15 de outubro de 2026 - por Raul sena
Passei cinco dias estudando em uma das universidades mais caras do planeta, a INSEAD, e muita gente me perguntou: o que se aprende num lugar desses que justifique o preço? Resumir tudo é impossível, porque o conteúdo é denso de verdade. Mas dá para contar os pontos que mais mexeram comigo. E spoiler: essa semana virou, para mim, uma aula sobre como tomar decisões melhores.
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O custo de não decidir: o caso Tag Heuer
No primeiro dia o professor Felipe Monteiro, brasileiro que já deu aula em Harvard, Wharton e na própria INSEAD, falou sobre o custo de uma empresa não tomar uma decisão. Em vez dos exemplos de sempre, como Kodak e Blockbuster, ele contou a história da Tag Heuer, marca do grupo LVMH.
Os relojoeiros suíços começaram a ver gente de colete tecnológico circulando pela cidade. Logo depois, a Apple contratou o diretor comercial da Tag Heuer e lançou o Apple Watch. Ninguém sabia se aquilo canibalizaria o mercado de luxo. O CEO da época, Jean-Claude Biver, decidiu lançar um relógio conectado, em parceria com Google e Intel, sem pesquisa de mercado. Esgotou em 48 horas e virou caso premiado.
O desafio era enorme: uma marca conhecida por durabilidade lançando um produto com bateria de lítio, a sala toda achou a decisão boa. Eu discordei e continuo discordando. Dez anos depois, a Tag Heuer está voltando para o relógio mecânico. O professor acha que ela vai apostar ainda mais em conectados. A resposta se essa foi uma decisão acertada ou não, ainda não existe e esse é o ponto: avaliar uma decisão exige saber quais indicadores você observa. Vender tudo em dois dias é sucesso ou desgaste de marca?
A aula não é expositiva. Você vira o CEO, defende suas escolhas diante de empresários e banqueiros, e só depois vê o que aconteceu um, dois, dez anos mais tarde.
Aqui veio a pancada. O biver decide rápido, não gosta de discutir profundamente as próprias decisões e confia na própria capacidade porque acertou no passado. Eu me reconheci inteiro nele. Discordar dele me incomodou justamente porque eu decido do mesmo jeito.
Coletar dados é algo que eu sei fazer, mas muitas vezes decido rápido demais, sem esperar os dados certos. Isso acendeu uma luz acesa na cabeça.
Ouvir até o final: a missão em Marte
No segundo dia, o professor Charles Galunic nos colocou numa simulação: você é CEO de uma mineradora espacial, a nave teve um problema e é preciso descartar carga para conseguir pousar. Você não entende nada de engenharia aeroespacial, então precisa ouvir a tripulação. O grupo se divide, o tempo aperta, primeiro você decide sozinho e depois em equipe. Vale a decisão do grupo.
Eram 12 grupos de executivos de alto nível, e só o meu acertou, mesmo com um integrante a menos. A resposta ideal não era jogar fora os itens da tripulação. Era ouvir tudo até o fim, perceber que alguns tripulantes estavam mentindo para se proteger e salvar a missão com segurança, sem perder a viabilidade comercial, porque empresa privada também decide pensando em resultado.
A lição: quantas vezes, como gestor, você decide antes de ouvir todo mundo? Escutar e fazer as perguntas certas é o efeito principal. Para quem, como eu, tende a decidir de forma isolada, foi assustador.
Processo justo: ser ouvido vale mais que ganhar
No terceiro dia, o professor Ludo Van der Heyden apresentou o conceito de processo justo, que recomendo para empresário, funcionário e servidor público. A ideia é que as pessoas avaliam um processo como bom não quando a opinião delas vence, mas quando elas são ouvidas.
Quem liga para um call center muitas vezes só quer falar e ser acolhido, nas empresas é igual. As pessoas aceitam melhor uma decisão quando participam da discussão. Quando o gestor chega com tudo decidido e depois tenta legitimar à força, o processo é percebido como sujo e a pessoa rejeita até um resultado favorável.
Isso não é democracia, nem consenso. O líder decide sozinho, mas pede a opinião de todos antes. O curioso é que muita gente fica mais satisfeita recebendo R$ 800 depois de ser ouvida do que R$ 1.800 sem ter voz. Outro dado preocupante: quanto maior a empresa, mais injusto tende a ser o processo.
Ao olhar para a minha empresa, vi que atendemos uns 80% dos critérios válidos e fiquei muito feliz por isso!
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Lloyds Bank e Carlos Ghosn
No quarto dia, o caso foi o Lloyds Bank, um banco medíocre que quase quebrou e se transformou no mais valioso da Europa com uma regra simples: só entrar em negócios com retorno acima do custo de capital e vender o resto. Só que a fórmula não era eterna, e o banco demorou a usar sua base de 16 milhões de clientes. Na discussão, defendi que o principal ativo de um banco é a confiança, o que combina com o modelo de transparência que tento ter com meus alunos.
No quinto dia, o caso foi Carlos Ghosn. Ele recuperou a Nissan ouvindo as pessoas e aplicando o processo justo, mas acabou preso por desrespeitar regras de governança e não entender a cultura japonesa, mesmo depois de tantos anos lá. Um bom lembrete de que profissionais bons também podem se tornar ruins.
Vale a pena estudar?
Minha resposta é sim, e isso não vale só para empresários. Quem continua fazendo o mesmo que fazia três anos atrás corre risco real, principalmente com a IA avançando. Uma colega que mora em Paris, e trabalhava para o Brasil em home office, perdeu o emprego porque a IA executava todo o trabalho dela.
Estudar é a forma mais eficiente de evoluir. Eu mesmo saí de lá querendo reformular minhas aulas, porque percebi que posso melhorar minha didática. E ver como outras empresas erram e acertam, sem errar com o meu próprio negócio, é um aprendizado que não tem preço.
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