13 de setembro de 2026 - por Raul sena
Quase tudo o que eu escrevo e gravo é sobre investimento para quem está começando do zero. Mas tem muita gente que não está no zero. Está no menos dois, no menos cinco, no menos dez. E eu sei bem como é esse lugar, porque eu cresci numa casa onde todo mundo era endividado.
Pensei bastante antes de expor isso. Hoje eu não tenho dívidas, mas acho que essa história tem tudo a ver com o fato de eu ter virado educador financeiro. Então vou contar o que vivi e, principalmente, deixar um passo a passo prático para quem quer sair dessa situação.
Saiu das dívidas? Hora de fazer o dinheiro trabalhar
Eu cresci dentro de uma casa endividada
Na minha infância, era comum o telefone tocar no meio da semana e ser alguém cobrando. Às vezes era o aluguel, às vezes uma loja. Meus pais tinham menos dinheiro do que as necessidades básicas da casa, e mesmo assim a gente vivia como se fosse de classe média, com uma renda que não justificava aquilo.
Estudei em colégio que cobrava mensalidade, e a mensalidade atrasava. Escola nunca cobra a criança, então eles chamam os pais para uma reunião. E você, criança, percebe que o carnê não está pago.
Minha mãe não virou uma pessoa muito endividada de um dia para o outro. Começou com uma parcela daquilo que não podia comprar. Assim que tinha um cartão na mão, passava uma compra em 12 vezes. Comprava no impulso, como se o dinheiro fosse acabar amanhã. E viver como se o dinheiro fosse acabar amanhã fazia ele acabar hoje. Era a TV de plasma de 42 polegadas para o meio da sala, era trocar as coisas da casa, tudo sem ter o dinheiro.
O que isso me ensinou é que dívida não é só um número. Não é só alguém ligando para cobrar. Dívida é ansiedade, é vergonha, é aquele silêncio constrangedor na mesa do jantar depois da ligação, é ver os pais chorando. A dívida era a principal fonte de estresse da minha mãe, e a ansiedade que ela gerava acabou afetando a saúde dela. Talvez, lendo isto, você seja a pessoa que está chorando.
Ninguém planeja ficar endividado
Ninguém acorda e decide se endividar. Quem ganha pouco sofre mais com isso, mas, na minha visão, a dívida é sempre um sintoma. E quem está endividado muitas vezes tem uma desorganização que não fica só no lado financeiro. Eu enxergo quatro elementos que costumam aparecer juntos:
- Uma necessidade ou uma falta que a pessoa tenta suprir comprando.
- Impulsividade. Minha mãe era extremamente impulsiva, em tudo.
- Falta de planejamento de médio prazo. Ela planejava as coisas só até o fim do mês e não tinha reserva nenhuma.
- Falta de conversa. Dinheiro não era assunto discutido em casa.
Se você se reconheceu em mais de um item, não é coincidência. Por isso sair das dívidas não é só fazer conta: é mudar a forma como você lida com o dinheiro. Mas a conta vem primeiro.
Passo 1: pare de mentir para si mesmo
Quase todo mundo que está endividado não sabe o tamanho exato da própria dívida. Esse é o primeiro problema, porque não saber é uma forma de não lidar com ela.
Pegue um papel e liste tudo. Tudo mesmo. Cada cartão, cada parcela, cada empréstimo, cada conta atrasada, com o valor que falta pagar. Só assim você entende quanto deve de verdade.
Depois, organize a lista da dívida que cresce mais rápido para a que cresce mais devagar. É essa ordem que mostra onde atacar primeiro.
| Tipo de dívida | Velocidade | O que fazer |
|---|---|---|
| Financiamento imobiliário | Cresce devagar | Não é o grande problema da lista |
| Cartão de crédito | Cresce muito rápido | Priorizar e conferir se a cobrança respeita o limite legal |
| Cheque especial e similares | Cresce muito rápido | Trocar por uma dívida mais barata ou fazer acordo |
Sobre o cartão, vale saber de uma regra. Desde 2024, os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem ultrapassar o valor original da dívida. Na prática, ela pode no máximo dobrar. Se você está numa situação assim, confira se o que está sendo cobrado respeita esse limite e converse com o banco.

