O plano econômico de Flávio Bolsonaro

1 de outubro de 2026 - por Raul sena


Flávio Bolsonaro aparece como o principal nome da direita na disputa presidencial. O Datafolha mostrava Lula com 38% e Flávio com 32% no primeiro turno, e Lula 46% x Flávio 44% no segundo, um empate técnico.

A Atlas Intel, o instituto que mais acertou nas últimas eleições, chegou a colocá-lo à frente no segundo turno (46,4% a 46,2%). A rejeição de Lula está em torno de 49%. Zema, Ratinho Jr. e Caiado aparecem entre 2% e 4%, e Curi é o único do segundo pelotão que descolou, com 6% a 10%.

Flávio foi registrado no TSE em 13 de agosto com Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice. E agora nós vamos analisar o governo “Para o Brasil vencer o atraso” e é importante ressaltar que irei analisar de maneira crítica, então vou expor tantos os pontos que acredito que são positivos, quanto os negativos.

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Um “Bolsonaro mais centrado”

Flávio se apresenta como uma versão moderada do pai, com reformas guiadas pela lógica econômica e não pela guerra cultural. Elogia Milei e sua “motosserra”, diz querer dar continuidade ao trabalho de Paulo Guedes e retoma até o slogan “mais Brasil, menos Brasília”.

A coordenação econômica está com Daniela Marques, braço direito de Guedes e ex-presidente da Caixa, e o plano foi estruturado pelo senador Rogério Marinho com economistas do governo anterior. No fim de agosto, cerca de vinte nomes de peso da Faria Lima, entre eles Campos Neto e Pedro Parente, jantaram com o candidato. Ninguém declarou apoio, mas o recado foi que ele se tornou “digerível” para o mercado. Persiste uma lacuna: não há um nome definido para o Ministério da Fazenda, e a Faria Lima gostava de Guedes.

O “tesouraço”: ajuste fiscal e reforma administrativa

É a marca registrada do plano: cortar gastos, enxugar a máquina pública e, com as contas equilibradas, abrir espaço para reduzir impostos. Na prática, isso significa cortar ao menos 10 ministérios, reduzir cargos comissionados e despesas administrativas, combater penduricalhos e supersalários e profissionalizar as agências reguladoras.

No entanto, vale lembrar que Bolsonaro passou quatro anos na Presidência e não avançou no combate a penduricalhos nem mexeu nos supersalários do Judiciário. Se o pai, com todo o estilo agressivo, não conseguiu, o que torna o filho mais capaz?

Além disso, não há tanto dinheiro assim na estrutura administrativa. O grosso do funcionalismo (professoras, zeladores, garis) ganha mal. Os supersalários estão concentrados numa elite de 2% a 3% do setor público, então o espaço para cortes é limitado. E há a questão da credibilidade: a família Bolsonaro é historicamente conhecida por estruturas de gabinete inchadas. Por que, na Presidência, o candidato se tornaria um saneador fiscal?

Nova regra fiscal: âncora na dívida

A ideia é vincular o crescimento das despesas à trajetória da dívida: os gastos crescem sempre abaixo das receitas e a diferença aumenta quando o endividamento está mais alto. A regra valeria para os 3 Poderes. O plano diz que o PT destruiu o teto de gastos e promete mecanismos mais difíceis de alterar, com a meta de reduzir a dívida/PIB para perto de 80%.

O plano destaca que a dívida/PIB subiu 13 pontos no governo Lula e caiu 4 no governo Bolsonaro, mesmo com a pandemia. É verdade, mas houve venda de estatais, o que ajuda no resultado fiscal, e isso não é repetível indefinidamente. É como vender a casa para quitar uma dívida: o saldo melhora naquele ano, mas no seguinte é preciso outra estratégia.

