22 de outubro de 2026 - por Raul sena
Tenho recebido muitas mensagens de gente que está investindo agora e, sinceramente, isso me deixou preocupado. Vou fazer o papel de advogado do diabo e falar sobre os cuidados que quase ninguém está falando. O assunto aqui é sobre o que importa para quem investe, sem necessariamente abordar sobre política.
Veja também: O plano do Flávio é bom? Por que a ESQUERDA surtou?
Erro 1: dar a eleição como decidida
Chegaram mensagens de pessoas que já tratam a vitória de Flávio Bolsonaro como certa. O argumento é que o Datafolha mostra 49%, que o Lula se complicou, que o Congresso já está resolvido e que a bolsa vai subir sem parar.
Só que a eleição ainda não acabou. Existe segundo turno, a diferença é pequena e ainda não sabemos que cartas cada lado guarda. Qualquer informação nova pode dar um chacoalhão na bolsa, e nem precisa o Flávio perder para isso. Basta um susto para quem entrou eufórico corrigir parte da alta que vimos.
Tem outro ponto. O mercado está precificando um Flávio hipotético, mais moderado e mais alinhado com a agenda econômica. Mas, para ganhar, ele já teve que defender o fim da escala 6×1 e o aumento do Bolsa Família, pautas que impactam as empresas. Hoje temos uma expectativa, não um mandato.
Lembre que a bolsa sobe no boato e cai no fato. Tem gente comprando Taurus por achar que o CAC vai voltar, mas o Flávio nunca defendeu isso. Pode ser que aconteça, mas você precisa se apegar aos fatos, não ao “Flávio que vai mudar tudo”.
Mesmo se ele vencer, a lista de desafios é longa:
- Ajuste fiscal e superávit, algo que o Brasil não registra há muito tempo.
- Juros muito acima do patamar ideal.
- Benefícios criados na campanha, que dificilmente serão cortados de uma vez.
- Negociação delicada com Trump e com a China, sem garantia de se livrar das tarifas.
E vale o mesmo para o Lula. Se ele vencer, também terá que fazer ajuste fiscal. A diferença entre os dois governos pode ser bem menor do que a campanha sugere.
Olhe também a história, compare a bolsa nos governos de FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Nem sempre um governo de direita faz a bolsa disparar, e a ideia de que “o mercado odeia a esquerda” não se sustenta nos números.
Erro 2: apostar no varejo e nas armas por achismo
Muita gente olha para o varejo e pensa que tudo vai melhorar. Argumentam que a taxa das blusinhas caiu e que os juros vão baixar. Mas a taxa das blusinhas era uma proteção ao varejo nacional, e os juros não caem da noite para o dia.
Um alinhamento maior com os EUA também pode gerar retaliação. Se o Flávio fizer tudo o que o Trump quer, o que a China faz? Se impuser tarifas à China, quem importa de lá paga mais. Se não impuser, o Trump continua insatisfeito. Existem exigências americanas que o Brasil não vai cumprir, como o bloqueio do Pix. O Itamaraty vai ter que ser respeitado.
Ações de empresas de armas e de varejistas estão subindo por crença, e crença que não se confirma pode virar um cenário muito ruim. Para quem não está acostumado com a bolsa e viu subir 30%, a tentação é entrar agora achando que a vitória vai render mais. Só que boa parte dessa expectativa já está no preço. Boas chances de vitória não são vitória garantida, e o primeiro turno já mostrou que as urnas surpreendem.
Lembre também que as mesmas vozes que gritam “invista tudo no Brasil” estavam, no fim de 2024, mandando vender tudo e levar o dinheiro para fora. Inclusive, muitas das pessoas que falaram isso, sumiram da internet.
Leia mais: Os piores conselhos financeiros da internet
Erro 3: largar a renda fixa e correr para a bolsa no pico
Quando a bolsa subiu, apareceu gente vendendo tudo que tinha em renda fixa para migrar de uma vez para a renda variável.
Pense na lógica. Enquanto a bolsa estava barata, a pessoa ficou na renda fixa. Agora que o preço subiu 20% ou 30%, ela resolve comprar, e compra menos ações pelo mesmo dinheiro. Em vez de um aporte mensal organizado, faz uma aposta grande numa expectativa.
Enquanto isso, a renda fixa segue muito atrativa. O CDI fechou o dia 9 em 13,65% ao ano, e o boletim Focus projeta inflação de 5%. Isso dá um juro real perto de 8% ao ano, que é o sonho de qualquer investidor, com a moeda se fortalecendo. Se o cenário que você espera não se materializar, você entra na bolsa com preço alto e fica exposto a uma correção.
Quando todo mundo quer bolsa, é hora de ficar mais receoso. Quem faz aportes mensais pega fases boas e ruins e está no caminho certo. Quem decide entrar só agora por causa da euforia está apostando, e para apostar existem lugares melhores, como o cassino, onde pelo menos você se diverte.
Já falei o mesmo sobre o Bitcoin quando estava nas máximas, e o mesmo sobre o dólar a R$ 6, quando diziam que era a última chance de tirar dinheiro do país. Fui xingado nos comentários e o ciclo se repetiu.
Erro 4: abandonar a diversificação lá fora
A bolsa brasileira foi bem, e muita gente parou de investir no exterior. Só que o dólar acumula queda de 8,26% no ano. Se você deixou de diversificar porque o dólar estava caro, agora está mais barato e pode ser o melhor momento para começar.
Esse é o cenário perfeito. Se o Brasil decepcionar, você aproveitou a onda para investir fora. Se o Brasil entregar, você investiu em dólar numa boa fase e ainda tem posição aqui dentro. Parta do pressuposto de que você não é o único gênio que está percebendo tudo e mantenha a diversificação.
Em resumo: não faça aposta binária na eleição; não compre na euforia, mantenha sua renda fixa e aproveite o dólar mais barato para diversificar.
Você deve investir através de método, com aportes regulares e sem depender de um único resultado. Quem assumir o próximo governo, seja quem for, terá ajustes difíceis pela frente, e o ciclo bom da bolsa não depende só de quem ganha a eleição.
Quer entender melhor sobre esses erros e como não cometê-los? Então, assista ao vídeo em que explico tudo!
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