17 de setembro de 2026 - por Raul sena
Imagina uma manchete assim: “Estados Unidos registra o maior PIB da história e o maior número de falências pessoais desde 2010”. Essa manchete não existe ainda, mas ela conversa muito bem com o que já está acontecendo: bolsa batendo recorde mês após mês e inadimplência de cartão de crédito na maior alta em duas décadas.
Para entender de onde vem essa contradição, precisamos olhar uns 25 anos para trás.
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O descolamento entre bolsa e salário
Desde os anos 2000, a bolsa americana subiu 600%. Nesse mesmo período, o salário real do trabalhador americano cresceu 12%. É uma diferença gigantesca e ela não é acidente.
Outro dado ajuda a entender o tamanho do problema: de cada dólar que a economia americana produz, quanto vira salário para quem trabalha? Em 1947, 70% virava salário; em 1963 o número cai para 60%. Hoje, em 2026, o número é de apenas 52,8%. Uma fatia cada vez menor do bolo está indo para o trabalhador e isso não é exclusividade americana. No Brasil, o mesmo movimento aparece quando comparamos salários de hoje com os de outras épocas.
O que está acontecendo não é o fim do emprego. É o fim da ideia de que um bom emprego, sozinho, te leva ao topo, o que está desaparecendo mesmo são os salários mais altos.
Lucro sobe, salário não sobe
Nos últimos quatro trimestres, o lucro unitário das empresas não financeiras cresceu 17,8%, o maior salto desde 2021. E o crescimento dos salários nesse mesmo período? Praticamente zero.
Isso mostra que a produtividade está subindo e as empresas estão conseguindo produzir mais com a mesma folha de pagamento.
O problema é que esse ganho está indo quase todo para os acionistas. E aí mora uma armadilha: se as empresas pagam cada vez menos, as pessoas têm cada vez menos dinheiro para gastar. É um modelo que não se sustenta sozinho no longo prazo.
As demissões ligadas à IA
Olhando as demissões nos Estados Unidos em que a empresa citou IA como motivo, o crescimento é evidente: 7.624 em janeiro, chegando a 38.579 em maio, o pico do ano. No primeiro semestre de 2026, já foram 101.700 demissões motivadas por IA, mais que o dobro do total registrado em todo o ano de 2025.
Só que tem um detalhe importante que raramente aparece nas manchetes: as demissões totais nos Estados Unidos caíram 40% no primeiro semestre de 2026 em comparação com 2025. Ao mesmo tempo, os planos de contratação anunciados até julho de 2026 subiram 25% em relação ao ano anterior. Ou seja, a IA está mexendo no mercado de trabalho, mas não está destruindo ele. Ela está remodelando quem contrata e para quê.
Vale a pena fazer faculdade?
Um dado que chama atenção: pela primeira vez na história, o desemprego entre recém-formados de 22 a 27 anos (5,6%) está mais alto do que a média geral de desemprego (4,2%).
É a primeira vez que não ter diploma dá mais chance de conseguir emprego do que ter um. Para completar, 42% dos recém-formados estão em vagas que não exigem diploma nenhum.
Leia mais: Como investir em inteligência artificial?
PIB não é qualidade de vida
Por que ninguém chama isso de crise? Porque o que vira manchete é o PIB em alta e muita gente associa PIB a qualidade de vida, o que é um erro.
Um exemplo ajuda a entender: se amanhã o oxigênio acabasse e passasse a ser vendido, o PIB do país subiria ou cairia? Subiria muito, porque cada pessoa teria que comprar um cilindro de oxigênio para andar na rua. Só que a vida de todo mundo teria piorado bastante. O PIB mede atividade econômica, não necessariamente bem-estar.
Enquanto o lucro das empresas de IA e a bolsa batem recordes, outros números não viram manchete: a menor fatia do PIB destinada a salários desde 1947, recorde de saques de emergência da previdência americana e 1,23 trilhão de dólares em dívida de cartão de crédito.
O alarme vem antes da próxima rodada de investimento
Vale questionar quem está fazendo as previsões mais catastróficas sobre a IA. Recentemente, um pesquisador de 27 anos, que passou apenas seis semanas na Anthropic, afirmou publicamente que a IA poderia acabar com a humanidade até 2030. O post viralizou, e ele pediu demissão da empresa pouco antes de suas ações serem liberadas.
Esse tipo de alerta tem uma coincidência curiosa: cada previsão apocalíptica parece vir logo antes de uma nova rodada de captação. Em maio de 2025, o CEO da Anthropic alertou que a IA poderia eliminar metade dos empregos de entrada, às vésperas de uma rodada que levou a empresa de 62 bilhões para 183 bilhões de dólares em valuation. Em fevereiro de 2026, novo alerta, e a empresa foi para 380 bilhões. Pouco depois, quase 1 trilhão.
Se a IA realmente estivesse substituindo trabalho humano em massa, a produtividade americana deveria ter disparado. Mas ela segue em 2,1% ao ano, exatamente a média histórica desde 1947. Nenhum salto.
Como pensar nos investimentos diante desse cenário?
Existem dois cenários possíveis, e em ambos a resposta é parecida.
Se a IA for real e transformar a economia como prometem, o ganho vai para o dono do capital e quem depende só do salário fica para trás. Se for uma bolha, ela estoura, e quem apostou tudo numa única aposta quebra, enquanto quem tem uma carteira diversificada sobrevive.
Em nenhum dos dois cenários faz sentido concentrar tudo em empresas de IA. Ser dono de uma carteira diversificada é a posição que ganha independentemente de quem estiver certo nesse debate.
Empresas que produzem commodities, bens industriais e alimentos dificilmente vão desaparecer porque as pessoas continuam precisando comer, se vestir e usar energia. E até para manter os data centers de IA funcionando, é preciso água, energia e gente trabalhando na construção civil.
A manchete do PIB recorde com falências em alta pode até se concretizar um dia. Mas o que fazemos com nosso dinheiro entre hoje e essa data não precisa depender dela.
Quer entender melhor sobre o que pode estar por vir? Então, assista ao vídeo em que explico melhor sobre!
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