29 de setembro de 2025 - por Sidemar Castro
Você já ouviu falar em “bad bank”? Apesar do nome curioso, que traduzido ao pé da letra seria “banco ruim”, essa é uma solução bastante estratégica no mundo financeiro. Trata-se de uma instituição criada especialmente para lidar com ativos problemáticos de outros bancos, como empréstimos que não foram pagos e investimentos considerados de alto risco.
A ideia por trás de um bad bank é simples: ele assume esses ativos tóxicos para que os bancos tradicionais possam respirar aliviados e voltar a focar no que fazem de melhor, que é conceder crédito e movimentar a economia. Enquanto isso, o bad bank se dedica a tentar recuperar o valor desses ativos, atuando com mais liberdade e especialização.
Neste artigo, você vai entender melhor como funciona essa estrutura, por que ela é criada e conhecer alguns exemplos práticos. Continue a leitura e mergulhe nesse tema!
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O que é Bad Bank?
Pense num banco que está com muitos empréstimos vencidos, títulos cujo valor despencou ou negócios que parecem condenados. Toda essa “bagagem pesada” afeta sua reputação, sua capacidade de emprestar, de atrair investidores, enfim, coloca em perigo seu funcionamento como um todo. Nesse cenário, surge a ideia da bad bank: uma espécie de “depositária” para os ativos ruins.
Você pode pensar nela como alguém que pega para si tudo o que está estragado, sujo ou arriscado, para que o banco original fique “limpo” e possa voltar a operar com tranquilidade. Os ativos são transferidos, muitas vezes a preço de mercado, para essa nova entidade, que se encarrega de tentar administrar ou recuperar algo desse montante.
Claro que não é simples. A bad bank precisa de recursos, suporte estatal ou regulatório, decisões de como liquidar ou valorizar esses ativos, lidar com perdas e, muitas vezes, pressões políticas e contábeis. Mas quando funciona bem, cumpre seu papel: liberar o banco “bom” para seguir adiante, com mais confiança e menos peso no balanço.
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Por que o Bad Bank é criado?
Suponha um banco que, durante um período difícil, fez muitos empréstimos que agora ninguém paga mais ou que virou uma bagunça: esses “empréstimos podres” pesam demais no balanço. Então surge a ideia do bad bank, um “banco ruim” ao qual se transfere todo esse peso. Com isso, o banco original fica mais leve, mais confiável.
É como se você tivesse uma casa com quartos bagunçados: em vez de tentar viver no caos junto com a bagunça, você separa tudo em um cômodo especial enquanto organiza o resto da casa. O bad bank cuida desses ativos problemáticos, tentando recuperar algum valor ao longo do tempo, enquanto o banco “bom” retoma suas atividades normais.
Claro que isso não é perfeito: se os bancos pensarem “ah, vou fazer empréstimos arriscados porque sempre vai aparecer um bad bank para consertar”, isso gera um comportamento irresponsável. Por isso, para funcionar bem, o modelo exige regras claras, supervisão rígida e compromisso real com a transparência.
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Como funciona o Bad Bank?
Um certo banco está cheio de empréstimos que não foram pagos e investimentos que deram errado. Isso atrapalha tudo: desde a confiança dos investidores até a capacidade de oferecer novos créditos. É aí que entra o bad bank. Ele funciona como uma espécie de “faxina financeira”, assumindo esses ativos problemáticos para que o banco original possa respirar e seguir em frente.
O processo é mais ou menos assim: primeiro, o banco identifica os ativos que estão dando dor de cabeça. Depois, transfere esses ativos para o bad bank, que passa a cuidar deles com estratégias específicas, como renegociação, venda ou ações judiciais.
Em alguns casos, o banco original também recebe apoio financeiro para se reestruturar. Com isso, ele volta a focar no que faz de melhor, enquanto o bad bank tenta recuperar o que for possível dos ativos ruins.
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Exemplos de Bad Banks
Para entender melhor, imagine que um país resolve “se livrar” das dívidas incobráveis dos bancos criando uma espécie de “depósito especial” para abrigá-las. Isso já foi feito várias vezes no mundo real. Na Áustria, quando a Hypo Alpe-Adria enfrentou grandes problemas, os ativos mais tóxicos foram colocados na Heta Asset Resolution, que passou a cuidar dessas “pendências”.
Na Finlândia, lá atrás, criaram o Arsenal para gerenciar dívidas que não haviam sido pagas e também bens dados como garantia. Com o tempo, muitos desses bens foram vendidos, processos judiciais foram conduzidos, e o bad bank foi sendo desativado.
Na Espanha, deram vida à Sareb para lidar com o estouro do setor imobiliário: o banco ruim abrigava os imóveis e créditos que não se recuperavam. E na Irlanda, criaram a NAMA para absorver os empréstimos problemáticos dos bancos em crise.
Mais perto da realidade italiana, quando o banco Veneto Banca entrou em dificuldades, separou os ativos saudáveis dos não saudáveis, como se criassem um “lado bom” e “lado ruim” do banco, para tentar preservar o que dava para salvar.
