29 de setembro de 2025 - por Sidemar Castro
A expressão laissez-faire é um termo em francês que se traduz literalmente como “deixe fazer” e, no campo da economia e da política, carrega um significado vasto e fundamental: a doutrina da não-intervenção do Estado no mercado.
Aqui está um artigo que explica bem o que significa esse conceito na economia. Leia!
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O que é laissez-faire?
Entenda o laissez-faire como a crença de que a economia é um organismo que se autorregula, quase como um rio que encontra o seu próprio curso.
A ideia central é simples: quando o governo “sai da frente” e permite que empresas e consumidores ajam livremente, a competição natural leva a preços mais justos, produtos de melhor qualidade e mais oportunidades para todos. É a lógica do “deixe estar, deixe fluir”.
Contudo, os críticos apontam que esta mesma liberdade, sem qualquer tipo de supervisão, pode gerar desigualdades profundas, monopólios e abusos, tal como um rio sem diques pode causar uma inundação.
Por isso, embora seja um pilar do liberalismo económico, poucas nações o adotam de forma pura, equilibrando-o com certos graus de regulação para proteger o interesse social.
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Simbolismo e significado do laissez-faire
Quando você ouve “laissez-faire”, talvez imagine alguém dizendo “vai tocar seu barco, sem intervenção”. E, de fato, essa é parte do simbolismo envolvido: a metáfora de “deixar fazer” sugere que o mundo econômico é um jardim que floresce melhor quando não é podado com excesso. Essa imagem traz à mente um terreno fértil onde ideias, empresas e iniciativas brotam sem serem sufocadas por regulações rígidas.
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Esse simbolismo conecta-se à convicção de que cada pessoa, libertada do peso de normas sobrepostas, tem o potencial de agir com criatividade, eficiência e responsabilidade. O laissez-faire, então, significa em muitos discursos: “confie no humano”, “confie na troca voluntária”, “confie na iniciativa privada”. Ele representa uma espécie de narrativa de confiança na liberdade como geradora de progresso e bem-estar.
Mas também há outra face desse símbolo. Em algumas interpretações, deixar “livre demais” é deixar vulneráveis os mais fracos ou invisibilizar os efeitos nocivos de certas práticas. Então o laissez-faire pode simbolizar negligência institucional, a crença de que quem sofre as consequências negativas dos mercados “deveria” se ajustar ou arcar com seus próprios custos. E assim ele se torna uma metáfora para ausência de cuidado regulatório, seja no meio ambiente, no trabalho, na saúde.
Fundamentos e principios do laissez-faire
No coração do laissez-faire está uma confiança inabalável na ordem natural da economia, uma ordem que dispensa a supervisão de um poder central.
O princípio fundamental é que o indivíduo é a unidade essencial da sociedade, dotado de um direito natural à liberdade, e que sua busca por benefício próprio, quando livre, resulta em prosperidade para todos. É aqui que entra a famosa metáfora da mão invisível.
A ideia é que, quando cada pessoa age livremente no mercado, o produtor busca o maior lucro e o consumidor o melhor preço, o sistema se organiza automaticamente.
A lei da oferta e da demanda e a livre concorrência atuam como forças de correção e equilíbrio, garantindo que o que a sociedade precisa será produzido e que os preços se ajustarão naturalmente, sem que o Estado precise ditar regras ou dar subsídios.
Portanto, o grande alicerce do laissez-faire é a crença de que a mínima intervenção externa é o caminho.
Origem do laissez-faire
Embora a expressão tenha raízes em um clamor prático dos comerciantes do século XVII, ela só se tornou uma verdadeira doutrina política e econômica na metade do século XVIII. Foi o Marquês de Argenson, um escritor francês e Secretário de Estado, quem primeiro associou a frase laissez-faire de forma clara ao ideal de liberdade econômica por volta de 1751.
A versão mais completa e filosófica, defendida pela corrente dos Fisiocratas, era: “laissez faire, laissez aller, laissez passer, le monde va de lui-même”, que significa que o mundo e a economia têm a capacidade de caminhar por si mesmos.
Essa ideia se consolidou como um contraponto direto ao Mercantilismo da época, ganhando ainda mais força quando se tornou o símbolo central do Liberalismo Clássico, ajudando a moldar o pensamento de grandes economistas como Adam Smith sobre o funcionamento natural do mercado.
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Principais críticas ao laissez-faire
Pense da seguinte forma: se o Estado praticamente sai do jogo, quem define o ritmo e as regras acabam sendo os que já têm vantagem: capital, acesso, informação. Isso já gera uma primeira falha do laissez-faire: a desigualdade.
São raras as situações em que “cada um por si” resulta em igualdade de oportunidades. Muitas vezes, os mais pobres ficam ainda mais pobres, sem rede de proteção, sem saúde pública decente, educação de qualidade ou transporte acessível.
Outra coisa é que, sem uma regulação forte, abusos se tornam comuns. Empresas podem, por exemplo, poluir rios, degradar ecossistemas ou explorar mão de obra infantil ou com condições precárias, porque se não há fiscalização, o incentivo é reduzir custas para aumentar lucros. E não se trata só de “mexer no lucro”, essas falhas têm consequências reais: doenças, danos ambientais, injustiças sociais.
Também é comum que laissez-faire falhe para garantir estabilidade econômica. Sem mecanismos para intervir, uma crise pode vir e causar desemprego em massa, ruptura de mercados, falências em cadeias produtivas inteiras.
Quem sofre? Em geral, quem está mais frágil: o pequeno empreendedor, o trabalhador sem muitos recursos, as comunidades marginalizadas.
E não menos importante, há uma crítica ética: será que é justo deixar que tudo seja decidido exclusivamente pela lógica do mercado? Afinal, o mercado não “vê” valores intangíveis como solidariedade, saúde mental, preservação ambiental, cultura, tão bem quanto uma comunidade ou um Estado minimamente regulador. Deixar tudo livre pode significar que algumas coisas de valor para todos sejam negligenciadas, simplesmente porque não rendem lucro imediato.
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Fontes: Politize, Suno, Mais Retorno, Britannica.