12 de julho de 2026 - por raulsena1
Independente da sua idade e de como você viveu no Brasil, tem uma marca que todo brasileiro com mais de 20 anos conhece: a Marisa. A empresa já lucrou bilhões, mas acabou tendo um desfecho bem complicado.
A Marisa perdeu cerca de 97% de todo o valor de mercado em 10 anos. Uma empresa que já valeu bilhões de reais hoje está na bolsa valendo apenas R$ 308 milhões. E o pior é que ela não dá lucro nenhum desde 2014. Mas afinal, o que aconteceu? Quais foram os erros? É isso que vou explicar a seguir!
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Varejo brasileiro
A primeira coisa que precisa ficar clara é que o Brasil é um país muito difícil para empreender no setor de varejo. A gente tem dificuldade de produzir em território nacional, produz acima do custo, e quando importa acaba competindo com quem consegue importar com muito mais capilaridade.
Apesar disso, a Marisa sempre foi uma empresa genuinamente nacional. A causa principal de seus problemas foi que ela passou praticamente uma década tentando ser aquilo que não era. Mas há dois anos eles mudaram uma coisa importante e agora os resultados estão começando a aparecer.
Cerca de 85% da clientela da Marisa é formada por mulheres. Um branding gigantesco foi construído em cima disso, com um perfil popular e moda acessível. A Marisa era a Shein dos anos 2000 no Brasil.
Erros que a empresa cometeu
O problema começou quando a Marisa quis virar banco. Como quase todo varejo brasileiro, ela tinha uma clientela que não tinha dinheiro para comprar à vista, então passou a vender parcelado, com o famoso crediário e cartão da loja.
Isso aumentava as vendas, só que, com o tempo, as empresas perceberam que o crédito oferecido dava mais dinheiro que a própria operação de varejo. E foi assim que a Marisa caiu nessa armadilha e depois tomou calote.
Aí veio a segunda tentativa: virar marketplace digital, no molde Magazine Luiza e Amazon. Só que, em vez de manter a curadoria que fazia sentido para a marca, a Marisa começou a aceitar qualquer fornecedor dentro da loja. E aquele nível de qualidade que ela historicamente entregava por um preço específico, foi embora.
Caixas chegando sem padrão, produto sem identidade, loja masculina, esmalte, um pouco de tudo. E com isso, anos de marketing positivo viraram pó.
Para tentar resolver, trouxeram pessoas que achavam mais “moderna”, só que sem nenhuma experiência real em varejo de moda. Eram profissionais acostumados a resolver problemas de outro tipo de negócio, e a empresa foi se arrebentando cada vez mais, perdendo a confiança que existia com a marca.
A virada com Edson Salles
Há dois anos entrou um novo presidente na Marisa, Edson Salles, que por 16 anos foi CEO da Casas Bahia e passou outros 11 anos como CEO da Riachuelo. O primeiro presidente da Marisa com experiência real no setor. A decisão dele foi voltar ao básico: a Marisa é uma loja de moda feminina popular, ponto final.
As lojas foram reformadas, a reposição melhorou, o atendimento passou a ser mais treinado e focado no público feminino e pontos sem sentido foram fechados, incluindo uma segunda unidade na Avenida Paulista.
A sacada do infantil
Aqui está o pulo do gato: 84% do público da Marisa são mulheres, e 70% delas são mães. Então a empresa trouxe a categoria infantil para perto da entrada das lojas. Resultado: as vendas infantis cresceram 53% em 2025 e a participação desse produto na receita saltou de 6% para 15%.
O efeito colateral foi ainda melhor: a base de clientes rejuveneceu, com mães de 20 a 35 anos passando a enxergar a Marisa como solução para a família inteira.
Comprar roupa infantil pela internet é complicado, porque criança cresce rápido e de forma imprevisível. Então a criança vira a isca que traz a mãe para dentro da loja física, e o ciclo se retroalimenta.
Vale a pena investir na Marisa?
Atenção: decisão de gestão acertada não significa recomendação de compra. A empresa ainda está numa situação muito séria.
Olhando os números da empresa, ela está com o P/L em -1,95, ou seja, prejuízo. O P/VP é de 2,39 e o dividend yield de 0,7%. A ação está sendo negociada a centavos, o que a caracteriza como penny stock, e em breve deve passar por um agrupamento de ações, o que pode gerar nova queda.
O histórico de prejuízos é pesado: 88 milhões em 2016, 60 milhões em 2017, 28 milhões em 2018, 432 milhões em 2020, recorde de 519 milhões em 2022, 521 milhões em 2023. Mas em 2024 o prejuízo caiu para 316 milhões, e em 2025 para apenas 60 milhões, o menor da série histórica.
A receita também encolheu, de 2,8 bilhões em 2019 para 1,6 bilhão mais recentemente, mas com custos muito mais controlados, quase alcançando o equilíbrio operacional.
A Selic alta em 14,5% pesa muito sobre uma empresa com margem líquida perto de zero. A Marisa precisa de um turnaround completo, e qualquer solavanco financeiro pode levar a companhia a uma situação ainda mais grave.
É um patrimônio do varejo brasileiro e a equipe atual parece competente, mas o risco continua alto. Por isso, cuidado: não compre ações só porque gostou da história de virada. Analise os números com calma antes de qualquer decisão.
Quer entender melhor sobre a história da empresa? Contei mais sobre no vídeo a seguir!
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