Os piores conselhos financeiros da internet

11 de setembro de 2026 - por raulsena1


Conteúdo de mercado financeiro é um perigo real hoje em dia. Todo mundo virou especialista de rede social e distribui conselho como se fosse fórmula mágica. Vou listar aqui os piores conselhos que já encontrei circulando por aí, explicar por que considero cada um ruim e deixar você tirar suas próprias conclusões. Se você já seguiu algum deles, não tem problema, o importante é entender o raciocínio por trás e fazer as contas com a própria cabeça.

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1. A falácia do consórcio

Desde que o sistema de consórcios foi desregulamentado no Brasil, qualquer empresa pequena passou a poder operar esse tipo de produto. Com isso surgiu um conteúdo campeão de visualizações: pegue seus 100 mil reais, compre quatro cartas contempladas de 50 mil em consórcio, fique com 200 mil, invista esse valor e use o rendimento para pagar as parcelas.

O problema é que essa conta esconde vários riscos. O primeiro é a contemplação em si: muita gente entra nesse tipo de operação, não consegue contemplar a carta e fica anos com o dinheiro parado, rendendo zero, só participando de sorteios.

O segundo problema é o reajuste das parcelas. Elas são corrigidas por algum índice, geralmente IPCA ou INCC, e esse índice varia bastante ao longo dos anos. A conta que parecia fazer sentido com a Selic em patamares altos pode não fechar de jeito nenhum quando a taxa cai, como já aconteceu nos últimos cinco anos, quando a Selic chegou a ficar em torno de 2% ao ano.

Tem ainda a taxa de administração, que costuma consumir cerca de 10% do valor logo no início das parcelas. Ou seja, dos seus 100 mil reais, uma boa fatia já vai embora antes mesmo de qualquer contemplação.

Consórcio não é investimento e não tem função de alavancagem financeira. Ele pode fazer sentido em casos específicos, como a compra de um caminhão ou de um bem mais barato, para quem não tem acesso a outras formas de crédito. Fora isso, ele tende a consumir toda a valorização do bem que está sendo comprado, principalmente em prazos longos, como o de um imóvel.

2. Cartão de crédito não é vilão pra todo mundo

Outro conselho recorrente é que cartão de crédito é sempre ruim e precisa ser cortado da vida. Esse conselho é bom para quem já teve problemas de endividamento e não consegue se organizar. Nesse caso, faz total sentido simplificar e usar só débito.

Mas para quem já tem uma vida financeira equilibrada, cortar o cartão de crédito significa abrir mão de benefícios reais: acúmulo de milhas para viagens, cashback, proteção de preço, sistema de concierge, antecipação de parcelas com desconto. Quem paga a fatura em dia e usa o cartão como ferramenta de organização de gastos ainda ganha o rendimento da Selic sobre o dinheiro que ficaria parado até o vencimento da fatura.

Cartão de crédito também costuma ser mais seguro do que débito em casos de fraude, porque o processo de contestação é mais simples e o banco tem que provar que a compra foi legítima. No débito, o dinheiro já saiu da conta e a devolução costuma ser mais demorada.

No fim das contas, cartão de crédito é uma ferramenta. Para quem não tem controle financeiro, ela pode ser perigosa. Para quem tem, ela é uma aliada.

3. Financiamento nem sempre é furada

“Junte dinheiro e pague à vista” é outro conselho popular, mas que ignora uma particularidade do mercado brasileiro. Em praticamente todo o mundo, a taxa de financiamento imobiliário fica um pouco acima da taxa básica de juros do país.

No Brasil, o funding do financiamento imobiliário vem do FGTS e da poupança, que rende bem menos que a Selic. Isso permite financiar um imóvel por uma taxa abaixo da taxa de juros vigente.

Na prática, isso quer dizer que financiamento imobiliário pode ser uma das dívidas mais vantajosas que existem no país, porque o custo do dinheiro é menor do que o retorno que ele poderia gerar investido. Muita gente também descobre que a parcela do financiamento fica menor do que o aluguel que já estava pagando.