Passo 2: se a conta não fecha, negocie de verdade
Com a lista pronta, olhe para a sua renda com honestidade. Se você tem dinheiro suficiente para arcar com as dívidas, ótimo: pague, mesmo que parcelado, e faça acordo onde der.
Agora, se você percebeu que mesmo a parcela do acordo vai ser impossível de pagar, não adianta fingir. Assinar um acordo que você já sabe que vai quebrar só para a ligação parar é trocar um problema por outro maior.
Aqui entra uma verdade sobre o sistema financeiro: o banco prefere receber alguma coisa a não receber nada. Quando a dívida já ficou grande demais para ser paga do jeito original, o caminho é negociar uma proposta que caiba no seu bolso. Faça isso sem ansiedade, com a lista na mão, sabendo exatamente quanto você deve e quanto consegue pagar por mês. Enquanto isso, garanta o essencial para você e sua família viverem, sem pegar crédito novo para cobrir parcela velha.
Passo 3: corte o padrão de vida antes de cortar a dignidade
Esse é o passo que mais dói. Se você não tem dinheiro para ter carro, venda o carro. Se não tem condições de manter o que tem, desça um degrau.
Lembra da minha casa? A gente vivia um padrão que a renda não sustentava. É muito melhor viver de maneira digna com o dinheiro que a gente tem do que viver alavancado com o dinheiro que a gente não tem.
Passo 4: construa a reserva antes de investir
Não adianta sair da ideia de “sou todo endividado” direto para “amanhã vou virar investidor”. Antes de investir, você precisa de uma reserva de emergência de pelo menos seis meses dos seus custos fixos, guardada para que você não volte para a dívida no primeiro imprevisto.
Minha mãe não tinha reserva. Qualquer problema virava parcela, e parcela virava dívida. A reserva é o que quebra esse ciclo.
E vou ser sincero: se você está com dívidas pesadas, curso de investimento não é a sua prioridade agora. Financiamento imobiliário em dia é outra conversa. Mas cartão, cheque especial e empréstimo caro vêm antes. Primeiro você arruma a base. Depois aprende a fazer o dinheiro trabalhar.
A parte emocional que ninguém conta
O passo a passo é a parte prática. Existe uma parte emocional que pesa tanto quanto:
- Não faça piada com a sua dívida. Pode parecer leve na hora, mas alimenta culpa e vergonha.
- Não fique contando para os outros. Você fala no calor do momento e depois se arrepende. Infelizmente, quem deve costuma ser visto como um profissional mais desleixado.
- Não fique se comparando. Resolva a sua dívida.
No fim das contas, quando você deita a cabeça no travesseiro, sabe o que está perdendo: adoraria ter o nome limpo, poder comprar algo parcelado, conseguir financiar a própria casa.
E tem uma frase que eu quero que você leve: dívida não é falha moral. Insistir em ficar endividado é.
Não escrevo isto para julgar ninguém. Eu vivi isso dentro de casa. Mas também sei que a dívida destrói a vida de uma família quando ninguém tem coragem de encará-la. Conversar sobre dinheiro em casa, com seriedade, é o oposto de fazer piada com ele na roda de amigos.
Perguntas frequentes
Por onde começar para sair das dívidas?
Listando todas as dívidas no papel, com o valor que falta pagar, e ordenando da que cresce mais rápido para a que cresce mais devagar. Sem saber o tamanho do problema, não dá para resolvê-lo.
Qual dívida devo pagar primeiro?
As que crescem mais rápido, como cartão de crédito e cheque especial. Financiamento imobiliário cresce devagar e costuma ficar para depois.
A dívida do cartão de crédito pode crescer sem limite?
Não. Desde 2024, os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem passar do valor original da dívida. Ela pode, no máximo, dobrar.
Devo começar a investir antes de quitar as dívidas?
Não. Primeiro saia das dívidas caras e monte uma reserva de emergência de pelo menos seis meses dos seus custos fixos. Só depois faz sentido começar a investir.