Como encontrar boas ações na bolsa de valores?

7 de julho de 2026 - por raulsena1


Você já ficou na dúvida se aquela ação baratinha é uma oportunidade real ou só uma empresa mal das pernas? Essa é uma das questões mais comuns entre investidores e faz todo sentido, especialmente agora, com diversas empresas da bolsa brasileira negociando a preços baixos. No entanto, nem todas são uma oportunidade, na verdade, algumas são uma verdadeira armadilha!

A diferença entre comprar uma promoção e cair em uma armadilha está nos fundamentos. E eu vou te ensinar como separar uma coisa da outra.

Veja também: Perigo do ego nos investimentos

Preço e valor não são a mesma coisa

Essa é a primeira coisa que você precisa entender. Quando você vê a cotação de uma ação subindo e caindo todos os dias, está olhando para o preço. Ou seja, quanto aquela empresa está custando no mercado naquele momento. Mas preço e valor são coisas diferentes.

Uma ação pode custar R$ 1 e ser extremamente cara e outra pode custar R$ 100 e ser extremamente barata. O número na tela não diz nada sozinho.

Para entender se uma empresa está de fato barata, você precisa olhar o quanto de patrimônio real existe dentro dela.

Bombril x Banco do Brasil

Vamos comparar dois casos que ilustram bem essa diferença.

A Bombril (BOBR4) era negociada por volta de R$ 1,22 quando o vídeo foi publicado, em junho de 2026. Já o Banco do Brasil (BBAS3) custava por volta de R$ 19,42. Qual das duas está mais cara?

Para quem está chegando agora no mercado financeiro, parece óbvio que é o Banco do Brasil. Mas, essa comparação não faz o menor sentido.

O primeiro indicador que você precisa olhar é o PVP ou Preço sobre Valor Patrimonial.

No caso da Bombril, o PVP está negativo, em torno de -0,20 e isso significa que a empresa tem mais dívidas do que patrimônio. Se ela tem R$ 1 milhão em ativos, tem mais de R$ 1,2 milhão em dívidas. Na prática, você estaria comprando um passivo, não uma empresa.

Patrimônio líquido negativo já é, na maioria dos casos, motivo suficiente para descartar uma ação como investimento. Existe a possibilidade de turn around, quando uma empresa consegue se reorganizar e voltar ao positivo, mas o risco de ela não conseguir manter as próprias operações é muito alto. A Bombril, por exemplo, vale cerca de R$ 318 milhões em bolsa, tem um free float de apenas 8,83% (bem abaixo dos 25% recomendados no Novo Mercado) e os dados de lucro e despesa mais recentes disponíveis são de 2023.

Já o Banco do Brasil tem um PVP positivo, em torno de 0,58. Isso quer dizer que, para cada R$ 1 que o banco tem de patrimônio, você está pagando R$ 0,58. Ou seja, o lucro, a marca e os contratos, tudo isso está saindo de graça. O banco registrou lucro de R$ 29 bilhões em 2024 e de R$ 16 bilhões em 2025, e ainda assim negocia abaixo do valor patrimonial.

Mas, por que isso acontece? O mercado olha com desconfiança para estatais, já que a gestão pode mudar a cada eleição. Um novo presidente pode nomear alguém sem perfil técnico para comandar o banco e isso gera incerteza. Mas é um risco estruturalmente limitado, já que o governo não vai deixar o Banco do Brasil falir.

Margem de segurança e a fórmula de Graham

Quando você compra uma empresa que está muito abaixo do seu valor justo, você cria uma margem de segurança. Se o futuro decepcionar, a perda é menor. Se o cenário melhorar, o ganho pode ser expressivo.

Usando a Fórmula de Graham, inspirada nos critérios de Benjamin Graham, professor de Warren Buffett, para identificar ativos baratos, o preço justo do Banco do Brasil ficaria em torno de R$ 40,78. Com a ação cotada a R$ 19,42, isso representa um potencial de valorização de cerca de 108%.

Esse retorno assimétrico é exatamente o que você busca: muito a ganhar, pouco a perder. Lembrando que o máximo que você pode perder numa ação é o valor investido, diferente de um negócio próprio, onde você pode ficar com uma dívida.

Na bolsa, a responsabilidade do acionista é limitada ao capital colocado.

Barato pode ficar mais barato

Comprar uma empresa com desconto não significa que ela está livre de risco. Os indicadores podem piorar e a ação pode cair mais depois que você comprou.

A diferença está no tamanho do risco. Uma empresa lucrativa, com vantagem competitiva e negociada muito abaixo do valor patrimonial tende a atrair compradores quando o desconto fica grande demais. Já uma empresa com patrimônio negativo pode até fazer um turn around, mas carrega um risco muito maior de não conseguir manter as operações. É aí que você separa oportunidade de risco extremo.

