3 de agosto de 2026 - por raulsena1
O Brasil está entrando nos últimos meses em que sonegar imposto vai ser relativamente fácil. O split payment, o novo sistema da Receita Federal, muda completamente a forma como o imposto é recolhido no país. E não, isso não é só um ajuste técnico para especialistas em contabilidade. É uma mudança que vai afetar empresários, consumidores e a economia como um todo.
Hoje muitos negócios usam o dinheiro que deveria ir para o governo como capital de giro. Recebem a venda, seguram esse valor por um tempo e só depois recolhem o imposto por guia, mas isso vai deixar de existir.
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O imposto sai antes de chegar à empresa
A lógica agora é simples. Você vendeu algo por R$ 1.000. Se uma parte disso é imposto, esse valor vai direto para o governo no momento do pagamento, seja por Pix, cartão ou boleto. A empresa só recebe o valor líquido, o que sobrou depois da retenção.
É o split payment, ou “pagamento dividido”. O sistema financeiro passa a separar a fatia do tributo e enviar automaticamente para o fisco, sem depender de nota emitida e paga depois. Isso muda tudo, porque fecha o espaço que existia entre vender e recolher, um intervalo que hoje permite atraso, erro, nota fria e sonegação.
Para dimensionar o problema, a sonegação fiscal no Brasil hoje passa a casa dos R$ 400 bilhões por ano, segundo diferentes estimativas, podendo chegar a mais de R$ 600 bilhões dependendo da metodologia usada.
Impacto nos pequenos negócios
Aqui está o ponto mais delicado. Muitos comerciantes, principalmente os pequenos, hoje sobrevivem justamente porque não recolhem todo o imposto devido. A venda informal de um brigadeiro, de um bolo de pote, de um cachorro quente na rua, muitas vezes só é viável porque parte do tributo não é paga.
Com o split payment, esse tipo de operação fica mais difícil de sustentar. A expectativa é que o governo não vá fiscalizar pesadamente os pequenos empreendedores de uma hora para outra, até porque isso poderia inviabilizar negócios que hoje geram emprego. Mas o sistema, por si só, já reduz drasticamente o espaço para esse tipo de sonegação.
Um risco real é a criação de preços diferentes dependendo da forma de pagamento, prática que já existe em menor escala hoje. Se ficar mais difícil sonegar parte do valor, alguns negócios podem tentar cobrar mais caro de quem exige nota fiscal completa.
Como o dinheiro é rastreado em tempo real?
O sistema de nota fiscal, o pagamento e o fisco agora conversam em tempo real. Cada nota fiscal eletrônica já nasce com o valor do tributo destacado nos campos de IBS e CBS, os novos impostos da reforma tributária. Existe uma plataforma pública, compartilhada entre a Receita Federal e o comitê gestor do IBS, que calcula quanto deve ser retido em cada transação.
As instituições financeiras só fazem a divisão do valor, mas a responsabilidade pelo imposto continua sendo do contribuinte. Se a retenção for menor que o devido, a empresa ainda precisa pagar a diferença depois.
Esse é, talvez, o maior problema prático da mudança. Hoje muitas empresas recebem o pagamento e usam esse dinheiro, incluindo a parte que seria do imposto, para fazer fluxo de caixa enquanto não vencem as guias de recolhimento. Com o split payment, isso deixa de ser possível, já que o valor do tributo nunca chega a entrar na conta da empresa.
Setores com margem apertada e alta rotatividade, como supermercados, tendem a sentir esse aperto primeiro. Pequenas e médias empresas com menos acesso a crédito perdem justamente o “colchão” temporário que usavam em momentos de aperto.
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Quando o split payment começa a valer?
O cronograma é gradual. Em 2026 é o ano de teste dos sistemas CBS e IBS, para calibrar tudo antes da implantação real. Em 2027 começa a fase facultativa, restrita a operações entre empresas (B2B). Depois vem a fase em que o split se torna obrigatório nas transações B2B, quando o mercado estiver maduro. Só depois disso vem a expansão para vendas ao consumidor final (B2C), e a expectativa é que essa fase avance rápido assim que começar.
Empresas do Simples Nacional ainda não têm data definida para entrar no sistema, o que é visto como um alívio temporário para os pequenos negócios, mas não é algo garantido para sempre.
As grandes empresas, que já convivem com fiscalização intensa e têm caixa suficiente, tendem a se adaptar bem. Bancos também saem ganhando, já que são eles que operacionalizam a divisão dos pagamentos. Já os pequenos empresários, que muitas vezes dependiam da sonegação para manter o negócio viável, enfrentam um cenário mais difícil, especialmente combinado com uma taxa de juros alta, que já limita crédito e consumo.
Como preparar sua empresa
Se você tem um negócio, alguns passos ajudam a se antecipar:
- Refaça as contas do caixa simulando o faturamento recebendo só o valor líquido, sem a parcela do imposto.
- Atualize seu sistema de emissão de notas fiscais, já que os campos de IBS e CBS são obrigatórios desde agosto de 2026.
- Revise contratos com fornecedores e clientes, ajustando prazos de pagamento e precificação se necessário.
- Acompanhe de perto a regulamentação, já que ainda devem sair novos atos explicando detalhes do processo.
O split payment nasce da reforma tributária e do novo IVA brasileiro, criado pela Emenda Constitucional 132 de 2023 e regulamentado pela Lei Complementar 214 de 2025. Modelos parecidos já rodam em países como Itália e Polônia, mas o Brasil tem uma vantagem (ou desvantagem, dependendo do ponto de vista): a digitalização das transações via Pix já aconteceu antes desse sistema entrar em vigor, o que torna o caminho de volta ao dinheiro físico bem mais improvável por aqui.
No fim, o imposto no Brasil deixa de ser uma promessa recolhida depois e passa a ser um débito automático. Isso simplifica a vida de quem já paga tudo certo, mas coloca uma pressão real sobre quem dependia da informalidade para sobreviver. Fica o alerta: quanto antes sua empresa se organizar para esse novo cenário, menor a chance de ser pega de surpresa.
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