Fundo patrimonial (endowments): o que é, como funciona, no Brasil

O fundo patrimonial, ou endowment, é uma reserva financeira permanente destinada a garantir recursos contínuos para uma causa ou organização. Veja como funciona.

26 de setembro de 2025 - por Sidemar Castro


Um fundo patrimonial (endowments) é como uma reserva financeira criada para sustentar uma causa ou uma organização ao longo do tempo. A ideia é garantir que haja sempre recursos disponíveis de forma contínua, protegendo o patrimônio contra riscos e evitando desperdícios.

No Brasil, esse modelo vem ganhando espaço justamente por oferecer estabilidade e longevidade para iniciativas socioambientais. Leia mais nessa matéria.

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O que é um fundo patrimonial(endowments)?

Pense no fundo patrimonial como um alicerce financeiro pensado para durar: o capital doado fica investido e só os rendimentos são usados para financiar projetos, pagar despesas e garantir a continuidade da missão da instituição.

Esse modelo costuma exigir governança clara, contas separadas e um comitê de investimentos, e é utilizado por universidades, hospitais, organizações culturais e ONGs para reduzir a dependência de doações esporádicas e permitir planejamento de longo prazo.

No Brasil, a legislação recente e práticas de gestão oferecem caminhos e requisitos específicos para criá-lo e administrá-lo com segurança.

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Por que um fundo patrimonial é criado?

A razão de existir de um fundo patrimonial é transformar apoio pontual em sustentação permanente.

Ao separá-lo do orçamento operacional, garante-se que o patrimônio continue intacto enquanto seus rendimentos financiam projetos e despesas.

Assim, a instituição conquista independência, evita crises financeiras e assegura a continuidade de seus objetivos no longo prazo.

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Em quais setores o fundo patrimonial é aplicado?

As duas principais áreas de aplicação de um fundo patrimonial são:

  • A Aplicação Financeira (onde o dinheiro rende): O principal (o valor das doações) é investido no mercado financeiro e de capitais. Essa é a forma de garantir que o montante inicial preserve seu valor e, idealmente, cresça, gerando os lucros necessários.
  • A Causa Apoiada (onde o rendimento é usado): Os rendimentos gerados por esses investimentos (os juros, lucros, etc.) são aplicados nos setores ou causas sociais para os quais o fundo foi criado.

Exemplos de fundo patrimonial

Os exemplos mais conhecidos e impactantes de fundos patrimoniais no exterior, são os das grandes universidades americanas. Eles são verdadeiros gigantes financeiros. Veja as Universidades de Harvard e Yale; ambas possuem fundos que alcançam a casa das dezenas de bilhões de dólares.

Esse dinheiro não é só um número impressionante: é a base que permite a elas financiar pesquisas de ponta, oferecer auxílio financeiro generoso a estudantes de baixa renda, e garantir a excelência acadêmica por gerações. A diferença que um endowment faz na educação é a principal vitrine dessa ferramenta no mundo.

No Brasil, o movimento é mais recente, mas já temos exemplos importantes se estruturando, principalmente após a Lei do Fundo Patrimonial de 2019. Várias universidades públicas estão criando seus próprios fundos, como a USP e a Unicamp, buscando autonomia financeira para projetos de ensino e pesquisa.

Além do setor educacional, vemos fundos em outras áreas, como o Fundo Patrimonial do Museu do Ipiranga (focado em cultura e patrimônio) e iniciativas como o Fundo Colaborativo Primatera (voltado para a agenda ambiental e climática).

A diferença aqui é que, enquanto nos Estados Unidos a tradição é centenária, no Brasil estamos construindo essa cultura de doação de longo prazo agora.

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Como funciona um fundo patrimonial?

Pense num fundo patrimonial como uma poupança inteligente para causas que importam. Quando alguém doa para esse tipo de fundo, o dinheiro não é usado de imediato.

Ele é investido com cuidado, e só os lucros dessas aplicações são direcionados para apoiar projetos. Assim, a doação continua gerando impacto por muitos anos, sem se esgotar.

Por trás disso, existe uma estrutura bem organizada. Uma equipe especializada cuida dos investimentos, seguindo regras rígidas de transparência e responsabilidade. A organização que recebe o apoio não pode mexer no dinheiro diretamente, ela conta com os rendimentos que vêm do fundo.

