14 de junho de 2025 - por Sidemar Castro
Sabe o que é o risco de contraparte? É aquela sensação de quando você empresta dinheiro para alguém e fica na dúvida se vai receber de volta.
Esse tipo de risco está em todo lugar, desde o seu banco, quando você deposita dinheiro lá, até no universo das criptomoedas. Ele não escolhe lado: afeta pessoas comuns, grandes empresas e até governos.
É por isso que entender e controlar o risco de contraparte é essencial para qualquer um que lida com dinheiro, desde o investidor iniciante até as grandes instituições financeiras. Veja exemplos e como funciona.
Leia: Riscos dos investimentos: o que são e tipos existentes
O que é risco de contraparte?
Já parou para pensar que, em qualquer acordo, sempre existe a chance da outra parte não cumprir com a sua palavra? No mundo das finanças e dos negócios, chamamos isso de risco de contraparte. É aquele perigo, especialmente para empresas, de que alguém com quem você negociou não entregue o que prometeu.
Apesar de parecer o risco de crédito (quando alguém não paga um empréstimo), o risco de contraparte é diferente. Ele pode aparecer mesmo quando não há dinheiro emprestado na jogada. A grande questão é que, se a outra parte falhar, o prejuízo pode ser significativo. A boa notícia é que, muitas vezes, a perda é parcial, dependendo de como as coisas se desenrolam.
Leia mais: Saiba o que é risco de crédito e por que ele deve ser calculado
Como funciona o risco de contraparte?
Funciona assim: em qualquer transação onde há duas ou mais partes envolvidas, existe a possibilidade de uma delas não honrar o combinado. Pode ser que ela não consiga (por problemas financeiros, por exemplo) ou simplesmente não queira. E quando isso acontece, a outra parte, você, no caso, pode acabar com um prejuízo.
Vamos listar alguns exemplos do dia a dia para entender melhor:
- O Inquilino que Não Paga: Você aluga um imóvel e o inquilino, de repente, para de pagar o aluguel. Ele não cumpriu a parte dele no contrato, e você fica no prejuízo. Isso é risco de contraparte.
- O Fornecedor que Deixa na Mão: Sua empresa contrata um fornecedor para entregar um material importante em uma data específica. Se ele não entrega ou entrega com atraso, seu negócio é afetado. É um risco de contraparte.
- A Promessa no Mercado Financeiro: Imagine que você compra ações de uma empresa prometendo pagá-las em alguns dias. Se, por algum motivo, você não conseguir pagar, a pessoa que te vendeu as ações enfrenta um risco de contraparte.
O grande ponto é que esse risco não se limita a empréstimos de dinheiro, como o risco de crédito (que é só sobre pagar dívidas). O risco de contraparte aparece em qualquer tipo de contrato ou acordo. E ele pode acontecer com qualquer um: pessoas, empresas e até mesmo governos.
Entenda: Como avaliar os riscos de investimentos financeiros?
Exemplo de risco de contraparte
Vamos dar um exemplo de risco de contraparte em três situações:
- O Corretor Distraído: Suponha que você contrata um corretor para vender seu galpão por R$ 1 milhão. Por um descuido dele (e-mail sem funcionar, por exemplo), você perde várias propostas. De repente, surgem novos empreendimentos na região, e seu galpão agora vale R$ 800 mil. Essa perda de R$ 200 mil? Foi por conta da falha da contraparte.
- O Dólar que Sobe e a Falha no Banco: Uma empresa compra uma máquina de US$ 1 milhão, mas suas vendas são em reais. Para não ter prejuízo se o dólar subir, ela faz um acordo com um banco (um derivativo). Mas, por um erro do operador do banco, a operação não é fechada a tempo. No dia seguinte, o dólar sobe 2%, e a empresa paga mais caro. Mais uma vez, o prejuízo veio da falha da contraparte.
- Milhões de transações financeiras em todo o mundo carregam esse tipo de risco. Por isso, é superimportante que empresas e bancos estimem qual pode ser a perda, definam limites para cada tipo de acordo e monitorem tudo de perto. A história nos mostra, com casos como os bancos Bear Stearns e Lehman Brothers na crise de 2008, que o risco de contraparte é um fator enorme e pode gerar problemas gigantescos no sistema financeiro.
Gestão do risco de contraparte
Gerenciar o risco de contraparte é como se preparar para qualquer imprevisto em um acordo: você precisa de um plano. Vários pontos são fundamentais para fazer isso de forma eficaz.
1) Conheça a Fundo Quem Está do Outro Lado
O primeiro passo é entender a saúde financeira da outra parte, a capacidade de crédito dela. Basicamente, é saber se ela tem condições de cumprir o que prometeu. Pra descobrir isso, a gente olha coisas como:
- Ratings de crédito: São como “notas” dadas por agências especializadas (tipo Moody’s ou S&P) que indicam o quão confiável a empresa é.
- Contas da empresa: Analisar os balanços e demonstrações de resultado pra ver se ela tem muito ou pouco endividamento, como o dinheiro entra e sai (fluxo de caixa) e como o setor dela está se saindo.
Se a contraparte tem uma “nota” alta e as finanças em ordem, o risco é baixo. Se a situação é o contrário, o sinal de alerta acende.
2) Não Coloque Todos os Ovos na Mesma Cesta
Vamos supor que você depende demais de uma única pessoa ou empresa. Se ela falhar, o impacto será enorme, certo? Isso é o que chamamos de concentração de exposição. Para evitar isso, a dica é diversificar: espalhe seus acordos entre várias contrapartes.
Não existe uma regra fixa, mas muita gente tenta não ter mais de 10% da sua exposição total ligada a uma única contraparte. Na prática, esse limite pode mudar dependendo do seu tipo de negócio, mas a ideia é sempre a mesma: não se concentrar demais.
