30 de setembro de 2026 - por Raul sena
A Selic caiu de novo e muita gente pergunta o que isso muda na prática. A queda foi pequena, de 0,25%, então não foi uma grande mudança. Mas ela é uma boa oportunidade para entender como os juros afetam a renda fixa, a bolsa, o dólar e o seu bolso.
A Selic começou o ano em 15% e vem caindo aos poucos, em cortes de 0,25 ponto. Em setembro chegou a 14% e agora está em 13,75%, o quinto corte seguido. O Boletim Focus projeta 13,75% ou até 13,50% em dezembro de 2026, 12% ao fim de 2027 e cerca de 10% em 2029.
Minha aposta é que os juros devem cair mais do que isso. A economia não sustenta juros nesse patamar por muito tempo, e já há sinais de estagnação da atividade. No entanto, tudo depende do cenário eleitoral e da inflação, nada está garantido.
Veja também: Essa renda fixa paga muito mais que a Selic. Vale o risco?
Juro nominal x juro real
A Selic é a taxa básica: é o que o governo paga aos investidores e a base para qualquer empréstimo. Uma empresa sólida, como Petrobras ou Vale, paga um pouco mais que isso para captar. Um negócio de risco maior paga ainda mais.
Mas os 13,75% são o juro nominal. Para saber quanto você ganha de fato, é preciso descontar a inflação, o que dá o juro real.
Um exemplo: com inflação de 4,22% no ano, R$ 100 continuam sendo R$ 100 no papel, mas seu poder de compra cai para R$ 95,88. O juro real esperado da Selic para este ano é de 8,45%. Em R$ 100 mil investidos, isso significa R$ 13.750 de rendimento nominal e R$ 8.450 de ganho real, antes do Imposto de Renda.
Esse é o maior juro real do planeta, acima de Rússia, Colômbia, Turquia, África do Sul e Argentina (esta com apenas 2,69%). A média de 40 países é de 1,62%. Em juro nominal o Brasil não lidera: Turquia (37%), Argentina (29%) e Rússia (14%) pagam mais, mas com inflação muito maior ou descontrolada.
Isso tem um efeito perverso, compensa mais deixar dinheiro parado do que investir na economia real. Abrir uma padaria com R$ 100 mil, com risco, mão de obra e processos, precisaria render muito mais que os R$ 8.450 que a Selic paga sem esforço.
Renda fixa: quem ganhou e quem perdeu?
Pós-fixados (Selic/CDI) rendem menos. No início do ano, R$ 100 mil renderiam cerca de R$ 15 mil. Hoje a expectativa é menor. Quem planeja o futuro, assumindo que a Selic ficará alta para sempre, corre o risco de frustração.
Prefixados: em junho, ninguém queria travar taxa que pagava cerca de 14,72%, com a Selic perto de 15%. No entanto, quem travou ganhou duas vezes. Porque vai receber a taxa contratada e teve o título valorizado na marcação a mercado, já que os prefixados hoje pagam 13,86%. Um título de 3 anos ganhou cerca de 2% de valor de mercado com essa queda, além dos juros do período. Para quem compra agora, a taxa é menor, mas ainda há espaço para queda.
IPCA+: paga um juro real fixo mais a inflação, seja ela qual for. Por isso é o título preferido dos investidores institucionais, dos fundos e dos family offices. O Tesouro IPCA+ pagava 8,29% em junho e hoje paga 7,93%, ainda muito bom para quem quer proteger o poder de compra. Circula na internet a ideia de que, em hiperinflação, o IPCA+ faria você perder dinheiro. Não é verdade: a rentabilidade real contratada se mantém.
Poupança: segue perdendo. Rende cerca de 6,20% ao ano, contra 13,65% do CDI, ou seja, metade. Essa regra só muda quando a Selic cair para perto de 8,5%, por causa do Imposto de Renda.
Efeito na bolsa e nos fundos imobiliários
Juros menores ajudam a renda variável por três caminhos:
- Dívida mais barata: empresas alavancadas pagam menos juros, o que alivia a rolagem e a quitação de dívidas.
- Lucro futuro vale mais.Com uma taxa de desconto menor, o lucro projetado das empresas passa a valer mais hoje. Empresas que entregavam um retorno parecido com a Selic passam a oferecer um prêmio de risco maior.
- Migração de capital.Com a renda fixa rendendo menos, parte do dinheiro busca a bolsa.
Mas a régua continua alta. O CDI líquido era de 12,67% e caiu para 11,60% com a Selic a 13,75%. Com a Selic em 12%, fica perto de 10%. Nesse nível, muitos fundos imobiliários, que são isentos de IR para o investidor, já superam a renda fixa.
Quem mais sente essa queda na Selic são as construtoras, incorporadoras, varejo, consumo a crédito, small caps e empresas endividadas. O varejista, por exemplo, paga menos para antecipar recebíveis. Os fundos imobiliários também sentem bastante.
Quem sente menos são os bancos e seguradoras, que chegam a ganhar com juros altos; exportadoras, mais dependentes do dólar; e utilities, como empresas de saneamento e energia, cujos preços já refletem no patamar atual.
Brasil cortando, EUA subindo
Pouca gente comenta, mas enquanto o Brasil corta juros, os Estados Unidos subiram pela primeira vez desde 2023, para 4%, e o Fed sinaliza mais uma alta em 2026. O Treasury de 10 anos paga acima de 5%, o maior nível desde 2007.
O diferencial de juros entre os dois países encolheu: eram 11,25 pontos percentuais no início do ano, hoje são 9,75 e podem chegar a 7,75. Isso reduz o incentivo ao carry trade, a operação de tomar empréstimo onde o juro é baixo e aplicar onde é alto. Com a inflação americana em torno de 4%, a margem ficou menor e mais arriscada.
Isso pode pressionar o dólar, hoje em R$ 5,15. Mas o câmbio é um cabo de guerra: balança comercial, exportações recordes, bolsa, fluxo de viagens e até vendas de iPhone entram na conta. Por isso ninguém acerta o dólar de forma consistente.
Ainda assim, o juro real brasileiro (cerca de 7,93% no IPCA+) segue muito acima do americano (cerca de 1,3%). Isso explica em parte por que a bolsa americana é tão forte. Por lá, a renda fixa quase não compete.
A bolsa está cara ou barata?
Uma forma simples de avaliar se a bolsa está cara ou barata é o P/L (preço sobre lucro), quantos anos de lucro você paga ao comprar uma empresa. Se um lava-jato lucra R$ 100 mil por ano e custa R$ 1 milhão, o P/L é 10. Se o lucro dobrar, o P/L cai para 5. Por isso o crescimento do lucro também importa: a WEG, por exemplo, tem P/L de 34, mas cresce o lucro a cerca de 12,78% ao ano e esse múltiplo tende a cair.
Olhando a bolsa como um todo, em 2016, no auge da crise política e econômica, o P/L médio das empresas brasileiras era de 11,19. Atualmente, com o pessimismo em ano eleitoral, está em cerca de 8,77.
Ou seja, o mercado paga em média menos de 9 anos de lucro, mesmo com muitas empresas crescendo. Isso reflete medo e cautela, e historicamente esses momentos surgem boas janelas para investir.
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