Reforma tributária e corte do IVA

Este é o ponto de maior atrito com o Congresso e o mais relevante para investidores. A campanha argumenta que, como foi aprovada, a reforma pode levar a alíquota-base do IVA a cerca de 30%, contra média de 19% na OCDE, e critica o volume de exceções criadas na tramitação. A proposta oficial é preservar a simplificação, reduzir a alíquota, diminuir exceções e ampliar a desoneração de exportações e investimentos.

Isso realmente seria ótimo, mas quais setores Flávio pretende tributar? Agronegócio? Educação? Particularmente, acredito que não deveria haver exceção alguma, mas duvido que o candidato tenha capital político para enfrentar as bancadas ligadas ao próprio partido. O discurso também recuou: na pré-campanha ele falou em suspender a reforma por um ano ou revogá-la, e no plano registrado aparece como “revisar e redimensionar”.

Ele diz que foram criados ou aumentados mais de 30 impostos neste governo, o que é verdade. Mas Paulo Guedes também defendeu tributar dividendos, e até Haddad (ironicamente), aproveitou parte dessas ideias. Então nesse quesito, não há um grande diferencial.

Custo de contratar e mudanças na CLT

O plano estima que um trabalhador formal custa quase o dobro do salário que recebe e defende a redução gradual do custo do trabalho sem retirar direitos, com prioridade para a formalização. É um diagnóstico correto: hoje boa parte dos trabalhadores está fora de qualquer sistema formal.

Mas, como fazer isso sem mexer em direitos? A proposta prevê dois contratos especiais, para jovens de 18 a 24 anos no primeiro emprego e para desempregados com 50 anos ou mais há pelo menos um ano, ambos com custo menor para o empregador. Isso é, sim, mexer em direitos trabalhistas, somado ao “negociado sobre o legislado” e a uma agenda sindical liberal.

No Senado, Flávio é coautor da PEC 12/2026, apelidada pelos críticos de “PEC da escala 7×0”. Simplificar é necessário, mas é preciso encontrar um meio-termo que cubra mais pessoas com mais garantias, e isso será negociado no Congresso.

Bolsa Família

Aqui há um contraste com Zema aqui, que chamou os beneficiários de “geração de imprestáveis”. Flávio promete manter os programas com melhorias de gestão, correção de distorções e combate a fraudes.

A ideia mais concreta é usar o Bolsa Família como ponte para o emprego: beneficiários teriam prioridade em primeiro emprego, qualificação e intermediação de mão de obra, e poderiam voltar ao benefício após o seguro-desemprego, reduzindo o medo de aceitar um emprego formal e perder a proteção. Essa é uma ideia muito boa.

Também vale discutir propostas que vinculem benefícios a alguma contrapartida de trabalho, como o emprego temporário no setor público. Isso não foi proposto por Flávio, mas circula no debate.

Salário mínimo e aposentadorias

Aqui a resposta foi evasiva, no Jornal Nacional, ele não confirmou se manteria a política de ganho real do salário mínimo, nem se manteria as aposentadorias vinculadas ao piso. Disse apenas que não vai tirar do “povo mais sofrido”.

Caiado foi explícito contra a desvinculação e Zema propõe um ajuste automático. Flávio ficou em silêncio, provavelmente porque qualquer resposta lhe custaria apoio, seja do eleitor, seja da Faria Lima.

Energia e combustíveis

O plano propõe reduzir gradualmente subsídios que encarecem a conta de luz, diminuir impostos sobre energia e combustível, levar a produção do pré-sal ao mercado, modernizar o refino e estimular fertilizantes nacionais.

A meta é usar energia barata e de baixa emissão para atrair data centers, inteligência artificial e indústria de maior valor agregado. É uma proposta factível, com um toque de populismo na promessa de baixar a conta de luz.

Privatizações “caso a caso”

Correios, sim; Petrobras, talvez. O plano retoma o Programa Nacional de Desestatização, com avaliação caso a caso, além de fortalecer a Lei das Estatais e blindar fundos de pensão contra indicações políticas. Ele é mais tímido que Zema e bem mais agressivo que Caiado.

