19 de agosto de 2024 - por Thiago
Consórcio vale a pena só para quem precisa de um bem para trabalhar e não tem acesso a nenhum outro crédito. Para todo o resto, não. A conta é simples: você paga R$ 100 mil ao longo do grupo e recebe, na melhor das hipóteses, uma carta de R$ 95 mil, porque a taxa de administração fica no caminho. A parcela sobe com a inflação, o bem pode levar anos para chegar, e a promessa de “investir o resto e pagar a parcela com o rendimento” não fecha depois do imposto. Abaixo está a conta inteira, o que perguntar antes de assinar e a comparação com financiar ou juntar.
Atualizado em 29 de setembro de 2026. O texto parte do vídeo publicado em 14 de agosto de 2024 e foi ampliado com a conta refeita.
Eu recebo essa pergunta todos os dias, e cada ano ela volta com um número novo. Um aviso antes: nós somos habilitados a vender consórcio, o produto está na plataforma que operamos com o BTG Pactual. Falar mal dele não me rende nada. Estou falando porque a conta que circula na internet está errada.

Proteção e investimento são a mesma decisão de longo prazo
Como funciona um consórcio, em quatro linhas
Um grupo de pessoas paga parcelas mensais para uma administradora. Todo mês, uma ou mais delas recebem a carta de crédito, por sorteio ou por lance (quem oferece mais dinheiro adiantado leva). Quem já foi contemplado continua pagando até o fim do grupo, com a parcela reajustada por um índice de inflação. Sobre tudo isso incide a taxa de administração, que em alguns grupos, como os de moto, chega a 20%.
Não tem juros. Tem taxa, reajuste e espera. É isso que o vendedor resume como “parcela sem juros”.
Consórcio é investimento?
Não, e é aqui que mora o argumento dos gurus. A proposta é: você já tem R$ 100 mil, entra num consórcio, dá R$ 20 mil de lance e investe os R$ 80 mil restantes para pagar as parcelas com o rendimento.
Seguindo a mesma lógica, você poderia pagar a parcela de um financiamento com o rendimento. Ninguém chama isso de investimento. O problema é que os números não param de pé:
- Existem aplicações pagando 1% ao mês no Brasil. Mas o rendimento paga Imposto de Renda de 22,5% nos prazos curtos, e resgate antes de 30 dias paga IOF.
- A parcela é reajustada por IGP-M ou IPCA. Uma parcela de R$ 700 pode virar R$ 1.100 em três anos. O rendimento não acompanha; a parcela sim.
- Se você saca o rendimento todo mês, o principal nunca cresce e a inflação come o valor dele.
Fiz essa conta completa, com R$ 80 mil e um carro de R$ 80 mil, em consórcio como alavancagem patrimonial: quem tinha R$ 80 mil termina com uns R$ 13 mil de patrimônio líquido. E o argumento inteiro depende de juro alto. A Selic esteve em 2% ao ano em 2020. Quem montou o plano contando com 1% ao mês viu a conta desmoronar.
A prova de que o produto não funciona como prometem: consórcio é dos produtos financeiros mais abandonados. As pessoas simplesmente param de pagar. Na época do vídeo havia cerca de R$ 2 bilhões esquecidos em consórcios, de gente contemplada que tinha desistido antes e nunca voltou para olhar.
Consórcio, financiamento ou juntar e comprar à vista
Os números abaixo são os do vídeo e do artigo sobre alavancagem. Não são promessa de rendimento; são a ordem de grandeza de cada caminho.
