21 de agosto de 2025 - por Millena Santos
No universo dos investimentos, o carry trade é uma daquelas estratégias que mistura potencial de ganhos com riscos elevados. Muito usada por investidores profissionais, ela funciona aproveitando a diferença entre taxas de juros de diferentes países para tentar gerar lucro.
Neste texto, a gente te explica mais sobre isso. Vem com a gente!
O que é carry trade?
O carry trade é uma estratégia bastante conhecida no mercado financeiro, principalmente entre investidores profissionais. A lógica por trás é relativamente simples: pegar dinheiro emprestado em um país onde a taxa de juros é mais baixa e aplicar esse valor em outro país onde os juros são mais altos.
A diferença entre essas taxas pode gerar lucro. Portanto, é como aproveitar o “custo barato” de um lugar e investir onde o retorno parece mais vantajoso.
Esse tipo de operação costuma estar muito ligado ao mercado de câmbio, já que envolve moedas de diferentes países.
Por exemplo: um investidor pode captar recursos em ienes japoneses, que historicamente têm juros baixos, e aplicar em dólares australianos ou em reais, onde a taxa costuma ser mais alta.
Apesar de parecer bastante tentador, o carry trade é considerado uma operação bem arriscada. Isso porque, além da variação das taxas de juros, também existe a oscilação cambial: se a moeda do país onde o dinheiro foi investido se desvalorizar em relação à moeda usada para tomar o empréstimo, todo o lucro pode ir embora, e, em alguns casos, virar prejuízo.
Por isso, essa estratégia é geralmente usada por grandes investidores institucionais e fundos, que têm mais ferramentas para tentar controlar os riscos. Já o investidor pessoa física normalmente não utiliza o carry trade, justamente pela complexidade e pelo alto risco envolvido.
Como funciona a carry trade?
A dinâmica da carry trade segue uma lógica de etapas.
O primeiro passo é identificar um par de moedas com diferença bem considerável entre suas taxas de juros. Normalmente, o investidor escolhe uma moeda de país com juros bem baixos, como o iene japonês, para pegar recursos emprestados, e outra moeda de país com juros mais altos, onde esse dinheiro será aplicado.
Em seguida, vem a montagem da operação, muitas vezes feita de forma alavancada. Isso significa que o investidor utiliza não apenas o capital próprio, mas também recursos adicionais emprestados, ampliando tanto o potencial de ganho quanto o risco da operação.
Por fim, o investidor mantém essa posição durante um período, esperando que o diferencial de juros se transforme em lucro. Enquanto a taxa de retorno do país de destino for maior do que o custo de captação, a operação pode render.
Quando julgar o momento ideal, ou quando os riscos começarem a aumentar, seja por instabilidade no câmbio ou por mudanças nas taxas de juros, ele decide encerrar a posição e realizar o resultado obtido.
Exemplos de carry trade
Imagine que um investidor pega dinheiro emprestado em ienes, no Japão, onde a taxa de juros está perto de 0%. Com esse valor, ele converte os ienes em reais e aplica em títulos públicos do Brasil, que pagam uma taxa bem mais alta, digamos que 10% ao ano.
Enquanto os juros no Japão ficam praticamente zerados, o dinheiro aplicado no Brasil rende bem mais. Se a cotação entre o iene e o real se mantiver estável nesse período, o investidor sai ganhando com a diferença de juros.
Mas, se o real se desvalorizar muito em relação ao iene, esse ganho pode sumir, ou até mesmo virar prejuízo.
Outro exemplo envolve o dólar americano (USD) e o dólar australiano (AUD). Neste caso, suponha que nos EUA os juros estejam em 2% ao ano, enquanto na Austrália estejam em 6%. O investidor pega dólares emprestados nos Estados Unidos, converte em dólares australianos e aplica em ativos que paguem essa taxa maior.
O ganho vem da diferença: ele paga 2% de custo nos EUA e recebe 6% na Austrália, ficando com um “spread” de 4%. Novamente, tudo depende de o câmbio não mudar de forma negativa.
Se o AUD cair frente ao USD, o lucro pode diminuir ou até virar perda.
O que avaliar no carry trade?
1- Volatilidade do câmbio
Um dos principais pontos de atenção no carry trade é a variação das moedas envolvidas. O investidor lucra com a diferença de juros, mas se a moeda em que aplicou se desvalorizar em relação àquela que foi usada para tomar o empréstimo, o ganho pode simplesmente desaparecer.
Imagine pegar dinheiro emprestado em ienes e aplicar em reais: se o real cair de valor frente ao iene, o prejuízo pode ser maior do que o lucro esperado. Por isso, acompanhar o comportamento do câmbio e entender os riscos de oscilação é essencial.
