O sistema se defendeu, os EUA acabaram de REPROGRAMAR O DÓLAR

5 de fevereiro de 2026 - por Raul Sena (Investidor Sardinha)


Durante décadas, para todas as gerações que cresceram a partir dos anos 1960, os Estados Unidos ocuparam um lugar praticamente incontestável: o de maior potência econômica do mundo. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o país passou a pautar o debate econômico, financeiro e político global.

No entanto, a história mostra que nenhuma potência ocupa esse lugar de forma permanente. Impérios surgem, se consolidam e, inevitavelmente, entram em declínio relativo. A Inglaterra continua sendo relevante, apesar de já ter perdido o posto de potência dominante. A China, que já ocupou essa posição no passado, vive hoje um movimento de retorno. O poder global é transitório e os EUA tem lutado com todas as forças contra todos os inimigos.

Os EUA deixou de ser a “fábrica do mundo”. Embora ainda sejam a principal potência militar, grande parte dos produtos consumidos internamente é fabricada fora do país. Ao mesmo tempo, surgem questionamentos cada vez mais frequentes sobre o papel do dólar, a força do exército americano e o próprio lugar dos EUA como centro financeiro global.

Essa pressão ajuda a entender as decisões recentes do governo americano, inclusive o movimento de questionar instituições que o próprio país ajudou a criar. É nesse cenário que surge oGENIUS Act, uma legislação que, à primeira vista, parece técnica, mas carrega implicações profundas para o futuro do dólar e da economia global.

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O que são stablecoins e por que elas preocupam os Estados Unidos?

Após o surgimento das criptomoedas, algumas empresas privadas passaram a criar moedas digitais lastreadas em moedas tradicionais, como o dólar. Essas moedas, chamadas de stablecoins, prometem paridade com a moeda real e passaram a ser usadas como meio de pagamento e reserva de valor.

Em teoria, uma stablecoin de dólar representa um dólar real em reserva. Para isso, as empresas emissoras afirmam manter ativos suficientes para garantir essa paridade. O problema é que esse mercado cresceu por muito tempo com pouca regulação.

À primeira vista, pode parecer contraditório que stablecoins representem um risco para os EUA, já que utilizam o próprio dólar como base. Mas o problema central não é a moeda em si, mas a estrutura da dívida americana.

Dívida, poder e o papel do dólar

Os EUA são um dos países mais endividados do mundo em relação ao seu PIB. Esse endividamento só é sustentável porque o dólar é a principal moeda de troca internacional. Isso permite ao país emitir dívida em sua própria moeda e, em última instância, imprimir dólares para honrar seus compromissos.

Quando pessoas e países estacionam seu dinheiro em títulos do Tesouro americano ou no sistema bancário tradicional, esse mecanismo continua funcionando. O risco surge quando esse dinheiro começa a migrar para estruturas privadas paralelas, como stablecoins que oferecem rendimento.

Se as stablecoins passarem a competir diretamente com a dívida pública americana, oferecendo juros mais altos e liquidez constante, o sistema começa a ser pressionado. Em larga escala, isso poderia drenar recursos do Tesouro, afetar os bancos e comprometer o crédito, que é a base da economia americana.

O que é o GENIUS Act?

GENIUS Act é uma lei federal dos Estados Unidos voltada especificamente para stablecoins de pagamento. O ponto central da legislação é simples e poderoso: stablecoins não podem pagar juros nem oferecer qualquer tipo de rentabilidade aos seus detentores.

Na prática, isso significa que o dinheiro digital pode ser usado como meio de pagamento, mas não pode se transformar em uma poupança remunerada. A lei impede que stablecoins concorram com títulos do Tesouro ou com o sistema bancário tradicional.

Além disso, para emitir stablecoins, as empresas precisam comprovar reservas adequadas o que na prática, significa que elas precisam comprar títulos da dívida pública americana.

Aqui está a virada mais interessante: o que poderia se tornar um grande problema para os EUA, com a regulação, passou a ser uma ferramenta estratégica.

Ao obrigar stablecoins a manterem reservas em títulos do Tesouro, o governo americano transforma essas moedas digitais em compradoras automáticas da dívida pública. Em vez de retirar dinheiro do sistema, elas passam a financiá-lo.

Com isso o risco sistêmico diminui, o Tesouro ganha novos compradores de dívida, o dólar se fortalece e o governo passa a monitorar um mercado que antes crescia de forma descontrolada.

O que se desenha é uma tentativa clara dos EUA de atualizar seu sistema monetário, sem perder o controle. Em vez de criar uma moeda digital estatal, o país opta por regular e enquadrar o mercado privado, mantendo o dólar no centro do jogo.

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