.
Por isso, uma recomendação forte: desconfie de qualquer livro, conteúdo ou pessoa que te empurre para análise gráfica e opções. A vontade de fazer besteira começa pequena e vai crescendo.
O ser humano se acostuma com tudo aquilo com que convive. Você ouve uma música que não gosta uma vez, na terceira já está cantando. Com conteúdo de investimento é igual. Se você não gostaria de ter aquele comportamento, corte aquilo do seu convívio. E o contrário também vale: conviver com bons livros e bons estudos te torna um investidor melhor.
Passo 6: aprenda o básico de planilha
Não é obrigatório, mas um bom investidor normalmente tem uma planilha para guiar as decisões. Ele calcula os indicadores, salva os números das empresas que acompanha e revisa depois. Isso facilita muito a vida.
E não precisa gastar nada com isso. O LibreOffice é gratuito, e as planilhas do Google também. Com o básico de planilha e o estudo dos passos anteriores, você vai desenvolvendo o seu próprio método.
Então para que serve um curso?
Se é possível aprender sozinho, por que existe a AUVP? A resposta honesta: um curso não é para quem quer aprender a investir. É para quem quer economizar tempo.
Sozinho, com esse roteiro, eu estimo que você leve de dois a quatro anos para chegar a um bom nível prático. Uns dois anos, dois anos e meio, se for muito dedicado. Um curso bem feito encurta esse caminho, porque organiza o conteúdo, tira as dúvidas e entrega ferramentas prontas, sem você precisar descobrir sozinho como montar cada planilha.
Pense em medicina ou engenharia. Dá para aprender sozinho com a quantidade de material que existe hoje? Em teoria, sim. Mas quantos prédios você derrubaria até aprender a construir um? Nos investimentos, o prédio que cai é o seu dinheiro. Eu perdi bastante no começo. Se houvesse um jeito de não ter perdido, eu teria pago de muito bom grado.
Dito isso, quem é obstinado aprende sozinho, sim. Eu aprendi. A diferença está no tempo e nos erros pelo caminho. E quem faz um curso e continua estudando depois tende a ir ainda mais longe, porque o conhecimento também funciona como juros compostos. Hoje, eu mesmo faço curso de praticamente tudo o que quero aprender.
Pergunta de leitor: sacar o FGTS para a reserva vale a pena?
Recebi a dúvida de alguém que está montando a reserva de emergência num CDB de 103% do CDI e queria usar o saque-aniversário do FGTS para completar o valor.
Se o dinheiro cai direto na sua conta, vale a pena. No FGTS, a correção básica é de 3% ao ano mais TR. Aplicado a 103% do CDI, rende bem mais. Só tome cuidado com uma pegadinha: alguns bancos oferecem “sacar o FGTS” quando, na verdade, estão oferecendo um empréstimo com antecipação do saque-aniversário. Nesse caso, os juros comem o dinheiro, e quase nunca compensa.
Perguntas frequentes
É possível aprender a investir sozinho?
Sim. Eu comecei assim. Com uma boa plataforma, o hábito de pesquisar, a reserva de emergência montada, bons livros e estudo contínuo, dá para chegar a um bom nível prático em dois a quatro anos.
Por onde começar a investir sozinho?
Pela reserva de emergência: seis meses dos seus custos fixos, não do seu salário. O Tesouro Selic é o investimento básico para essa etapa.
Quais livros ler para aprender a investir?
Para começar, Pai Rico, Pai Pobre e Os Segredos da Mente Milionária. Depois, Investindo em Ações no Longo Prazo, O Investidor Inteligente e Ações Comuns, Lucros Extraordinários. Os mais difíceis da lista são Security Analysis e A Random Walk Down Wall Street.
Preciso de assessor de investimentos para começar?
Não. E, antes de seguir recomendações, vale entender como o assessor é remunerado: parte da renda dele pode vir de rebate dos produtos que ele vende, o que cria conflito de interesse.