Como fazer um esquema igual ao do Vorcaro?

10 de junho de 2026 - por raulsena1


Muito tem se falado sobre o esquema do Vorcaro. Alguns dizem que ele era brilhante, um gênio do crime financeiro, outros que ele era só um matuto com sorte. Mas o que ele fez, exatamente? É isso que vou te explicar hoje, afinal, como era o esquema do Vorcaro? Leia até o fim e entenda!

Veja também: Crimes financeiros: o que são e quais são os principais?

Como um banco funciona?

Antes de chegar ao golpe em si, é importante entender uma coisa básica sobre bancos: eles vivem de emprestar dinheiro que não têm.

Um banco não precisa ter no caixa tudo o que ele empresta, ele pode emprestar até 10 vezes o que tem disponível. Para isso funcionar sem quebrar, ele só precisa manter mais depósitos do que saques no dia a dia, ou seja, mais dinheiro entrando do que saindo.

Essa reserva mínima que o banco é obrigado a manter tem um nome: índice de Basileia. No Brasil, a lei exige que pelo menos 12% do total emprestado esteja disponível, seja em caixa real ou em títulos públicos com liquidez. É o colchão de segurança do sistema.

O esquema dos CDBs superfaturados

O Vorcaro comprou o Banco Máxima e rebatizou de Banco Master, e então ele começou a captar dinheiro de um jeito muito simples: pagando taxas absurdas nos CDBs. Chegou a oferecer 140% do CDI ou algo em torno de 20% pré-fixado ao ano.

Isso por si só não seria, necessariamente, um problema. Bancos emprestam a taxas ainda maiores do que essas. O problema estava no que ele fazia com esse dinheiro depois de captar.

A mágica das empresas-lixo

Com o dinheiro captado, ele montava fundos e usava esses fundos para comprar participações em empresas de qualidade bastante questionável.

E aqui vem a principal parte do esquema: imagine uma ação cotada a R$ 1. O fundo criado pelo Vorcaro compra 2 milhões dessas ações. Depois, ele pegava um outro fundo (que ele mesmo criou) e comprava as mesmas ações por R$ 10 ou R$ 100.

E com isso, aqueles R$ 2 milhões investidos, viraram R$ 20 milhões, ou R$ 200 milhões no papel. E com esse patrimônio inflado artificialmente, ele podia se alavancar muito mais, captar muito mais, emprestar muito mais, e girar o esquema cada vez maior.

Banco público como parceiro involuntário

Mas quem compra empresa-lixo a R$ 100 a ação se ela vale R$ 1? Banco público!

O Vorcaro tinha uma rede de relacionamentos bem azeitada. Jantares, amigos de amigos, políticos bem posicionados. E quando precisava se desfazer de um ativo superfaturado, havia sempre um banco estatal disposto a comprar. O que entrou por R$ 2 milhões saía por R$ 200 milhões. Com esse lucro, ele emitia mais CDB, captava mais, comprava mais empresa-lixo, e reiniciava o ciclo.

Para manter o esquema funcionando, ele precisava de proteção. E proteção no Brasil tem preço.

O Banco Central fiscaliza, a CVM investiga, a Polícia Federal pode bater na porta. Então o Vorcaro ia resolvendo isso por partes: um jantarzinho aqui, uma palestra paga em Portugal ali, um cartão corporativo para quem precisava de uma forcinha no Iguatemi. Funcionário de fiscalização com salário de R$ 20 mil que de repente tem R$ 30 milhões para gastar, não é coincidência.

O esquema foi crescendo. De baixo clero foi chegando até deputado, senador, vereador, prefeito. Tinha pastor, influencer e tudo que é tipo de gente.

O FGC e o erro fatal

Enquanto tudo isso rolava, os investidores compravam os CDBs do Master sem muito medo. Por quê? Porque tinham o FGC, o Fundo Garantidor de Créditos, cobrindo até R$ 250 mil por CPF. Se o banco quebrasse, quem pagaria a conta seriam os outros bancos, que contribuem para o fundo.

E foi exatamente isso que acelerou a queda do Vorcaro. O FGC é privado e mantido pelos grandes bancos. Quando o buraco do Master chegou na casa dos R$ 30 bilhões, os banqueiros perceberam que seriam eles que teriam que pagar e aí a tolerância acabou.

Com a nova gestão do Banco Central, veio Galipolo, e a festa terminou. Ofereceram ao Vorcaro vender o banco por R$ 1 para sair livre e ele recusou. Ligou para quem achou que podia ajudar, mas não adiantou.

Gênio ou matuto?

Depois de entender tudo isso, a resposta é bem mais simples do que parece: negligência, suborno, e um esquema que qualquer analista que olhasse o índice de Basileia do Banco Máxima já em 2019 conseguia identificar como bomba-relógio.

O Vorcaro não era um gênio. Era um cara que descobriu que a República Brasileira inteira pode ser comprada por volta de R$ 2 bilhões, e foi ingênuo o suficiente para usar o cartão de crédito do próprio banco para fazer isso.

Inclusive, se tivesse sido mais cuidadoso, talvez ainda estivesse no esquema e não estaria nessa situação toda. Sinceramente, não tem nada de especial, ele não é um grande gênio por ter bolado isso. Quer entender melhor sobre todo esse esquema? Assista ao vídeo em que explico todo o passo a passo de como ele fez isso.

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