O plano do Flávio é bom? Por que a ESQUERDA surtou?

22 de outubro de 2026 - por Raul sena


O debate de domingo pegou fogo! Muita gente quis saber o que pensamos sobre uma promessa de Flávio Bolsonaro para quem está endividado e é sobre isso que vou falar hoje! Afinal, isso é realmente viável? De onde vai vir esse dinheiro? Mas, antes, vou explicar qual foi a proposta feita durante o debate.

Em resumo, o governo compraria as dívidas dos bancos, e os juros começariam a cair já no início do mandato. Pessoas físicas teriam 6 meses de carência, sem pagar boleto algum. Para empresas, a carência seria de 1 ano. Depois disso, a Caixa refinanciaria o saldo com prazo maior, juro menor e parcelas bem mais leves.

Veja também: O plano econômico de Flávio Bolsonaro

Primeiro problema: juros não são competência do presidente

Nenhum político pode prometer cortar a taxa de juros. Quem decide isso é o Banco Central, que é independente desde o governo de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Nos dois primeiros anos de um eventual governo Flávio, o presidente do BC continua sendo Gabriel Galípolo, que tem mandato e autonomia.

Muita gente achava que Galípolo, por ter sido indicado por Lula, não faria um trabalho técnico, mas ele tem feito. Respeita a inflação e corta os juros na medida do possível e não na medida que o PT gostaria.

Se Flávio tentasse acabar com a independência do BC, o efeito seria o contrário do prometido: os juros subiriam, porque o mercado leria isso como interferência. Ainda assim, há uma interpretação mais generosa. Ele pode estar dizendo que, por ser mais liberal e preferido pelo mercado, sua chegada ao poder já reduziria o risco, derrubaria o dólar, atrairia investimento estrangeiro e abriria espaço para o BC cortar. É plausível, mas ele poderia ter sido mais claro sobre como isso funcionaria na prática.

Plano na prática

  1. O governo compra as dívidas dos bancos com grande desconto. Isso já existe no mercado: os bancos vendem carteiras para empresas de cobrança, como a Recovery do Itaú e a Ativos do Banco do Brasil, por algo em torno de 10% a 20% do valor de face.
  2. A dívida fica congelada e deixa de ser problema dos bancos.
  3. A Caixa refinancia o saldo, e é ela quem fica com o risco de não receber.

Note quem ganha mais aqui. A população é ajudada, mas os bancos são ajudados bem mais, porque tiram da conta dívidas que dificilmente receberiam. Também não é igual ao Plano Collor, já que aqui o governo compra a dívida, e não confisca nada.

O tamanho do buraco

Os números mostram por que o assunto é sério:

  • 83,9 milhões de brasileiros estão inadimplentes, um recorde em julho de 2026, com R$ 539 bilhões em dívidas.
  • 9,2 milhões de empresas estão negativadas, devendo R$ 238,6 bilhões.
  • 28,9% da renda das famílias vai para o pagamento de dívidas, o maior nível da série histórica.

Algo precisa ser feito. O problema é a conta: a campanha fala em R$ 200 bilhões de espaço no orçamento, vindos de cortes de despesas, imóveis da União, royalties e venda de recebíveis. Não há detalhe sobre quem entra, qual o limite por pessoa ou quanto custa. É uma proposta com cheiro de eleitoreira.

O lado bom da proposta

  • Comprar dívida com desconto é prática normal de mercado.
  • O alívio seria imediato para quem está sufocado.
  • Cortar R$ 200 a R$ 250 bilhões em despesas, se acontecesse de verdade, derrubaria os juros para todo mundo, inclusive para quem está em dia.
  • A pausa nas parcelas não é inédita: em 2020, os bancos renegociaram 16,8 milhões de contratos, somando R$ 971 bilhões, com até 180 dias de carência. A diferença é que foi voluntário, negociado banco a banco e só para quem estava em dia.

O lado ruim

  • Premia quem atrasou: Quem pagou tudo certinho ganha zero de desconto e nenhum mês de folga. Quem estava atrasado recebe carência e ainda desconto. O Brasil faz isso toda hora, e quem paga em dia sai perdendo.
  • Estimula o calote: O congelamento só valeria a partir de 2027, com a posse em 1º de janeiro. Quantas pessoas vão parar de pagar agora, esperando o benefício? Anunciar uma medida dessas na véspera do segundo turno pode gerar uma onda de inadimplência.
  • Pode pressionar a inflação: Colocar tanto dinheiro na economia de uma vez aquece o consumo, e isso pode impedir o corte de juros que o próprio plano promete.
  • O crédito pode ficar mais caro: Se o governo pode mudar as regras de uma dívida, o contrato vira promessa. O banco passa a embutir esse risco no juro, afinal pode ter que vender a carteira por 20% do valor depois. Quem paga a conta é todo mundo, inclusive quem nunca atrasou.
  • Existe precedente ruim: Nos Estados Unidos, a cobrança do crédito estudantil ficou suspensa de 2020 a 2023. Quando voltou, 9,7 milhões de pessoas ficaram inadimplentes, com quedas de 150 pontos ou mais na nota de crédito.

Leia mais: Superendividamento: o que é e o que fazer se acontecer?

Como o mercado reagiu?

Os bancos de varejo subiram na abertura: Banco do Brasil (+1,78%), Itaú (+0,94%) e Bradesco (+0,74%). Só o Santander caiu (-0,78%), justamente o que tem as contas mais saudáveis. O Banco do Brasil, o mais pressionado pela inadimplência, subiu forte. A promessa também alcança produtores rurais e empresários, que gostariam dela.

Uma alternativa mais viável

Esta não é, nem de longe, a melhor proposta que a equipe de Flávio poderia apresentar. Algumas alternativas mais funcionais seriam:

  • Colocar os bancos para conduzir a renegociação, em vez de jogar tudo na conta do governo.
  • Criar uma linha de crédito via BNDES, com juro subsidiado, para o devedor quitar a dívida com o banco.
  • Definir faixas de desconto mínimo e máximo, e focar em determinados perfis e tamanhos de dívida, para não estimular o calote.
  • Pedir ajuda a grandes economistas brasileiros e olhar planos já existentes, como o de Ciro Gomes, que é parecido e mais bem acabado.

Em vez de copiar o populismo que o eleitor de Flávio quer evitar, ele ganharia mais chamando uma equipe técnica para discutir isso a sério.

No fim das contas, o diagnóstico está certo: o endividamento está em nível recorde e pede ação. Mas a solução, como foi apresentada, ajuda mais os bancos do que o devedor e pode sair cara para quem paga em dia. Sem detalhes, é difícil chamar isso de plano. Por ora, ainda é apenas uma promessa de campanha.

Quer entender melhor sobre a proposta e o que mais penso a respeito? Então, assista ao vídeo em que falo mais sobre!

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