Comprar ação é fácil. Sustentar a carteira é o problema

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Por que uma ação cai?

Existem dois tipos de razão para uma ação cair de preço: temporárias e estruturais. As razões temporárias incluem:

  • Pânico generalizado no mercado (guerra, tarifas, crise externa)
  • Resultado fraco em um trimestre específico
  • Setor fora de moda no momento
  • Vendas forçadas de fundos no fim do ano para melhorar a lâmina
  • Notícias ruins que não mudam o longo prazo (um acidente, uma campanha mal recebida)

Esses momentos costumam ser as melhores oportunidades para comprar. Investir na impulsividade alheia é uma das estratégias mais antigas do mercado.

As razões estruturais são outra história e elas incluem:

  • Perda de vantagem competitiva
  • Receita e lucro caindo há anos consecutivos
  • Produto ou setor obsoleto (Blockbuster, Kodak, máquina de escrever Olivetti)
  • Dívida alta e crescente
  • Gestão destruindo valor sistematicamente

O Pão de Açúcar é um exemplo recente: foi se desfazendo de ativos estratégicos ao longo dos anos e perdeu vantagens competitivas claras frente a novos concorrentes voltados para o público de alta renda. A Bombril passou por erros de marketing e má gestão por anos, a Parmalat também é outro caso clássico.

Quando a queda tem origem estrutural, a ação pode estar barata olhando para o passado, mas isso não significa que vai voltar. Toda derrocada começa assim.

O que caracteriza uma ação barata?

Para uma ação ser considerada uma promoção real, ela precisa reunir qualidade e desconto ao mesmo tempo. Só desconto não basta.

Procure empresas com:

  • Lucro e caixa consistentes
  • Dívida sob controle
  • Vantagem competitiva durável
  • Problema identificável e temporário (você consegue nomear qual é o problema e por que ele tende a se resolver?)
  • Boa gestão
  • Relevância futura

O Bradesco, por exemplo, passou por dificuldades claras. Tecnologia defasada, diretoria envelhecida que não acompanhou a transformação digital dos bancos. Mas a gestão atual parece ter compreendido os problemas e apresentado um plano de reorganização. Não é garantia de nada, mas é um bom sinal.

Sinais de alerta!

Além de olhar o que é bom, preste atenção nos sinais que indicam que uma ação barata pode ser uma armadilha!

Receita e margem encolhendo de forma consistente, dívida crescendo e consumindo o lucro com juros, distribuição de dividendos extraordinários sem fundamento. Por incrível que pareça, esse não é um bom sinal! Payout muito alto pode indicar que a empresa está distribuindo o que não deveria.

Outro sinal de alerta é se o setor estiver sendo substituído por uma nova tecnologia ou mudança de comportamento. E por fim, mas não menos importante. Uma ação que está barata, mas um dia foi mais cara nem sempre é uma oportunidade. Queda de longo prazo não é desconto, é tendência!

Quer se aprofundar nesses sinais, para não acabar comprando ações que não são tão boas assim? Então, assista ao vídeo em que explico mais sobre!

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Perguntas frequentes

Qual a diferença entre preço e valor de uma ação?

Preço é quanto a ação custa no mercado naquele momento. Valor tem a ver com o patrimônio e a capacidade de gerar lucro que existem dentro da empresa. Uma ação de R$ 1 pode ser cara e uma de R$ 100 pode ser barata.

O que significa P/VP negativo?

Significa que o patrimônio líquido da empresa é negativo, ou seja, ela deve mais do que tem. Na maioria dos casos, isso já basta para descartar a ação como investimento, porque o risco de a empresa não conseguir manter as operações é alto.

Uma ação com P/VP baixo pode cair ainda mais?

Pode. Barato pode ficar mais barato. Um P/VP baixo em uma empresa lucrativa cria margem de segurança, mas não elimina a chance de queda.

Como saber se a queda de uma ação é temporária ou estrutural?

Queda temporária vem de pânico no mercado, trimestre fraco, setor fora de moda ou notícia ruim que não muda o longo prazo. Queda estrutural vem de receita e lucro caindo há anos, dívida crescente, perda de vantagem competitiva ou setor ficando obsoleto.

Leia também: 6 verdades horríveis que descobri em 11 anos no mercado financeiro

Como checar se o negócio continua saudável

Antes de comprar, faça algumas perguntas sobre a empresa:

  • Fosso competitivo: o que impede um concorrente de roubar os clientes dela?
  • Espaço para crescer: ainda existe mercado para conquistar?
  • Clientes fiéis: as pessoas voltam sem precisar de desconto?
  • Reinvestimento: a empresa reinveste o dinheiro que gera?

No fim, tudo se resume a três critérios: entender por que a ação está barata, ter qualidade e ter desconto. Qualidade e desconto precisam vir juntos. Depois de comprar, é ter tranquilidade e dar tempo para a empresa trabalhar.

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