Essa separação protege os recursos e garante que eles sejam usados com sabedoria. É uma forma de transformar doações em legado, criando estabilidade financeira para quem trabalha por um mundo melhor.

Vantagens de criar um fundo patrimonial

Considere uma ONG que luta pela preservação de nascentes em comunidades rurais. Ela depende de doações, mas nunca sabe se vai conseguir manter seus projetos no próximo ano. Agora pense se ela tivesse um fundo patrimonial: uma reserva que rende frutos todos os meses, garantindo recursos para continuar seu trabalho sem depender da sorte ou da sazonalidade das campanhas.

Essa é uma das grandes vantagens de criar um fundo patrimonial. Ele dá fôlego financeiro, protege a organização contra imprevistos e permite que ela planeje o futuro com mais tranquilidade. E o melhor: não é preciso começar com grandes valores.

Mesmo com pouco, é possível estruturar um fundo e crescer aos poucos, com apoio de parceiros e doadores que acreditam na causa. É como construir uma base sólida para que a missão da organização nunca pare de acontecer.

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Fundos patrimoniais no Brasil

A jornada dos fundos patrimoniais no Brasil é marcada pela busca por segurança e perenidade. Antes de 2019, muitas organizações usavam estruturas improvisadas, mas o mercado pedia algo mais sólido, que garantisse que o capital doado ficaria intacto e renderia para sempre.

A resposta veio com a Lei 13.800, que trouxe o conceito de segregação patrimonial. Basicamente, a lei assegura ao doador que a doação dele será separada e protegida, não se misturando com o caixa operacional da instituição que será apoiada.

Essa clareza legal foi o catalisador para que diversas causas ganhassem fôlego. O Fundo Patrimonial não é mais só uma ideia, mas um instrumento de sustentabilidade financeira que está sendo aplicado em vários setores de interesse público no país: desde o apoio a programas de pesquisa e inovação nas grandes universidades. E que passa, também, por projetos de recuperação e manutenção de patrimônio cultural e até o financiamento de iniciativas de saúde e meio ambiente.

A principal característica no Brasil, assim como no exterior, é o foco em garantir que apenas os rendimentos do capital sejam usados, criando um fluxo financeiro previsível e que pode durar por tempo indeterminado.

Como investir em fundo patrimonial?

Em vez de pensar em como investir, pense em como deixar um legado duradouro. Quando você doa para um fundo patrimonial, você está se unindo a um mecanismo de sustentabilidade de longo prazo para uma instituição.

A chave é a Organização Gestora. Graças à Lei 13.800/2019, essas organizações são entidades independentes e altamente fiscalizadas que têm um único papel: captar seu dinheiro e gerenciá-lo com responsabilidade no mercado financeiro (o que inclui diversos tipos de ativos de investimento). Essa separação garante a segurança do seu capital doado.

Para você, o doador, a forma mais prática é procurar um fundo já estabelecido na área de seu interesse (Educação, Cultura, Saúde, etc.) e realizar a doação. Você pode doar um valor único, que se soma ao patrimônio principal, ou fazer doações regulares.

Em fundos maiores, é até possível, muitas vezes, direcionar o rendimento para um projeto específico, como um programa de bolsas estudantis, desde que isso esteja previsto nas regras de governança do fundo. O retorno, nesse caso, é o impacto social e a certeza de que a causa que você apoia terá recursos estáveis e previsíveis para o futuro.

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Origem dos fundos patrimoniais

A ideia de criar um fundo que preserve um patrimônio para gerar rendimentos sustentáveis já aparece em registros antigos, e ao longo da evolução institucional foi ganhando forma no meio acadêmico europeu e americano.

Nas universidades americanas, o modelo se consolidou ao longo dos séculos, com doações estruturadas para viabilizar atividades perenes. A partir dessas experiências, o conceito se espalhou globalmente e hoje serve de referência para organizações que buscam estabilidade financeira duradoura.

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Fontes: Idis, Gov Br, Sitawi, Reditus, Investopedia, NDM Advogados, Fundo Primatera, BNDES.

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