3) Detalhes do Contrato: A Sua Proteção Escrita
Os termos e condições do contrato são seus melhores amigos. Eles precisam ser claros e ter cláusulas que te protejam, como:
- Requisitos de garantia (colateral): Pedir algum bem (dinheiro, títulos) como “segurança”. Se a contraparte não cumprir, você pode usar essa garantia para cobrir suas perdas.
- Chamadas de margem (margin calls): Em acordos mais complexos, isso significa que a contraparte precisa “reforçar” a garantia se as condições de mercado mudarem.
- Cláusulas de rescisão: Deixar claro quando e como o contrato pode ser quebrado, minimizando seus prejuízos.
4) Garantias (Colateral): Um “Plano B” Concreto
Essa é uma das formas mais eficazes de se proteger. A colateralização exige que a contraparte deixe uma garantia. É como um penhor: se ela não cumprir a parte dela, você pode vender essa garantia (dinheiro, ações, etc.) para cobrir o prejuízo. É uma segurança extra pra você dormir mais tranquilo.
5) Fique de Olho e Seja Ativo!
Por fim, não basta analisar no início e esquecer. O monitoramento regular é muito importante. Fique de olho na saúde financeira e nas “notas de crédito” das suas contrapartes. Se surgirem sinais de que as coisas não vão bem, como atrasos nos pagamentos ou notícias ruins sobre a empresa, você precisa agir.
Dessa maneira, isso pode significar reduzir sua exposição (negociar menos com ela), renegociar os termos do contrato ou até procurar outras contrapartes mais seguras. Ser proativo é a chave para evitar grandes dores de cabeça.
Entenda: Aversão ao risco: o que é e como isso impacta os investidores
Estratégia de gestão de risco de crédito
Gerenciar o risco de contraparte é fundamental pra quem lida com dinheiro e acordos. Pra te ajudar a se proteger, reunimos 9 estratégias eficazes:
- Conheça Bem Quem Você Negocia
Antes de fechar qualquer negócio, investigue a fundo a saúde financeira da outra parte. Analise demonstrações financeiras, ratings de crédito e o histórico dela. Empresas como Moody’s e S&P são um bom ponto de partida pra essa pesquisa.
- Peça Garantias (Colateral)
Uma das formas mais comuns de se proteger é pedir garantias. Se a outra parte não cumprir o acordo, você tem ativos pra cobrir as perdas. Isso é bem comum em contratos mais complexos, como os de derivativos.
- Monitore Constantemente
Fique de olho na saúde financeira dos seus parceiros. Acompanhe regularmente a situação deles. Se perceber que as coisas estão desandando, reduza sua exposição ou peça garantias extras. Melhor prevenir, né?
- Use Acordos de Compensação (Netting)
Se você e a outra parte têm dívidas mútuas, use a compensação. Com isso, vocês só acertam a diferença entre o que um deve ao outro, reduzindo bastante o risco total.
- Não Coloque Todos os Ovos na Mesma Cesta
Diversifique! Negocie com várias empresas e pessoas, em vez de depender de uma só. Assim, se uma delas der problema, o prejuízo pra você será menor.
- Pense em um “Seguro” (Credit Default Swaps – CDS)
CDS funcionam como um seguro contra a inadimplência da outra parte. Se ela não cumprir o combinado, o CDS te indeniza pelas perdas. É uma ótima saída pra transações de alto valor.
- Faça Testes de Estresse
Simule cenários difíceis, como uma crise econômica forte, e veja como seus parceiros se sairiam. Os testes de estresse ajudam a identificar pontos fracos e a entender a capacidade das suas contrapartes de aguentar o tranco.
- Conte com Câmaras de Compensação
Essas instituições atuam como intermediárias em transações financeiras, garantindo que o acordo seja cumprido mesmo se uma das partes falhar. Elas são muito usadas em mercados de derivativos, trazendo mais segurança pra todo mundo.
- Use Contas de Custódia
Uma conta de custódia envolve um terceiro neutro que guarda o dinheiro ou os bens até que todas as condições do contrato sejam cumpridas. Isso evita dor de cabeça na hora do acerto, garantindo que tudo só se concretize quando o combinado for feito.
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Diferença entre risco de contraparte e risco de crédito
É muito comum as pessoas confundirem risco de contraparte com risco de crédito, e com razão! Eles são bem parecidos e, em alguns contextos, até se sobrepõem. Mas tem uma diferença chave que vale a pena entender.
Risco de Crédito
O risco de crédito é o mais conhecido. Ele acontece quando alguém pega um empréstimo ou compra algo parcelado e, por algum motivo, não consegue ou não quer pagar o que deve. É o famoso risco de levar um calote.
Pensa em situações do dia a dia:
- Você empresta dinheiro para um amigo, e ele não te paga de volta.
- Um banco concede um financiamento para comprar um carro, e a pessoa para de pagar as parcelas.
- Uma empresa emite um título de dívida (como um CDB ou uma debênture), e no vencimento, não tem dinheiro para pagar os investidores.
Em todos esses casos, o que está em jogo é a capacidade ou a vontade de pagar uma dívida. O risco de crédito está diretamente ligado a situações de endividamento.
Risco de Contraparte
Já o risco de contraparte é um conceito mais abrangente. Ele se refere ao risco de que qualquer uma das partes envolvidas em uma transação (não só de dívida) não cumpra com suas obrigações contratuais, gerando um prejuízo para a outra parte.
A grande diferença aqui é que não precisa ter um empréstimo ou dívida envolvida. Pode ser uma falha na entrega de um serviço, de um produto, ou até mesmo no cumprimento de um acordo financeiro mais complexo.
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Fontes: Top Invest, Fundacion Mapfre e Academy Binance.