22 de julho de 2026 - por raulsena1
Você já deve ter ouvido alguém falando que o Brasil é um país endividado e que essa dívida só cresce. Só que antes de entrar em pânico, vale a pena olhar pro Japão, pois lá a dívida é de 235% do PIB. Aqui no Brasil, a gente tá em torno de 79%. Ou seja, os japoneses devem quase três vezes mais que a gente e, ainda assim, ninguém fala em crise por lá. Enquanto isso, o Brasil com uma dívida bem menor já é tratado como uma bomba relógio.
Isso não faz sentido à primeira vista, né? Mas faz total sentido quando você entende como cada um desses países chegou nesse patamar e, principalmente, para quem e a que preço cada um deve.
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O tamanho absurdo da dívida japonesa
O Japão tem hoje uma dívida de mais de 1,3 quatrilhão de ienes, o equivalente a cerca de 9 trilhões de dólares. É dinheiro suficiente pra comprar várias economias brasileiras inteiras. E o mais curioso é que essa dívida nunca gerou uma crise de confiança. Ninguém nunca duvidou que o Japão fosse honrar os pagamentos.
Para entender isso, precisamos voltar no tempo. Nos anos 1980, o Japão vivia um boom econômico gigantesco. Se você já foi criança nessa época, lembra que tudo que a gente consumia era japonês: Nintendo, Sega, desenhos como Cavaleiros do Zodíaco e Pokémon. O país tinha saído arrasado da Segunda Guerra Mundial e conseguiu se reconstruir numa velocidade impressionante.
Só que em 1991 essa bolha estourou. O mercado de ações e imóveis japonês desabou, e o país entrou numa fase de deflação que durou praticamente uma década. Os preços caíam ano após ano, o que parece bom à primeira vista, mas na prática mostra uma economia sem demanda, estagnada, incapaz de crescer.
Como o Japão foi parar com juros negativos?
Para tentar reanimar a economia, o Banco do Japão foi derrubando a taxa de juros até ela ficar praticamente zero e, em determinados momentos, até negativa. A ideia era simples: baratear o crédito para estimular gastos e investimentos. O problema é que isso criou um país onde o governo se financia a um custo quase irrisório, mesmo carregando uma montanha de dívida.
Enquanto isso, o Japão também enfrenta um problema social sério: o envelhecimento populacional. Os jovens não estão tendo filhos e o sistema de previdência e saúde vive sob pressão constante. Existem até relatos de idosos que cometem pequenos delitos de propósito para serem presos, simplesmente porque acreditam que serão mais bem cuidados dentro do sistema prisional do que sozinhos em casa. É um retrato triste de um país rico, mas que perdeu esperança em algumas frentes.
Por que essa dívida não incomoda ninguém?
Aqui está o pulo do gato. Cerca de 90% dos títulos da dívida pública japonesa estão nas mãos dos próprios japoneses: bancos, seguradoras e poupadores locais. Além disso, o Banco Central do Japão detém sozinho quase metade de toda essa dívida. Na prática, o país deve para si mesmo.
Isso muda tudo. Investidores estrangeiros não têm poder de pressionar o Japão, porque eles simplesmente não são donos da maior parte da dívida. E como os juros são próximos de zero há décadas, o custo de carregar essa dívida também é baixíssimo.
Tem ainda um fenômeno chamado carry trade, quando investidores pegam empréstimos baratos no Japão e aplicam em ativos mais rentáveis, como os títulos públicos americanos. Isso movimenta trilhões de dólares pelo mundo e explica por que qualquer mudança na política de juros japonesa pode causar tremores na economia global, inclusive nos Estados Unidos.
O caso do Brasil é completamente diferente
Enquanto o Japão deve para si mesmo a juro quase zero, o Brasil deve numa moeda que ninguém usa como reserva de valor, com juros reais entre os mais altos do mundo. Nossa taxa de juros gira em torno de 15% ao ano, o que faz a dívida crescer numa velocidade assustadora.
Para você ter uma noção prática, se o governo pegasse R$ 100 mil emprestados no Japão a 1% ao ano, em 50 anos essa dívida viraria pouco mais de R$ 164 mil. Já no Brasil, na taxa atual, esses mesmos R$ 100 mil se transformariam em mais de R$ 78 milhões no mesmo período. É essa diferença brutal que explica por que 79% do PIB pesa tanto mais pra gente do que 235% pesa pro Japão.
Em 2025, o Brasil gastou cerca de 7,9% de todo o PIB só pagando juros da dívida, quase o dobro do que gastava cinco anos antes. Isso é mais do que investimos em educação, assistência social e defesa somados. E o pior: esse dinheiro dos juros vai justamente para quem já tem mais patrimônio, aumentando ainda mais a desigualdade sem que ninguém precise produzir ou inovar nada, só deixar o dinheiro render.
O problema não é quanto se deve, é para quem e como
O Brasil também sofre porque a população local poupa muito pouco. Cerca de 80% dos brasileiros estão endividados, então não sobra dinheiro pra financiar o próprio governo, diferente do Japão, onde os poupadores locais sustentam boa parte da dívida pública.
Some a isso um histórico de confisco de poupança, trocas de moeda e instabilidade cambial, e você entende por que o investidor estrangeiro exige um prêmio de risco tão alto pra emprestar pro Brasil. Não é o tamanho da dívida que assusta, é a falta de previsibilidade.
E o que isso tem a ver com investir no Japão?
Justamente por causa dessa estrutura de dívida tão diferente, o Japão consegue manter uma economia estável mesmo endividado, o que também favoreceu boas empresas japonesas ao longo do tempo.
O índice Nikkei ficou décadas estagnado, mas quem soube escolher boas empresas dentro desse mercado colheu resultados expressivos, com uma vantagem extra: o mercado japonês é bem descorrelacionado do brasileiro, o que ajuda demais na hora de diversificar uma carteira de investimentos.
No fim das contas, a lição que fica é essa: dívida alta não é sinônimo automático de perigo, e dívida baixa não é sinônimo automático de segurança. O que realmente importa é para quem você deve, em que moeda, a que juro e com que credibilidade. E é exatamente aí que Japão e Brasil contam histórias completamente opostas.
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