O iene pode provocar um colapso nos mercados?

6 de outubro de 2026 - por Raul sena


Muitas pessoas podem se perguntar: como uma moeda fraca no Japão pode afetar todo o mundo? Ao contrário do que muitos imaginam, isso realmente pode ter efeito em todo o planeta, inclusive na sua carteira de investimentos.

E, recentemente, o chefe do câmbio japonês disse que os mercados devem levar a mensagem “ao pé da letra”. A mensagem, que Trump e a primeira-ministra Takaichi já tinham reforçado na semana anterior, é simples: o iene não pode cair mais do que já caiu.

Veja também: O Japão está endividado e pode arrastar os EUA para a maior crise da história

Iene no pior nível em 40 anos

O número de ienes necessários para comprar um dólar, no pior momento de cada ano, conta bem a história:

  • 2020: cerca de 112
  • 2021: cerca de 115
  • 2022: cerca de 152
  • 2024: cerca de 162
  • 2026: já passando de 160

Por décadas, o Japão viveu com juros negativos ou zerados. Em alguns momentos, você chegava a pagar para emprestar dinheiro ao governo japonês. Isso acontece porque o país tem uma moeda deflacionária: o governo tentou gerar inflação a vida inteira, mas quem guardava dinheiro em casa via o dinheiro se valorizar.

Junte a isso uma população cada vez mais idosa e uma economia que ficou estagnada depois do auge industrial dos anos 80 e 90. O Nikkei, principal índice da bolsa japonesa, ficou praticamente parado por 30 anos. Isso não significa que ninguém ganhou dinheiro, já que várias empresas cresceram muito, como o SoftBank, que virou uma potência global de investimentos.

Só que o mundo mudou. Os Estados Unidos subiram os juros para cerca de 4% ao ano, o Japão saiu do zero e foi para 1,25% e o Brasil está bem acima, na casa dos 13,75%. Dá para entender por que o empresário brasileiro tem dificuldade de competir: enquanto um toma crédito a 4%, o outro paga mais de 13%.

Carry trade

Com o juro japonês lá embaixo, investidores gigantes, com bilhões de dólares e garantias enormes, faziam o seguinte:

  1. Pegavam dinheiro emprestado no Japão a cerca de 1% ao ano
  2. Trocavam esse dinheiro por dólar, real, peso ou outra moeda
  3. Emprestavam para outro governo, comprando títulos que pagavam bem mais e…
  4. Embolsavam a diferença.

Essa operação se chama carry trade e estima-se que existam hoje cerca de 2,3 trilhões de dólares em empréstimos em iene fora do Japão, um recorde em 30 anos e o equivalente ao PIB de um país do tamanho do Brasil. Ninguém sabe o número exato, porque boa parte disso é feita por derivativos.

O efeito dominó do aumento de juros no Japão

Quando o Banco do Japão subiu os juros de surpresa, o iene ganhou força rapidamente, indo de 154 para 141 por dólar em poucos dias. As posições de carry trade começaram a ser desmontadas, a bolsa japonesa despencou, o S&P 500 caiu e o VIX (índice do medo), disparou.

A dinâmica é um ciclo vicioso:

  • O iene sobe e a dívida em iene fica mais cara;
  • Fundos que faziam carry trade começam a perder dinheiro;
  • Stops são acionados e eles vendem qualquer ativo pra liquidar a dívida;
  • Para quitar a dívida, precisam comprar iene, e o iene sobe mais;
  • Isso aciona novos stops, e o ciclo recomeça.

Nem o governo japonês, nem o americano conseguem frear esse fluxo. O Japão já gastou cerca de 280 bilhões de dólares vendendo dólares para segurar o iene e o efeito dura só algumas semanas.

Por que os EUA entraram na jogada?

O Japão é o maior credor dos americanos, com cerca de 1,1 trilhão de dólares em títulos do Tesouro dos EUA. No entanto, com os juros japoneses no maior nível desde 1996, o investidor japonês pela primeira vez tem motivo para trazer dinheiro de volta para casa.

No primeiro trimestre de 2026, os japoneses venderam cerca de 30 bilhões em treasuries, dinheiro que faz falta para a rolagem da dívida americana.

Se deixarem o iene cair, o petróleo e a comida importada ficam mais caros num país que importa quase toda a energia que consome, com uma população de idosos que precisa de subsídio. Além disso, o Trump pode acusar concorrência desleal, já que o iene fraco favorece as exportações industriais japonesas.

Se subir os juros para segurar a moeda, o carry trade se desmonta e o mundo pode repetir o susto de agosto de 2024. A dívida japonesa, acima de 200% do PIB, fica mais cara, o dinheiro volta para casa, os juros americanos sobem para atrair capital e os países emergentes, assim como as criptomoedas, sofrem.

Como isso afeta o Brasil?

Com juro alto aqui e baixo lá fora, o gringo pega dinheiro emprestado em iene e compra título brasileiro. Quando o carry trade desmonta, o Brasil costuma ser o primeiro a ser vendido, porque é mais fácil sair daqui do que de posições americanas. Com isso, o dólar sobe e a bolsa cai, o Ibovespa caiu junto com o mundo em agosto de 2024.

Além disso, o juro futuro sobe e o governo tem mais dificuldades de vender títulos em um momento de endividamento alto. E, não para por aí, ainda existe o risco de o Brasil precisar subir os juros justamente quando precisaria baixar, para a indústria e o comércio conseguirem sobreviver.

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