19 de agosto de 2026 - por raulsena1
O número de empresas entrando em recuperação judicial no Brasil assustou muita gente em 2025. E não é para menos: foram 2.466 pedidos, o maior número desde que a série histórica começou a ser registrada, em 2012. Mas antes de entrar em pânico, vale entender o que esse dado realmente significa, porque a narrativa que está circulando por aí (a de que “as empresas brasileiras estão quebrando”) não corresponde à realidade.
Veja também: Recuperação judicial x extrajudicial: diferença, quem pode pedir
O que é a recuperação judicial?
A recuperação judicial é um processo previsto na Lei 11.101, de 2005. Ela permite que uma empresa em crise renegocie suas dívidas diretamente na Justiça, sem precisar parar de operar. O primeiro passo é apresentar os balanços, listar os credores e montar um plano de pagamento.
A grande vantagem para a empresa é que, durante a negociação, ela fica protegida de cobranças e penhoras. Isso evita que um credor confisque um maquinário essencial, por exemplo, e obrigue a operação a parar por completo. Os credores votam o plano proposto, avaliando prazos, descontos e eventuais vendas de ativos. Se o plano não for aprovado ou falhar, aí sim o juiz pode decretar falência.
Ou seja: recuperação judicial e falência são coisas bem diferentes. Uma é uma tentativa de evitar a outra.
Os números de 2025
O total de 2.466 entraram com pedidos de recuperação judicial e isso representa uma alta de 13% em relação a 2024. Mas o ritmo de crescimento vem desacelerando: foi de 36,2% em 2023, a 26,4% em 2024 e 12,9% em 2025. O detalhe é que esse percentual menor incide sobre uma base bem maior, então o saldo em números absolutos continua relevante.
E aqui vai um dado importante: apesar do aumento nos pedidos de recuperação judicial, as falências decretadas caíram 19%. Isso mostra que o mecanismo está cumprindo o papel para o qual foi criado, ajudar empresas a se reorganizar em vez de simplesmente fechar as portas.
Por setor, quem mais recorreu à recuperação judicial foi o agropecuário, com 743 casos, seguido de perto por serviços (739), comércio (535) e indústria (449). No fim das contas, a distribuição reflete mais ou menos o peso de cada setor na economia brasileira.
Por que tanta empresa está pedindo recuperação judicial?
Existem alguns fatores que se combinam aqui. O primeiro é a taxa de juros, que está em patamares altos desde 2022 e já chegou a 15%. Isso encarece o chamado serviço da dívida, ou seja, o custo de honrar empréstimos contraídos lá atrás, quando o crédito era mais barato. Uma empresa que tomou dinheiro a um custo baixo e via esse custo disparar com a Selic em alta, pode ver rapidamente sua operação se tornar inviável.
Outro ponto é o efeito colateral do escândalo das Lojas Americanas. A fraude bilionária da varejista abalou a confiança dos bancos, que ficaram mais seletivos na concessão de crédito, inclusive para empresas grandes e consolidadas. O resultado é que negócios que antes conseguiriam empréstimos com facilidade, agora enfrentam mais resistência.
Também pesa a mudança na legislação. A reforma de 2020 (Lei 14.112), em vigor desde 2021, ampliou o acesso à recuperação judicial. Produtores rurais pessoa física, por exemplo, passaram a poder pedir recuperação com apenas dois anos de atividade comprovada, e dívidas de até R$ 4,8 milhões ganharam um modelo simplificado. A reforma também trouxe o financiamento DIP (que dá prioridade a quem empresta dinheiro para a empresa em recuperação) e ampliou a possibilidade de negociação com a União via parcelamento tributário. Com essas facilidades, muitas empresas que talvez nem estivessem numa situação tão grave acabaram optando pelo processo, porque compensa financeiramente.
Não à toa, o setor agropecuário, que antes não liderava esse tipo de pedido, hoje responde por 30,1% de todos os casos.
Nomes conhecidos que já passaram (ou estão passando) por isso
A lista de empresas que recorreram à recuperação judicial nos últimos anos inclui nomes bem conhecidos do consumidor brasileiro: Oi, Light, Gol, Intercement, Agrogalaxy, Bombril e Teca, entre outras. Fora da bolsa, também aparecem casos como Itapemirim, Grupo Petrópolis, South Rock (dona da Starbucks Brasil), Polishop e Ambipar. No exterior, companhias aéreas como Latam, Gol e Azul recorreram ao Chapter 11 americano, mecanismo parecido, usado principalmente por causa de contratos de leasing de aeronaves.
Vale lembrar que o caso das Lojas Americanas não entra nessa lista pelos mesmos motivos das demais. Ali houve fraude contábil, não dificuldade legítima de honrar dívidas.
O risco de um espiral
Aqui mora o ponto mais delicado. Quando mais empresas entram em recuperação judicial, os bancos tendem a restringir ainda mais o crédito, com medo de não receber de volta. Menos crédito disponível significa mais dificuldade para as empresas se financiarem, o que gera mais pedidos de recuperação judicial. É um ciclo que se retroalimenta.
Some a isso o efeito da inflação de oferta: com menos empresas produzindo, a concorrência cai e os preços tendem a subir, mesmo sem aumento na demanda. Esse é o cenário que mais preocupa economicamente, porque combina baixo crescimento com inflação persistente, o famoso risco de estagflação.
Você deve se preocupar?
O aumento nos pedidos de recuperação judicial reflete um ambiente de juros altos, crédito mais restrito e uma legislação que ficou mais acessível para empresas em dificuldade. Isso não significa que o Brasil está “quebrando” ou que negociar com empresas brasileiras se tornou arriscado por definição.
Pelo contrário: o processo existe justamente para preservar empregos e operações que, de outra forma, fechariam as portas de forma abrupta. Julgar uma empresa só por estar em recuperação judicial é um erro de interpretação que só ajuda a acelerar o problema que se quer evitar.
O que realmente vale acompanhar, como investidor, é o nível de alavancagem das empresas em que você investe. Um indicador simples e útil para isso é a relação dívida líquida sobre EBITDA. Quando esse número passa de 3, é sinal de que a empresa está com um endividamento que merece atenção redobrada.
Quer entender melhor sobre esse cenário? Então, assista o vídeo a seguir!
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