2- Aspectos macroeconômicos
O carry trade não depende apenas da relação direta entre duas moedas. Ele também é fortemente influenciado pelo cenário econômico dos países envolvidos.
Decisões de bancos centrais, inflação, crescimento econômico, crises políticas e até tensões geopolíticas podem mudar rapidamente a atratividade de uma moeda.
Por exemplo, um aumento inesperado na taxa de juros do país que oferecia juros baixos pode encarecer o custo do empréstimo e reduzir a vantagem da operação.
3- Liquidez das moedas negociadas
Por fim, outro ponto importante é avaliar a liquidez, ou seja, a facilidade de negociar as moedas envolvidas na operação. Moedas muito pouco negociadas podem gerar dificuldades na hora de entrar ou sair de uma posição, aumentando custos ou até mesmo travando o investimento.
As operações de carry trade costumam se concentrar em moedas com alta liquidez, como dólar, euro e iene, mas também podem envolver moedas emergentes, como o real ou o peso mexicano. Quanto maior a liquidez, mais previsível tende a ser o processo de negociação.
Vantagens do Carry Trade
Alavancagem
Uma das principais características do carry trade é a possibilidade de usar alavancagem, ou seja, operar com valores maiores do que realmente se tem disponível.
Isso, claro, amplia os ganhos quando a operação dá certo, embora também aumente os riscos de perda.
Diversificação dos investimentos
Como envolve moedas e economias de diferentes países, o carry trade permite que o investidor exponha sua carteira a outros mercados. Essa diversificação pode ser interessante para quem busca alternativas além dos investimentos tradicionais, como ações ou renda fixa local.
Rentabilidade passiva
Por fim, quando a operação funciona bem, o investidor consegue obter ganhos recorrentes a partir da diferença de juros entre as moedas, sem precisar negociar a todo momento.
Logo, é como receber um “fluxo de rendimento” que se mantém enquanto o cenário favorável dura.
Desvantagens e riscos do carry trade
Mudanças nas taxas de juros
Se o país que oferece juros mais altos reduzir sua taxa ou se o país onde o investidor pegou dinheiro emprestado aumentar os juros, a diferença que gerava ganho diminui, ou até desaparece. Como as políticas monetárias podem mudar de forma inesperada, esse é um risco constante.
Eventos geopolíticos
Crises políticas, guerras, mudanças de governo ou até anúncios inesperados podem afetar diretamente a confiança no mercado e provocar fortes oscilações cambiais. Nessas situações, o valor de uma moeda pode cair de um dia para o outro, comprometendo toda a operação.
Piora nos indicadores das economias fortes
Se economias consideradas estáveis, como Estados Unidos, Japão ou União Europeia, apresentarem alguns sinais de fragilidade, seja queda no PIB, aumento do desemprego ou instabilidade no sistema financeiro, os investidores tendem a buscar proteção, migrando para moedas mais seguras.
Esse movimento, claro, pode gerar grandes perdas para quem está posicionado em carry trade.
Qual a diferença entre carry trade e arbitragem?
Os dois termos são bem comuns no mercado financeiro, porém carry trade e arbitragem têm objetivos diferentes.
No caso do carry trade, a estratégia se baseia em pegar recursos emprestados em um país onde os juros são mais baixos e aplicar em outro país que paga juros mais altos.
O objetivo é lucrar com essa diferença nas taxas. Como exemplo, um investidor pode captar dinheiro em ienes japoneses, onde o custo de empréstimo costuma ser baixo, e investir em moedas de países com juros elevados, como o real brasileiro ou o dólar australiano.
Aqui, o ganho depende não só da diferença entre os juros, mas também do comportamento do câmbio , o que com certeza pode trazer bastante risco.
Já a arbitragem funciona de outra forma. Nesse caso, a ideia é explorar diferenças de preço de um mesmo ativo (ou de ativos relacionados) em mercados distintos.
Isso pode acontecer, por exemplo, quando uma ação está cotada a valores diferentes em duas bolsas de valores ou quando há desequilíbrio entre o preço à vista e o preço futuro de uma commodity. O investidor compra no mercado mais barato e vende no mais caro, aproveitando o descompasso.
Um exemplo bastante conhecido é a arbitragem “cash and carry”, em que o investidor compra um ativo no mercado à vista e, ao mesmo tempo, vende contratos futuros do mesmo ativo.
Dessa forma, a ideia é garantir um lucro praticamente sem risco, já que a diferença de preços entre os dois mercados tende a se ajustar ao longo do tempo.
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Fonte: InvesTalk, Suno, InfoMoney, Investopedia.