15 de junho de 2026 - por Sidemar Castro
A desdolarização é o processo gradual em que países, bancos centrais e empresas reduzem sua dependência do dólar americano para reservas internacionais, comércio exterior e transações financeiras. Essa mudança estrutural busca diversificar os riscos econômicos globais.
O movimento de desdolarização tem ganhado força devido a tensões geopolíticas e estratégias econômicas globais. Entenda suas causas e consequências.
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O que é desdolarização?
Desdolarização é a redução do uso do dólar americano como moeda principal no comércio internacional, nas reservas dos bancos centrais e nos contratos financeiros pelo mundo.
Em termos mais simples, é quando países e empresas deixam de usar o dólar como meio de troca para comprar e vender produtos ou para guardar dinheiro.
É um movimento de diversificação, não de abolição total da moeda americana.
Causas da desdolarização
As causas principais são geopolíticas e econômicas. Geopoliticamente, o uso de sanções pelos Estados Unidos, como a exclusão de bancos russos do sistema SWIFT em 2022, fez com que países buscassem alternativas para não ficarem reféns.
Economicamente, a participação dos EUA no PIB global caiu nas últimas décadas, enquanto a da China cresceu, tornando natural que outras moedas ganhassem espaço.
Além disso, o endividamento americano elevado e as crises políticas internas reduzem a confiança de longo prazo no dólar.
Objetivos da desdolarização
Cada país tem seus objetivos ao promover a desdolarização. Para Rússia e China, o foco é escapar de sanções e ter autonomia financeira para não ter reservas congeladas.
Para Brasil e Índia, o objetivo é mais prático: reduzir custos de conversão cambial e abrir espaço para suas moedas no comércio global. Para países como Turquia e Egito, a meta é proteger a economia contra a valorização forçada do dólar que encarece importações.
Em comum, todos buscam reduzir a vulnerabilidade a decisões unilaterais americanas.
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Como funciona a desdolarização?
A desdolarização funciona na prática por três caminhos.
Primeiro, acordos bilaterais de comércio: dois países combinam de usar suas próprias moedas em vez do dólar como intermediário. Exemplo: Brasil vendendo soja para a China em reais, e China vendendo máquinas para o Brasil em yuans.
Segundo, diversificação de reservas: bancos centrais trocam parte de seus dólares por euros, ienes, libras, yuans ou ouro.
Terceiro, criação de sistemas próprios: Rússia opera o SPFS, uma alternativa ao SWIFT, e o Brics estuda o BRICS Pay para transações digitais em moedas locais.
Exemplos de desdolarização
Há vários exemplos em andamento. A Rússia, após as sanções de 2022, passou a exigir pagamento em rublos por seu gás exportado para países “amigos” e vende petróleo para a Índia e China em moedas locais.
A China tem ampliado o uso do yuan no comércio de petróleo com a Arábia Saudita e Rússia. O Brasil reduziu a fatia do dólar em suas reservas internacionais e aumentou posições em ouro e renminbi.
Bangladesh pagou pela construção de uma usina nuclear russa em yuans, não em dólares. A Índia começou a pagar importações de carvão da Rússia em rúpias, não em dólares.
Benefícios e consequências da desdolarização
Os benefícios para os países que desdolarizam incluem menor exposição a sanções, custos de transação mais baixos no comércio bilateral e maior controle sobre sua política monetária.
As consequências para os Estados Unidos são potencialmente graves: o dólar pode se depreciar, os juros dos títulos públicos americanos podem subir se houver menos compradores internacionais, e a capacidade americana de financiar seu déficit gêmeo, fiscal e comercial, seria reduzida.
Para o mundo, a consequência é um sistema monetário internacional mais fragmentado, com múltiplas moedas de reserva em vez de uma dominante, o que pode gerar mais volatilidade cambial.
Influência da desdolarização nos investimentos
A desdolarização já está influenciando investimentos de algumas formas perceptíveis. O ouro tem se valorizado porque bancos centrais de países emergentes estão comprando o metal como alternativa ao dólar. Se a tendência continuar, ações de mineradoras de ouro podem se beneficiar.
Por outro lado, títulos do Tesouro americano podem perder valor se governos estrangeiros reduzirem suas compras, o que pressionaria os juros para cima. Moedas como o yuan podem se fortalecer gradualmente, afetando investidores com posições em dólar.
Para o investidor brasileiro, a desdolarização pode significar que fundos cambiais diversificados (não só em dólar) façam mais sentido no futuro.
A desdolarização está acontecendo atualmente?
Sim, está acontecendo, mas de forma gradual e concentrada em áreas específicas, não como um colapso do dólar. O J.P. Morgan mostra que a participação do dólar nas reservas de câmbio globais caiu para perto de 60%, o menor nível desde meados dos anos 1990.
Além disso, uma proporção crescente do petróleo e do gás está sendo precificada em contratos que não usam dólar. No entanto, o dólar ainda responde por 88% do mercado de câmbio global e por cerca de metade das transações de comércio internacional.
Portanto, há desdolarização nas reservas e em nichos de commodities, mas não no fluxo diário de capitais.
Desdolarização e o Brics
O Brics tem se tornado um polo importante para a desdolarização, especialmente por iniciativa da Rússia e da China. Após as sanções ao SWIFT, a Rússia passou a negociar com outros membros do bloco o uso de moedas locais e a criação de sistemas alternativos.
Em maio de 2026, Brasil e Rússia discutiram em Brasília a criação de uma rede de pagamentos bilaterais independente, que conectaria o SPFS russo a um sistema brasileiro. O bloco também avança com o BRICS Pay, um sistema digital inspirado no Pix brasileiro para permitir transações instantâneas em moedas locais.
Embora o Brasil tenha adotado uma postura mais cautelosa para não romper com o dólar abruptamente, o comércio bilateral já ultrapassou 10 bilhões de dólares em 2025, e há pressão para liquidar essas transações em reais e rublos.
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