Vale simular alugar x financiar, considerando o valor do imóvel, a entrada, o prazo, a taxa de juros oferecida, a valorização esperada do bem e o rendimento da própria carteira de investimentos. Na maior parte dos casos, financiar acaba sendo a opção mais vantajosa no longo prazo, mesmo considerando que o investidor vai parar de aportar por um tempo.

Isso não significa que quitar a casa seja sempre um erro, nem tudo é matemática. Ter o imóvel quitado dá segurança emocional em momentos de instabilidade financeira, como perda de emprego. A decisão de amortizar parcelas antecipadamente também tem lógica quando o objetivo é reduzir dívida, mesmo que matematicamente não seja a opção mais rentável.

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4. A ação ou criptomoeda da vez

“Invista nessa ação porque vai explodir” ou “compre essa criptomoeda porque vai bombar” são frases que deveriam acender um alerta imediato. Se alguém soubesse com certeza qual ativo vai subir, essa pessoa não estaria vendendo esse conselho, estaria investindo o próprio dinheiro em silêncio.

Quanto mais tempo de mercado, menos certezas um investidor costuma ter. A ideia de que estudar mais gera mais certeza sobre o que vai bombar é enganosa. O que estudar de verdade traz é capacidade de avaliar fundamentos e diversificar melhor, não a habilidade de prever picos.

A maioria dos projetos de criptomoeda tende a performar mal ao longo do tempo, e ações que sobem porque “todo mundo está falando” costumam ser resultado de hype, não de fundamento.

Isso não significa que você deve evitar esses ativos, mas sim entender que apostar tudo em uma tese porque alguém disse que vai bombar é receita para frustração.

5. Pedir demissão para empreender

Outro conselho perigoso é incentivar alguém a largar o emprego no dia seguinte e “ir atrás dos sonhos” sem reserva financeira, sem cliente e sem plano nenhum. Isso não é liberdade, é desemprego com CNPJ.

A maioria das pessoas que empreendeu com sucesso tinha uma reserva financeira sólida antes de dar o salto ou vendeu uma ideia para alguém e ficou com uma parte do negócio. Os exemplos de sucesso repentino que circulam nas redes são exceções, não regra.

O cemitério dos negócios que não deram certo é silencioso, porque quem fracassa não sobe no palco para contar a história.

Antes de seguir o conselho de alguém sobre empreendedorismo, vale perguntar qual é o histórico dessa pessoa fora da mentoria que está vendendo. Currículo, experiência prática e resultados anteriores dizem muito mais do que discurso motivacional.

6. Renda fixa não é furada

Por fim, um conselho que tem ganhado força é que renda fixa perde para a inflação e que o ideal é colocar todo o dinheiro em ativos de risco, sem deixar nada de reserva.

Esse tipo de conselho costuma vir de perfis anônimos ou vídeos curtos, sem contexto sobre quem é a pessoa por trás, de onde ela vem e qual é a realidade financeira dela. O que pode fazer sentido para um adolescente sem responsabilidades financeiras ou para alguém com renda garantida por aposentadoria, é completamente diferente do que faz sentido para quem depende do próprio salário para sobreviver.

Colocar 100% do patrimônio em um único ativo de risco, sem qualquer reserva de emergência, é uma aposta que pode sair cara justamente para quem menos pode se dar ao luxo de perder.

O risco tolerável varia de pessoa para pessoa e entender o próprio contexto é mais importante do que replicar a estratégia de quem aparece dando conselho na internet.

O antídoto para não cair nessas falácias

Nenhum desses conselhos é necessariamente errado em qualquer contexto. O problema é a generalização.

Consórcio, cartão de crédito, financiamento, ações, criptomoedas e renda fixa são ferramentas, e ferramentas funcionam bem ou mal dependendo de quem usa e como usa. Antes de seguir qualquer receita pronta, vale sempre parar, estudar e fazer as contas com a própria realidade financeira em mente.

Quer entender melhor sobre a periculosidade desses conselhos financeiros? Então, assista ao vídeo em que explico melhor sobre!

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