A Nestlé e o governo brasileiro estão envolvidos até o talo nisso

22 de julho de 2026 - por raulsena1


Como o governo brasileiro acabou criando a Nescafé? Essa história é tão inusitada que vale a pena contar!

Vamos começar pelo café, que é praticamente uma religião aqui no Brasil. A maioria dos brasileiros bebe café todos os dias, e não é pouco. Mas o assunto de hoje é especificamente o café solúvel, aquele que vira pó e dissolve na água quente. Esse produto, o Nescafé, é hoje o instantâneo mais vendido do planeta. Uma em cada sete xícaras de café consumidas no mundo é dessa marca. E o mais curioso é que ela nasceu no Brasil, lá em 1929, embora só tenha sido lançada de fato pela Nestlé na Suíça anos depois.

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A era do café com leite

Para entender a importância do café na nossa história, tem uma curiosidade e tanto. A expressão “café da manhã” não existia. O que a gente chama hoje dessa refeição era simplesmente chamado de almoço. O almoço virava jantar e o jantar virava ceia.

Com o tempo, o hábito de tomar café em cada refeição foi empurrando os nomes, e assim surgiu o café da manhã e o café da tarde. Por isso, se você ler um livro brasileiro escrito antes da década de 40, vai notar as pessoas “almoçando” logo que acordam. Na real, elas estavam tomando o café da manhã, do jeito que em Portugal ainda chamam de “pequeno almoço”.

Essa dependência toda pelo café explica por que a economia brasileira era tão ligada à exportação do grão para os Estados Unidos e a Europa. E foi exatamente aí que a coisa complicou.

A crise de 1929 e o problema que ninguém sabia resolver

Quando a bolsa de Nova York quebrou em outubro de 1929, a demanda por café simplesmente sumiu, porque era lá que os contratos eram negociados. O Brasil ficou com estoques gigantescos e sem comprador para o produto que sustentava boa parte da economia do país.

Seria como se hoje o Brasil não conseguisse mais vender carne, soja, nada. E na época não existiam as formas modernas de armazenamento que temos agora, então o café ia estragar.

Foi nesse cenário de desespero que o governo brasileiro bateu na porta da Nestlé, pedindo uma solução para consumir esse excedente sem que ele se perdesse. Em 1929, o químico Max Morgenthaler começou a trabalhar no problema, na Suíça. Só que a solução não veio rápido: em abril de 1938, quase dez anos depois (e sem resolver o problema daquele ano específico), nasceu o Nescafé, o extrato de café puro em pó que fica pronto só com água quente.

Em cerca de 24 meses, o produto já era vendido em mais de 30 países. Durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, ele passou a fazer parte das rações dos soldados americanos, porque resolvia um problema prático de logística. No pós-guerra, milhões de soldados voltaram para casa com o hábito, e o Nescafé virou um fenômeno global.

E aqui está a parte mais irônica de tudo: o país que criou a necessidade foi o último a receber o produto de volta. Os fabricantes de café torrado e moído no Brasil pressionaram contra o Nescafé, porque ele ameaçava o negócio deles e só em 1953 o produto passou a ser fabricado aqui. Demorou 15 anos de atraso para o Brasil conseguir o próprio invento.

Hoje o Brasil é o maior produtor mundial de café de qualidade, exportando os melhores grãos arábica e conilon para o mundo todo. Só que em casa, a gente consome muito café de baixa qualidade, cheio de talo e outras misturas. E o mais curioso: a cada 20 xícaras de café tomadas por aqui, uma é de solúvel.

O Nescafé não foi inventado porque alguém queria praticidade. Ele nasceu porque o Brasil tinha um problema seríssimo e precisou de ajuda para resolvê-lo.

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Conhecendo a Nestlé

Agora que você entendeu a curiosidade histórica, vamos à empresa. A Nestlé foi fundada em 1866 por Henri Nestlé, em Vevey, na Suíça, e hoje é a maior empresa de alimentos e bebidas do mundo. Os números impressionam: presença em 185 países, 335 fábricas espalhadas em 75 países e mais de 270 mil colaboradores.

O portfólio de marcas é gigantesco demais para caber numa lista só: águas como Perrier e San Pellegrino, petcare com Purina e Friskies, nutrição infantil com Gerber e Cerelac, além de chocolates, cafés, sorvetes e vitaminas. São mais de 30 marcas bilionárias e mais de 2 mil marcas no portfólio global.

Em 2025, a Nestlé faturou cerca de 89,5 bilhões de francos suíços, com lucro líquido de 9 bilhões e margem operacional de 16,1%. O dividendo por ação ficou em torno de 3,10 francos suíços. Dá para investir direto pelos Estados Unidos, através do ADR na bolsa americana, ou diretamente na bolsa suíça. Também existem BDRs e ETFs que incluem a empresa na carteira.

Vale a pena investir na Nestlé?

Aqui entra o ponto mais interessante para quem pensa em investimento de longo prazo. Nos últimos cinco anos, a ação da Nestlé caiu bastante e hoje está em um dos patamares mais baixos desde 2019. É uma queda expressiva para uma empresa desse tamanho.

Mas vale pensar em cenários. É possível que a Nestlé perca espaço em algumas frentes, que enfrente mais concorrência ou até que sinta o impacto de medicamentos como o Mounjaro, que reduzem o apetite e mudam hábitos de consumo. Só que dificilmente, num horizonte de 10 ou 20 anos, a gente vai ver a Nestlé sumir do mapa. Ela é dona de um market share tão gigantesco que, em muitos casos, precisa até tomar cuidado para não fazer propaganda boa demais e acabar canibalizando as próprias marcas.

É uma das cinco empresas que praticamente controlam o processamento de alimentos no mundo todo. Difícil imaginar um cenário em que ela deixe de ter relevância, por isso, vale sim considerar para estudar e ver se faz sentido ou não para sua carteira.

Quer conhecer mais sobre a Nestlé e seus números? Então, assista ao vídeo em que conto mais detalhadamente sobre!

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