| Caminho | Quando você recebe o bem | Parcela | O que a conta mostra |
|---|---|---|---|
| Consórcio | Por sorteio ou lance; pode levar anos | Reajustada pela inflação | Paga R$ 100 mil, recebe carta de R$ 95 mil; parcela de R$ 700 vira R$ 1.100 em 3 anos |
| Financiamento | Na hora | Fixa | Carro de R$ 72 mil, R$ 30 mil de entrada, 60 x R$ 1.208: R$ 30.495 de juros, R$ 102.495 no total |
| Juntar e comprar à vista | Quando o dinheiro chegar | Não existe | R$ 2.500 por mês a 1% ao mês por 5 anos: R$ 150 mil aportados, uns R$ 204 mil acumulados |
Se você não tem o valor à vista e não consegue juntar, o financiamento é melhor que o consórcio. Não é a escolha mais interessante financeiramente, mas você recebe o bem na hora e sabe quanto vai pagar até o fim. A comparação entre os dois está em detalhe em consórcio ou financiamento: qual dos dois escolher. Para ver quanto o seu dinheiro vira juntando antes, use a calculadora de juros compostos.
Por que o consórcio custa mais do que parece
Você pode esperar até 5 anos pelo bem. E, mesmo contemplado no início, paga o mesmo valor (mais, por causa do reajuste) por um bem que perde valor conforme é usado.
Sem juros, mas com taxa de administração muitas vezes altíssima e reajuste que muda a parcela inteira. Os consórcios “sem garantia” que aparecem por aí compensam isso com taxa ainda maior. E, como a desistência é alta, as administradoras passaram a cobrar a taxa nos primeiros meses: quem desiste no começo recebe de volta muito menos do que pagou, porque as primeiras parcelas foram quase inteiras para a administração.
Quando o consórcio vale a pena
Não vou dizer que não serve para ninguém. Serve para quem precisa de um bem para trabalhar e não tem acesso a nenhum outro crédito: nome sujo, precisa de uma moto para fazer entrega, sem outra porta. Aí é uma porta. É o mesmo raciocínio do motorista de aplicativo que financia o carro porque a alternativa é alugar pagando o dobro.
Fora desse caso, consórcio não é investimento e não é alavancagem. É um jeito caro de comprar.
O que perguntar antes de assinar
- A taxa de administração é cobrada no começo ou diluída nas parcelas? Quanto maior a taxa, mais cedo ela costuma ser cobrada. Num consórcio de R$ 60 mil com taxa de 20%, são R$ 12 mil só de administração.
- A parcela é reajustada? A resposta vai ser sim, e o vendedor vai dizer que a carta também é. Mas, se você já foi contemplado, o reajuste das parcelas que continua pagando não volta para o seu bolso.
- Tem como escrever no contrato que eu serei contemplado no primeiro mês? Não tem. O plano de “lance alto e contemplação rápida” depende de sorte.
Desconfie de “contemplação garantida”. Há ofertas que exigem pagar de 40% a 50% do valor do bem, e com uma entrada desse tamanho um financiamento com parcela fixa costuma fazer mais sentido. Se já está dentro e quer sair, leia o que acontece se eu desistir de um consórcio.
Dúvidas que sobram
Consórcio é investimento?
Não. Você paga, por exemplo, R$ 100 mil e, na melhor das hipóteses, recebe uma carta de R$ 95 mil, porque parte do valor fica com a taxa de administração. Não há rendimento; há custo.
Dá para dar o lance e pagar as parcelas com o rendimento do dinheiro investido?
A conta não fecha. O rendimento paga Imposto de Renda (22,5% nos prazos curtos) e IOF em resgate antes de 30 dias, enquanto a parcela do consórcio é reajustada por IGP-M ou IPCA. O que sai do investimento cai e a parcela sobe.
Consórcio é melhor que financiamento?
Para quem precisa do bem agora e não tem o valor à vista, o financiamento tende a ser melhor: você recebe o bem na hora e a parcela é fixa. No consórcio, a contemplação pode levar anos e a parcela é reajustada.
Quando a taxa de administração é cobrada?
Depende do contrato; pergunte antes de assinar. Muitos grupos concentram a taxa nas primeiras parcelas, e quem desiste no começo descobre que quase tudo o que pagou foi para a administradora.
Para quem o consórcio vale a pena?
Para quem precisa de um bem para trabalhar e não tem acesso a nenhum outro crédito, como quem está com o nome sujo e precisa de uma moto para fazer entrega. Fora disso, é um jeito caro de comprar.