O delírio que está quebrando os novos empresários brasileiros

7 de outubro de 2026 - por Raul sena


Quem acompanha o mundo dos negócios nos últimos anos deve ter percebido uma mudança esquisita. Existe hoje um tipo de empreendedor que não fala de margem, de lucro e nem de cliente. Fala de “ideia genial”, de “rodada” e de “growth”. E, se você está pensando em abrir uma empresa, vale entender por que esse caminho costuma custar caro.

Eu convivo há anos com empresários da agroindústria e da indústria, gente de São Paulo e de Santa Catarina. O papo com eles sempre foi o mesmo: eficiência, custo, como produzir mais barato, como construir uma marca que dure décadas.

Quando comecei a atender empresários mais jovens, abaixo dos 40, a diferença foi gritante. O assunto passou a ser MVP, aceleradora, venture capital e a próxima rodada de investimento. Em conversas recentes, algo como 40% a 50% das pessoas falavam de rodada como se fosse o objetivo principal do negócio.

Como o modelo do palco funciona?

Esse modelo ganhou força a partir de 2009, com o chamado empreendedorismo de palco. A receita é conhecida:

  1. Ter uma ideia que “vai revolucionar o planeta”.
  2. Criar um produto mínimo viável.
  3. Vender uma fatia da empresa para um fundo ou aceleradora.
  4. Crescer a qualquer custo e fazer nova rodada.
  5. Vender o negócio e recomeçar do zero.

Para algumas pessoas isso funciona, mas repare: são sempre os mesmos dez nomes contando a mesma história, em 2009, em 2015, em 2020. Aparece um novo por década.

Enquanto isso, olhe ao seu redor. Quantos donos de supermercado, posto de gasolina, farmácia, cafeteria, indústria química e exportadora de soja abriram empresas por perto? Eles fizeram o oposto: pegaram algo que já existia e acrescentaram um detalhe que trouxe mais clientes ou um preço melhor. Uma pizzaria com ingredientes um pouco melhores, um sushi para levar para casa. Nada de disrupção, só um negócio bem feito.

Quando não lucrar ficou normal

O que mais me preocupa é a normalização de coisas que antes seriam sinal de alerta. Não dar lucro agora é aceitável e crescer a qualquer custo virou virtude.

Cliente virou “usuário” e fundar uma empresa que foi vendida ou abriu capital dando prejuízo aos investidores passou a ser contado como “case de sucesso”.

Muitas ideias já nascem prontas para serem empurradas para alguém: surge a onda do momento, criam uma empresa em cima disso e o plano é passar esse negócio adiante. Falta preocupação com sustentabilidade, com legado, com o impacto real para as pessoas e com o time, que muitas vezes nem tem vínculo de funcionário.

O resultado aparece nos números: o Brasil tem hoje muitos empresários bem-sucedidos, mas pouquíssimas grandes empresas surgiram no país na última década.

Empresário ou influenciador?

Existe uma abordagem moderna chamada founder led growth, em que o fundador aparece, mostra como decide e atrai clientes com essa transparência. Eu mesmo uso isso, mas isso é uma forma de publicidade, não um modelo de negócio.

O teste é simples: se você não consegue comprar um produto ou serviço daquela pessoa, ela não é empresária.

Se a “empresa” vende network, acesso a um grupo ou a própria imagem, o produto é a fama. Isso pode ser legítimo para artistas e comunicadores, desde que sejam sinceros sobre isso. O problema é o empreendedor de verdade tentar copiar esse modelo, porque empresa real precisa de faturamento, lucro, logística e equipe.

E cuidado com quem vende a história de uma empresa que “não existe mais”. Quem é ótimo em vender e péssimo em entregar tem um nome antigo em português, e não é elogio.

O pior é que muita gente convence amigos a colocar R$ 20 mil ou R$ 30 mil no “sonho”, com cabeça de investidor de startup, para abrir uma hamburgueria seguindo conselho de quem nunca tocou uma empresa.

Saiba mais: Todo empreendedor precisa dessa estratégia [Guia de investimentos para empresários]

Você não precisa ser gênio

Steve Jobs era Steve Jobs, não existem 200 iguais a ele. E mesmo ele não inventou o iPhone do nada: juntou tecnologias que já existiam, como internet, tela e teclado, e as colocou numa caixa bem pensada. As redes sociais seguiram a mesma lógica: fotos, mensagens e mural, cada passo melhorando o anterior.

Enquanto isso, tem gente no Brasil ganhando milhões por ano intermediando abóbora, revendendo gado para frigorífico ou oferecendo crédito agrícola. Nenhuma ideia genial, nenhuma capa de revista. Só uma oportunidade pequena, bem atendida.

Empreender é isso. Copie um modelo que funciona, aprenda com quem já faz e depois melhore um pouquinho. É assim que a humanidade evolui, geração após geração.

Com quem aprender?

Aprenda com quem tem empresa de verdade: procure a federação das indústrias da sua região, grupos de empresários reais, gente que tem folha de pagamento para fechar todo mês. Quem vende curso de marketing como forma de aprender a gerir empresa não vai te ensinar isso.

No fim, o recado é simples: menos palco, mais margem, nota fiscal e cliente satisfeito. Foi assim em 1990 e continua sendo assim, agora com uma lojinha na internet.

Quer parar de cair na balela desses “empreendedores“? Então, assista ao vídeo em que explico melhor sobre como a forma de empreender mudou e como isso é preocupante…

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