20 de janeiro de 2026 - por Raul Sena (Investidor Sardinha)
Um amigo me perguntou esses dias sobre uma coisa muito interessante: por que todo mundo no Brasil gosta de fingir que é rico? Essa reflexão ganhou ainda mais força para mim depois que li o livro”Coisa de Rico” do Michel Alcoforado. O autor é antropólogo e constrói uma análise a partir da convivência com pessoas que estão no topo da pirâmide social brasileira. O livro é bem-humorado e bastante revelador sobre como o Brasil entende riqueza, status e pertencimento e é sobre isso que vamos falar hoje!
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Um país traumatizado
A primeira hipótese é simples, ainda que desconfortável: o Brasil é um país profundamente traumatizado pela pobreza.
Ser pobre no Brasil não significa apenas ter pouco dinheiro. Significa, muitas vezes, passar por humilhações sociais explícitas. Acesso restrito, olhares desconfiados, tratamento desigual. Em muitos contextos, não basta ter dinheiro, é precisoparecerque se tem dinheiro.
Em outros países, entrar em uma loja apenas para olhar produtos é algo trivial. No Brasil, dependendo da loja, da roupa e da sua aparência, isso pode gerar constrangimento. Há relatos frequentes de pessoas que são ignoradas, mal atendidas ou até convidadas a se retirar de determinados espaços.
Nesse cenário, parecer rico funciona como um mecanismo de defesa. Quem aparenta ter dinheiro tende a ser melhor tratado, independentemente da realidade financeira. Isso cria um incentivo perverso: mais importante do que ser rico é parecer rico.
Status substitui as posses
Como não existe um “extrato bancário” visível sobre nossas cabeças, o que comunica status são os símbolos: roupas, carros, restaurantes, bebidas, camarotes.
Mesmo sem patrimônio algum, uma pessoa com os símbolos certos é tratada como alguém bem-sucedido. Isso explica por que o consumo vira uma prioridade tão grande, mesmo quando feito à custa de endividamento.
Em muitos casos, investir dinheiro não gera nenhum reconhecimento social imediato. No entanto, consumir gera. Um carro caro estacionado na porta, uma garrafa específica sobre a mesa ou um espaço reservado em uma balada produzem distinção instantânea.
Não é coincidência que o Brasil está entre os países mais endividados do mundo. Muitas pessoas preferem comprometer a renda futura para acessar hoje os símbolos que garantem respeito, atenção e o sentimento de pertencimento.
Crédito fácil
Outro fator central é o modelo de crédito brasileiro. Poucos países permitem parcelar praticamente qualquer bem de consumo em 10 ou 12 vezes.
Isso cria uma sensação de acesso que não corresponde à realidade financeira. Se a parcela “cabe no bolso”, o bem parece legítimo. Mesmo que na realidade, a pessoa não tenha condições de comprar.
O problema se agrava quando renda passa a ser confundida com riqueza. Conseguir pagar uma parcela, não significa ter patrimônio. Significa apenas assumir um compromisso financeiro.
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Redes sociais e a escalada da comparação
Até o fim dos anos 2000, a exposição era limitada. Redes como o Orkut impunham restrições: poucas fotos, poucos amigos, pouca ostentação possível.
Com o avanço das redes sociais, essa limitação desapareceu. Passamos a ver diariamente os melhores momentos de centenas ou milhares de pessoas. Viagens, restaurantes, roupas, experiências cuidadosamente selecionadas.
Ninguém posta boletos. Ninguém posta um prato de arroz com feijão do dia a dia. O que aparece é sempre o recorte mais bonito, mais caro e mais desejável.
O resultado é uma comparação constante e silenciosa. Mesmo quando as pessoas dizem que “postam para si mesmas”, o ambiente é claramente social e competitivo. E hoje, além da exibição, existe o botão de compra logo abaixo da imagem.
Como não cair nesse teatro
A pergunta mais importante não é por que fingimos ser ricos, mas como sair disso. E felizmente, existem formas de fazer isso.
1. Cuide do que você consome nas redes
Seguir perfis que empurram consumo o tempo todo, aumenta a chance de você consumir por impulso. Conteúdos que mostram a vida, sem transformar tudo em vitrine tendem a gerar menos ansiedade e comparação.
2. Troque aplauso por paz
A validação constante corrói decisões financeiras. Aquele botão que esconde a quantidade de curtidas, pra mim foi uma das melhores invenções até hoje. Deixe de depender da aprovação externa, isso vai te ajudar a se reconectar com valores reais, não com performance social.
3. Diferencie luxo de liberdade
Luxo é, muitas vezes, apenas consumo. Liberdade é poder dizer “não”. É gastar dinheiro para reduzir estresse, resolver problemas e melhorar a vida, não para impressionar.
4. Medir riqueza pela resiliência
Uma boa pergunta para se fazer é: se eu perder isso, eu sofro profundamente? Se a resposta for sim, talvez esse objeto esteja mais te aprisionando do que te beneficiando.
Construir patrimônio exige, muitas vezes, abrir mão de aparência. Parar de projetar uma imagem pode ser desconfortável, mas é libertador.
Eu sei que nada disso é fácil. A vaidade é diária, coletiva e silenciosa. Todos nós lutamos contra o impulso de parecer mais relevantes, mais interessantes ou mais bem-sucedidos do que realmente somos.
Mas existem comunidades, pessoas e espaços que valorizam outras métricas de sucesso: tranquilidade, autonomia, relações saudáveis e etc.
Quer conferir mais dicas para não cair nessa encenação de riqueza? Então, assista ao vídeo em que falo mais sobre!
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