13 de outubro de 2026 - por Raul sena
Saber o que fazer não adianta nada se você não tiver coragem de executar. Qualquer pessoa sabe, em teoria, como acionar o botão de segurança do banco em caso de assalto. Mas, na hora H, muita gente congela. Com os investimentos é igual: o que derruba a maioria não é o desconhecimento, é a falta de sangue frio na hora de agir. Neste artigo, a ideia é te dar um pouco dessa coragem, entendendo o que é uma crise e como se comportar diante dela.
Veja também: 8 investimentos seguros em tempos de crise
O Brasil está em crise?
Vamos aos números, que hoje viraram assunto político, mas vou focar apenas no que é indiscutível:
- A Selic está em 14% ao ano, o segundo maior juro real do planeta.
- Temos 2.466 empresas em recuperação judicial, um recorde histórico.
- São 8,7 milhões de CNPJs negativados.
- O endividamento das famílias é o maior da nossa história.
- Uma eleição presidencial está chegando em outubro e ninguém sabe o resultado.
Isso é crise. Mas não é uma crise de um governo só, nem de um momento específico. Ela simplesmente está aí. E tem um detalhe curioso: o Ibovespa está perto dos 180 mil pontos, próximo da máxima histórica. Ou seja, é uma crise de dívida, não de bolsa. Quem está quebrando é quem se financiou a 14% ao ano, quem tem caixa está sendo pago para esperar.
As empresas que se endividaram na ressaca da pandemia, com juros a 2%, apostaram num Brasil bem melhor do que o real. O excesso de otimismo está cobrando a conta.
O que aconteceu depois das crises anteriores
O jeito mais honesto de falar do futuro é olhar o passado. Veja o que o Ibovespa fez em cada grande susto:
- 2002 (eleição do Lula):o mercado temia um governo radical e a bolsa caiu 40%. Doze meses depois do fundo, subiu 100%.
- 2008 (crise do subprime):queda de 60%, seguida de alta de 115% em 12 meses.
- 2015 e 2016 (recessão e impeachment):queda de 36% e alta de 75% um ano depois do fundo.
- 2020 (pandemia):queda de 47% em poucas semanas e recuperação total em cerca de 8 meses.
Em 2016 o cenário era parecido com o de hoje: Selic em 14,25%, recessão e onda de recuperações judiciais. Dois anos depois, a Selic estava em 6,5%. Quem travou juro alto ganhou duas vezes: no cupom e na valorização do título.
Um exemplo prático da pandemia: quem tinha R$ 100 mil na bolsa, aproveitou a queda e fez aportes, terminou com cerca de R$ 118 mil. Quem ficou parado voltou ao patamar de antes. Quem vendeu no fundo ficou com R$ 54 mil. Vender na crise é, na prática, a pior ideia possível.
Por que o medo vende tanto?
Crise gera cliques e o medo gera decisões rápidas. É só pensar: se seu alarme toca porque tem um compromisso importante, você levanta na hora. Se é um fim de semana sem ameaça, você enrola. Quem vende curso, passaporte para sair do país ou a tal “fórmula mágica” sabe disso e cria uma ameaça sob medida.
A política usa o mesmo truque, e dos dois lados. Em ano eleitoral, o outro candidato nunca é só pior, é o inimigo da humanidade. Tem candidato melhor e pior, claro. Mas se você montar sua carteira pelo clima do noticiário, vai tomar decisão ruim.
Recuperação judicial: ameaça real, mas não para todo mundo
A recuperação judicial é um risco concreto, mas depende de onde você está investido. No caso das Americanas, a ação caiu 77% em um único dia. Se ela era 2% da sua carteira, o estrago foi de 1,5% do patrimônio. Agora, se você tinha 40% do dinheiro em debêntures da empresa, o prejuízo foi de anos.
Ou seja, a ameaça é maior para quem investe em setores arriscados. Empresas com lucro consistente e dívida baixa tendem a passar longe disso.
As 4 regras para investir na crise
Tenha uma reserva do tamanho do seu risco de renda. Se você é CLT é importante ter de 6 a 12 meses de despesas. Servidores públicos devem guardar de 3 a 6 meses, porque é quase impossível que a renda deles simplesmente desapareça do nada. Agora, se você é empresário, tenha pelo menos 12 meses de custos guardados. É essa reserva que permite que você continue investindo, enquanto todo mundo vende.
Pergunte o que mudou: seu plano de vida ou a manchete? Compare quanto você ganhava em 2020, 2021 e 2022 com o que ganha hoje, corrigindo pela inflação. Se sua renda ou sua empresa estão crescendo, a crise pode estar só no noticiário. E lembre: se o dinheiro é para 2045, a eleição de 2026 não muda nada. Se é para 2027, ele nem deveria estar no risco.
Juro alto é presente para quem tem caixa. Cada R$ 100 mil em pós-fixado rendem cerca de R$ 14 mil brutos por ano. Para o longo prazo, o IPCA+ pode render muito com a queda dos juros, desde que você entenda a marcação a mercado. Já o pré-fixado exige cuidado: travar taxa sem saber se está no topo histórico é como comprar no escuro. Quando os juros sobem, quem travou antes se dá mal.
Invista todo mês, no automático. A pergunta errada é “quando vai parar de cair?”. A certa é “quanto consigo colocar por mês?”. Quando cai, você compra mais cotas. Quando sobe, compra menos, mas não deixa de comprar.
Cada perfil tem seu cuidado
Se você é empresário, lembre-se sempre: pessoa física e PJ nunca se misturam. Quem financia a empresa com patrimônio pessoal vira fiador da dívida. O caixa da empresa deve ficar em pós-fixado com liquidez diária. E dívida cara se quita antes de qualquer investimento: não existe investimento seguro que renda 30% ao ano, mas existe dívida que cobra isso.
Se você é servidor público, sua renda é a mais estável do país, o que permite mais bolsa e mais prazo. Por isso, seu risco é ter um único pagador: salário, aposentadoria e previdência vêm da mesma fonte. Vale montar uma previdência própria (como o PGBL, para abater imposto) e dolarizar uma parte do patrimônio, em até 40%. Além disso, com juro alto é a hora de travar dívida longa a seu favor, com títulos para 2045, por exemplo.
Agora, se você é CLT, seu grande risco é o emprego, não a bolsa. Em crise, a demissão chega antes. Por isso, reserve a maior parte do capital em renda fixa. Aporte no dia do salário, use o 13º para acelerar os aportes e esqueça a poupança, que rende só metade do CDI.
Se você tem pouco dinheiro, ou simplesmente ainda não decidiu onde investir, uma saída simples é o ETF de liquidez AUPO11. Ele rende praticamente a Selic, tem imposto de renda mais barato e você pode resgatar quando quiser. A alternativa mais conservadora é o Tesouro Selic. Os dois funcionam como um bom lugar para o dinheiro esperar enquanto você estuda e aprende mais sobre como investir!
Quer entender melhor sobre tudo isso que expliquei aqui? Então, assista ao vídeo em que detalho melhor sobre como investir corretamente nesses momentos de crise.
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