1 de julho de 2026 - por raulsena1
Você já deve ter visto rolando na internet aquele comentário sobre a taxa de juros em 14,25%. E o clima geral é de pânico, né? Mas a ideia aqui não é fazer terrorismo e nem dizer que “vai dar tudo certo”. A proposta é entender, de forma racional, o que está acontecendo com a Selic e por que esse problema é mais grave do que parece à primeira vista.
Antes de mais nada, é importante desmistificar uma coisa: o governo não chega e simplesmente decide “agora todo banco empresta a 14,25%”. O que acontece é mais sutil e de certa forma, mais perigoso.
O Banco Central define que os títulos públicos vão pagar 14,25% ao ano. E aí entra a lógica do risco soberano: se você é dono de um banco, prefere emprestar dinheiro para o governo, que tem a máquina de imprimir dinheiro ou para o Rogerinho lá da esquina? A resposta é óbvia. Por isso, nenhum banco vai emprestar para uma pessoa física ou empresa por menos do que o governo está pagando.
Na prática, eles emprestam sempre acima disso, porque senão não faria sentido correr risco nenhum.
Veja também: Selic Over: o que é, como funciona, importância
Como isso te afeta?
O encarecimento generalizado do crédito é o primeiro efeito dominó. Financiamento imobiliário fica mais caro, cartão de crédito fica mais caro. E aquela antecipação de recebíveis que todo lojista usa na maquininha? Também encarece, porque a empresa que antecipa seu dinheiro precisa comprar essa grana no mercado por, no mínimo, a taxa básica.
Com o crédito mais caro, o consumo esfria. As famílias compram menos, o comércio fatura menos, contrata menos gente. E assim vai se fechando um ciclo bem desconfortável.
O investimento que trava tudo
Tem ainda um terceiro efeito, talvez o mais silencioso de todos: o investimento produtivo simplesmente para de fazer sentido.
Pense comigo: por que alguém vai arriscar um milhão de reais abrindo um negócio, lidando com legislação trabalhista, concorrência e todo tipo de imprevisto, se pode simplesmente deixar o dinheiro rendendo na Selic e dobrar de patrimônio a cada cinco anos, sem fazer nada?
É aí que nasce o que pode ser chamado de rentismo: cada vez mais gente prefere ganhar dinheiro emprestando para o governo, do que empreendendo de verdade. E quando isso acontece em escala, a economia produtiva sofre, porque sem investimento, não tem geração de emprego, nem produto novo no mercado.
Dívida pública
Aqui mora outro ponto crítico. A dívida pública brasileira não para de crescer: se a taxa de juros está em 14% e você não paga nem um centavo dela, o próprio valor da dívida já cresce sozinho nesse ritmo. Cortar gastos públicos ajuda, mas não resolve sozinho, porque o tamanho da dívida acumulada é gigantesco.
E tem um detalhe importante: quanto mais instável o país parece para quem empresta dinheiro, mais caro fica esse empréstimo. Foi isso que aconteceu, por exemplo entre 2021 e 2022, quando o Brasil saiu de uma Selic de 2% para quase 14% em pouco mais de um ano. Quem tomou empréstimo lá no início, pagando juros baixos, viu a conta praticamente triplicar ao longo do caminho.
Para se ter uma ideia da gravidade, o Brasil está hoje com um juro real de cerca de 9,67%, o que coloca o país na liderança do ranking mundial, à frente até de nações em guerra, como Rússia e Ucrânia. É o maior patamar de juros nominais dos últimos 20 anos.
Esse cenário tem consequência direta: 2025 registrou o maior número de empresas em recuperação judicial desde 2012. Mais de 80% da população brasileira tem alguma dívida, e mais da metade já está com pagamentos em atraso.
O Brasil vai quebrar?
Aqui entra um ponto fundamental para não cair no discurso de que “o Brasil vai quebrar”. Apesar de todo esse cenário, o país também registrou o menor desemprego da série histórica do IBGE em 2025, queda de 19% nos pedidos de falência e crescimento projetado de 8,4% no crédito para 2026.
A bolsa brasileira, inclusive, foi uma das que mais se valorizaram no mundo no último ano, com alta dolarizada acima de 30%. Isso mostra que, apesar da Selic alta machucar de verdade, ela não é o único fator determinando o sucesso ou fracasso de um negócio.
Se você é empreendedor ou está no mercado de trabalho, o exercício mais importante é olhar para o seu setor especificamente. Se mais da metade dos seus concorrentes está quebrando, isso é sinal de crise sistêmica do setor. Mas se você vê negócios crescendo ao seu redor, talvez o problema não seja só a taxa de juros, pode ser mudança tecnológica, concorrência ou outro fator específico.
A Selic dói, mas momentos de juro alto historicamente também foram os melhores momentos para quem conseguiu enxergar oportunidade em meio à crise, seja na bolsa, seja em negócios mais resilientes. A dica é: não ignore a dor, mas também não deixe que ela seja a única lente pela qual você enxerga sua situação financeira.
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