Os Correios são a única certeza, com prejuízo de R$ 8,5 bilhões no ano. A Petrobras seria “fatiada”, não vendida. Segundo auxiliares, ele é contra privatizar segmentos estratégicos como combustíveis. Vale registrar que, na pré-campanha, circulou a ideia de vender 95% das estatais, número que sumiu do plano oficial.

Sobre a Petrobras, o argumento é que privatizar a empresa que dá certo não faz sentido. Ela é uma das petrolíferas mais eficientes do mundo, com lucro bilionário. Se a intenção é aumentar a competição, é possível permitir que outras empresas explorem e abram postos. Sou, em princípio, favorável a privatizações, mas os números práticos da Petrobras são bons.

Caixa e crédito: o Estado pela porta dos fundos

Críticos apontam uma exceção ao discurso liberal: a Caixa aparece no programa como instrumento para ampliar o crédito, apoiar empreendedores e executar políticas econômicas. O plano também prevê controle sobre descontos de aposentadoria do INSS e mudanças no consignado, retomando mecanismos da MP 871/2019.

Agro, minerais críticos e abertura comercial

Nesse eixo, a proposta se parece com a do Caiado: corredores logísticos, expansão do seguro rural, mais armazenagem de grãos, fertilizantes a partir de potássio e fosfato, licenciamento mais rápido na mineração e atração de capital estrangeiro para agregar valor a lítio, nióbio, grafite, cobre, níquel, urânio e terras raras.

No comércio exterior, a negociação seria com China, Estados Unidos, União Europeia e Ásia, sem alinhamento por afinidade ideológica. Sobre o tarifaço americano, ele não critica Trump, culpa Lula por ter provocado os EUA e admitiu que Eduardo errou ao agradecer pelas tarifas.

Juros e Banco Central

Não há proposta institucional sobre o Banco Central, mas há uma promessa: sua eleição contribuiria para uma queda “praticamente imediata” da Selic. A lógica do plano é que uma dívida menor cria condições para juros menores. Flávio nunca ocupou cargo executivo, e sua “vitrine” é emprestada de Guedes: a queda de 4 pontos na dívida, a menor Selic da história, o teto de gastos e a agenda de privatizações, que ele mesmo reconhece ter ficado incompleta.

Onde a conta não fecha

Cortar impostos, manter todos os programas sociais e ainda criar novos benefícios não é algo que faz sentido, a conta não fecha. Ou ele não cria os benefícios, ou não corta os impostos.

A regra fiscal ainda não existe e o teto de gastos anterior foi furado pelo mesmo grupo (com a justificativa da pandemia). Ele ficou em silêncio sobre salário mínimo e as aposentadorias. Essa experiência executiva emprestada, também não me convence.

A prioridade política dele não é a economia, é a anistia ao pai. Além disso, a governabilidade ficaria dependente de PECS. O Centrão cobra caro e o fim das emendas parlamentares dificilmente avançaria.

Milei como modelo e Trump como alinhamento, é uma coisa perigosa para o Brasil.

O que esperar?

O que se pode esperar é um Bolsonaro mais centrado, e é por isso que a Faria Lima tem interesse nele. Há ânimo no mercado, mas o plano depende de coisas que ainda não se sabe se ele conseguirá entregar: cortes reais, capital político no Congresso e coerência entre o discurso liberal e a prática.

Independentemente do cenário, este é um dos momentos mais sensíveis da história recente do país, e a bolsa brasileira vem mostrando um crescimento interessante. Os cenários mais prováveis são de corte ou de manutenção de juros elevados, e há estratégias para ambos. Também é possível diversificar com investimentos no exterior.

A regra é tomar decisões de investimento com base em análise e no seu perfil, e não na torcida por um candidato: seu patrimônio não precisa depender de quem vencer a eleição.

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