6 de outubro de 2026 - por Raul sena
Muita gente anda dizendo que o Brasil está em crise generalizada e que nenhuma empresa consegue crescer por aqui. Mas, os números mostram outra história. Tem empresa fechando aos montes sim, mas também tem empresa abrindo, ganhando mercado e valorizando a marca. A diferença entre as duas não está só no juro alto, e entender isso vale para quem investe na bolsa e também para quem tem um negócio.
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O tamanho do rombo no varejo
Olhando as grandes redes (Casas Bahia, Americanas, Carrefour, Marisa e Magazine Luiza), são centenas de lojas fechadas desde 2022:
- Casas Bahia: 397 lojas
- Americanas: 333 lojas
- Carrefour: 203 lojas
- Marisa: 104 lojas
- Magazine Luiza: 93 lojas
Reparem, são quatro empresas brasileiras e um grupo francês. O Carrefour entra na lista justamente para mostrar que não é questão de incompetência do empresário brasileiro. Multinacionais enfrentam os mesmos desafios aqui e no mundo.
A Casas Bahia é o caso mais pesado. Entrou em recuperação judicial, as ações caíram cerca de 80% em um ano e a empresa vale hoje algo em torno de R$ 660 milhões, com uma dívida bem maior que isso. Somando todos os números do setor, foram R$ 68 bilhões em dívidas do varejo renegociadas em dois anos e meio, entre Americanas, Pão de Açúcar, Polishop e outras. Ou seja, não é um problema isolado de uma empresa.
Ambiente complexo
O ambiente de negócios no Brasil é difícil e qualquer empresário do mundo diz isso. Prova disso: pouquíssimas empresas brasileiras conseguem crescer aqui e sair, mas quando saem, se espalham com facilidade. E tem multinacional que vai bem no mundo inteiro e quebra a cara quando entra no mercado nacional.
No entanto, dizer que “é culpa do governo e dos juros” é uma explicação preguiçosa. Ela deixa de fora várias nuances e inclusive alguns casos de má administração.
O ponto físico deixou de valer o que valia
Antigamente, a estrutura e o ponto de venda faziam a empresa vender mais. Com o online, a marca continua valiosa, mas o ponto físico já não significa tanto. Quem não entendeu isso e continuou gastando em loja física se complicou.
O e-commerce movimentou R$ 423 bilhões em 2025 e a previsão é de R$ 518 bilhões em 2026. Isso representa 14,4% do varejo em 2025 e 16,7% no ano seguinte, e a tendência é só subir.
O mesmo vai acontecer com restaurantes. Antes, o importante era ter ponto no shopping. Agora é manter o custo enxuto. Uma operação pequena, dentro de uma casa (cumprindo as regras sanitárias), com um bom hambúrguer e uma marca legal, não precisa bancar aluguel caríssimo. A margem pode até ficar melhor.
“Ah, mas o iFood fica com 20%.” Fica mesmo, só que com a entrada de concorrentes chineses, a tendência é que a margem do iFood seja espremida. Para o dono do restaurante, mais concorrência na plataforma é motivo de comemorar.
Quem ficou com o crescimento do online
O Mercado Livre domina cerca de 43% do e-commerce brasileiro. A Shopee tem 18%, com uma estratégia esperta: estar plugada dentro da rede social, onde você clica e já compra. A Amazon tem 11% e usou um cavalo de troia genial, o Prime. Você cadastra o cartão para ter streaming e frete mais barato e de repente compra pela Alexa, pelo celular, pelo Kindle.
A Magalu, que já foi o terceiro marketplace mais popular, ainda tem 10% e agora tenta algo diferente: vender cerca de 30 mil produtos próprios dentro do Mercado Livre.
Enquanto parte do varejo derretia, outras empresas expandiram. O Grupo Mateus abriu 131 lojas novas, a Renner abriu 51 e a C&A abriu 9, já descontados os fechamentos.
Os bancos entenderam o jogo
Nas marcas mais valiosas do Brasil, o Itaú vale US$ 13,2 bilhões, o Nubank US$ 12 bilhões, a Claro US$ 7,4 bilhões, a Ambev US$ 6,6 bilhões e a Vivo US$ 5,7 bilhões. Os bancos até ganharam mercado, porque se digitalizaram rápido. O Itaú fechou agência, cortou custo e continuou captando clientes pela internet. A Ambev se adaptou comprando o Zé Delivery.
Em crescimento de valor de marca, o setor financeiro lidera: o Nubank cresceu 162%, o Itaú 79%, a Vivo 71% e a Caixa 45%. Quem entrou no ranking em 2026 também conta uma história: iFood (que virou quase um banco, com cartão e crédito), Smart Fit, Inter, Stone, Grupo Mateus e Vivara. A Vivara, por exemplo, baixou o ticket e passou a vender para as classes C e D, enquanto joia era coisa de A e B.
O padrão se repete
Olhando tudo junto, dá para ver o que se repete:
- Dívida alta com juros altos.Teve empresa que tomou empréstimo a 2% e hoje encara um cenário de 14%.
- Rede feita para outro Brasil, totalmente offline.
- Crescer focando apenas em abrir ponto físico e vender em loja própria de rua.
E o de quem está crescendo:
- Caixa e rentabilidade, com poucas lojas muito produtivas, usando a loja para ganhar cliente no online.
- Preferência do consumidor: produto melhor, muitas vezes mais barato.
- Presença no dia a dia. Quantas vezes você abre o app do banco ou pede iFood? Quantas vezes vai à loja de eletrodomésticos?
Uma empresa pode ficar melhor com 500 lojas excelentes ou até com 20, se estiver bem posicionada e souber usar a logística.
Crise não explica tudo
A crise explica apenas uma parte dessa equação. Mas existe uma mudança de comportamento do brasileiro. Lembra da Blockbuster? As locadoras quebraram durante a crise do subprime e ninguém atribui a falência delas à crise, e sim à mudança de hábito.
Pergunte a si mesmo: qual foi a última vez que você saiu de casa para comprar um eletrodoméstico? Quantas vezes você sai para jantar e quantas pede por aplicativo? Hoje peço uma bebida em uma adega e sai mais barato do que no Carrefour, porque o distribuidor opera com custo físico muito menor. Antigamente essas empresas sobreviviam porque ninguém conseguia competir com elas. Hoje, qualquer um abre uma portinha online e já está na briga.
O que fazer diante desse cenário?
Para quem tem varejo: ou você se adapta, cadastrando seu negócio nas plataformas para vender dentro dessa nova rede ou quebra.
Para quem investe: antes de comprar uma empresa, pergunte se esse negócio está adaptado para os próximos 10 ou 15 anos. É uma lição que vem do Philip Fisher, autor de “Ações Comuns, Lucros Extraordinários”. Setores que pareciam perenes, como os bancos, mostraram que não são tão perenes assim: os que não se digitalizaram estão ficando para trás.
E vale lembrar que hoje toda empresa é, de certa forma, de tecnologia. Se o dono de restaurante dissesse há pouco tempo que ia precisar aprender a entrar no iFood, ouviria um “de jeito nenhum”. A vida offline continua existindo, mas como parte de uma vida cronicamente online. Quem não percebeu essa mudança, vai continuar culpando a crise.
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