15 de junho de 2026 - por Millena Santos
O pregão viva-voz foi uma das páginas mais marcantes da história do mercado financeiro brasileiro. Por mais de um século, grandes salões tomados por gritos, gestos e uma linguagem própria foram o cenário onde fortunas mudavam de mãos em questão de segundos.
Vamos saber mais sobre esse modelo de negociação? Boa leitura!
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O que foi o pregão viva-voz?
O pregão viva-voz foi o modelo tradicional de negociação de ativos financeiros em bolsas de valores, onde operadores se reuniam presencialmente em grandes salões para comprar e vender por meio de gritos, gestos e uma linguagem própria do ambiente, como veremos neste texto.
O sistema era agitado e funcionava como um reflexo da dinâmica do mercado, com profissionais trabalhando simultaneamente com telefones e boletas de papel. Esse formato foi sendo gradualmente substituído pelas plataformas eletrônicas e deixou de existir definitivamente entre 2005 e 2009.
Como funcionava o pregão viva-voz?
No pregão viva-voz, os operadores de corretoras se reuniam em áreas circulares chamadas “pits” para negociar ativos aos gritos e com gestos, recebendo instruções por telefone e usando termos como “tchado” para confirmar negócios e “toma” e “bate” para indicar compra e venda.
Auxiliares conhecidos como “papagaios” preenchiam as boletas de papel e atualizavam os preços nos painéis, enquanto funcionários da Bolsa atuavam como árbitros para garantir a lisura das operações. Disputas eram resolvidas com imagens de câmeras, num sistema parecido com o VAR do futebol.
O ambiente era intenso e revelava, pelo nível de barulho e agitação, o próprio humor do mercado naquele momento. Quando o otimismo tomava conta, o salão fervia. Quando o pessimismo prevalecia, a movimentação esfriava visivelmente.
Gírias do pregão viva-voz
Toda aquela agilidade descrita acima tinha um diferencial fundamental: uma linguagem própria, criada para economizar tempo em meio ao caos do salão. Os operadores usavam comandos curtos e precisos: “Toma” para comprar, “Bate” ou “Enfia” para vender e “Tchado” (abreviação de “fechado”) para confirmar o negócio.
As quantidades também tinham código próprio: “Galo” equivalia a 50 unidades, “Duque” a 200, “Terno” a 300 e “Quina” a 500. Nos preços, só os centavos eram “cantados”, e números redondos viravam “Bola”.
Quando o mercado se movia com força, o vocabulário acompanhava: “Explodiu” descrevia uma alta brusca e “Derreteu” uma queda rápida. Até as pessoas do salão tinham apelido, como os auxiliares chamados de “Papagaios”, responsáveis por preencher as boletas e atualizar os painéis de preços.
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História do pregão viva-voz
Origem do pregão viva-voz
O modelo de negociação tem origem mais antiga do que parece: nasceu na Bolsa de Amsterdã em 1530, num formato que lembrava as feiras medievais da época. O Brasil entrou nessa história em 1895, e o sistema passou por várias mudanças até chegar ao formato caótico que marcou gerações.
Na Bovespa dos primeiros anos, os corretores se posicionavam ao redor de um móvel circular chamado “corbeille”, com um diretor no centro conduzindo as ordens com calma e em ordem alfabética. Uma tentativa de modernizar esse arranjo com uma mesa chamada “avião” não foi bem recebida, pois os operadores ficavam distantes demais do centro.
O formato circular voltou, dessa vez inspirado nos “pits” americanos, e foi evoluindo até se consolidar em áreas fixas com arquibancadas e círculos marcados no chão.
Transição para o pregão eletrônico
O avanço da tecnologia e o crescimento do mercado tornaram o modelo presencial cada vez mais difícil de sustentar. Ao longo dos anos 1990 e 2000, as duas formas de negociação conviveram por um tempo, com papéis de alta movimentação, como Petrobras e Vale, saindo na frente na adoção do ambiente digital.
A virada foi acontecendo em etapas: a Bovespa desligou as luzes do salão em setembro de 2005, e a BM&F seguiu o mesmo caminho em junho de 2009.
O salto em volume foi impressionante: de cerca de 15 mil negócios por dia para picos de 18 milhões de transações realizadas em questão de microssegundos.
Fim do pregão viva-voz
A despedida do salão na Bovespa teve um gesto simbólico: os operadores rasgaram suas boletas de papel e jogaram os pedaços para cima, numa espécie de neve improvisada. Na BM&F, o ritual durou mais alguns anos antes de ser encerrado definitivamente em 2009.
A digitalização trouxe ganhos claros em escala e acesso, inclusive para investidores estrangeiros, mas também apagou uma profissão inteira do mapa. O espaço que um dia foi palco de gritos e negociações frenéticas virou um centro de memória e cultura administrado pelo MUB3.
Pregão viva-voz no Brasil
Durante mais de cem anos, comprar e vender ativos no Brasil significava estar presente fisicamente num salão barulhento, onde a intensidade dos gritos e a agitação dos operadores revelavam, em tempo real, o que o mercado estava sentindo.
Nos anos 1990, chegaram a atuar mais de 1.500 profissionais ao mesmo tempo nesse ambiente, com todo o registro sendo feito à mão, em boletas de papel, com o apoio dos chamados “papagaios”.
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