Esses exemplos mostram que o bad bank não é só teoria: já foi usado como ferramenta concreta para “limpar” balanços, dar fôlego às instituições saudáveis e conter riscos sistêmicos.
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Vantagens e desvantagens associadas aos bancos ruins
Vantagens
Ter um banco ruim pode parecer uma solução mágica para livrar um banco saudável dos seus problemas, mas não é algo isento de riscos. Entre os pontos positivos, primeiro, ele permite que o banco original se “liberte” dos ativos podres, empréstimos inadimplentes, ativos ilíquidos, o que pode restaurar a confiança de investidores, depositantes e do mercado.
Essa separação tende a dar “fôlego” para o banco bom voltar a operar com mais clareza e foco, sem ter que carregar junto todo o fardo problemático. É uma via de desintoxicação do balanço financeiro.
Além disso, ao concentrar os riscos na bad bank, diferentes estratégias podem ser adotadas exclusivamente para recuperar valor desses ativos ou liquidá-los de forma ordenada, sem que isso atrapalhe as operações principais do banco saudável.
Desvantagens
Agora, por outro lado, os desafios são muitos. Para começar, envolver a criação ou sustentação de uma bad bank demanda recursos, capital, garantias, estrutura de gestão, regulação.
Em muitos casos, o Estado ou o sistema regulatório precisa intervir para dar segurança ao processo. E esse custo muitas vezes recai sobre os cofres públicos. Outro problema é o risco de “moral hazard”: sabendo que existe a possibilidade de transferir ativos ruins para uma entidade de resgate, um banco pode se sentir tentado a assumir riscos maiores do que seria saudável.
Além disso, valorizar corretamente os ativos transferidos é um dilema: pagar demais prejudica quem já está bom; pagar de menos gera perdas severas para quem repassa.
Também há o risco de que a bad bank nem recupere os valores esperados, gerando perdas persistentes.
Por fim, questões contábeis, legais e regulatórias complicam bastante o funcionamento: separar bem os papéis exige clareza jurídica, transparência e confiança para evitar que o processo vire mais uma fonte de incerteza.
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Bad Banks na Índia
Sabe quando uma pessoa está sobrecarregada com problemas e mal consegue se concentrar nas tarefas do dia a dia? É mais ou menos essa a situação que muitos bancos na Índia enfrentaram por causa de uma montanha de empréstimos que simplesmente não estavam sendo pagos.
O sistema financeiro estava ficando emperrado, e o governo indiano precisou encontrar uma forma de desobstruir as coisas. A resposta que encontraram foi criar uma solução inteligente, um bad bank, que é muito mais um salva-vidas do que um banco propriamente dito.
Essa entidade, chamada oficialmente de NARCL na Índia, tem uma função crucial e muito clara: ser a compradora e a gestora dos ativos podres, os Non-Performing Assets (NPAs), que são aqueles grandes empréstimos corporativos que azedaram nas contas dos bancos.
Ao fazer essa transferência, os bancos comerciais conseguem limpar seus balanços e, finalmente, voltar a focar em seu propósito central: conceder novos créditos a empresas e pessoas que precisam de dinheiro para investir e crescer. É como tirar o lixo da casa para poder voltar a cozinhar.
O mecanismo de compra e venda é a parte mais engenhosa dessa história. A NARCL não paga o valor total dos empréstimos logo de cara, ela dá apenas um cheque de 15% em dinheiro e o restante é pago por meio de títulos chamados Recibos de Segurança, que têm o respaldo do governo.
Essa garantia governamental é o que dá a tranquilidade aos bancos para aceitar o negócio, permitindo que o fardo da recuperação desses empréstimos passe para as mãos dos especialistas, a NARCL e sua parceira, a IDRCL.
Ao especializar a gestão desses ativos difíceis, a Índia espera aumentar as chances de recuperar algum valor dessas dívidas, injetando otimismo e estabilidade em um setor que é o motor de qualquer economia.
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Importância do Bad Bank
A criação de um bad bank assume grande relevância em momentos de estresse no sistema financeiro, porque permite separar os ativos problemáticos dos ativos sãos de um banco. Essa separação traz maior transparência ao balanço do banco original, facilitando que investidores, credores e reguladores avaliem de modo mais claro sua situação real.
Além disso, quando os ativos tóxicos ficam concentrados em uma entidade especializada, a administração desses ativos pode receber tratamento dedicado, estruturação de renegociações, vendas parciais, litigios, enfim, com foco único no seu “desmonte” ou recuperação gradual. Isso ajuda o banco “bom” a retomar o foco em suas operações normais, sem ficar atolado pela carga das dívidas incobráveis.
Outro ponto importante: ao isolar os riscos e reduzir o “ruído” no balanço, o banco saudável tende a recuperar acesso a capital mais barato e restabelecer credibilidade no mercado, o que era difícil ou impossível enquanto os ativos ruins ainda pesavam na estrutura.
Claro que esse modelo não está isento de desafios: há o risco moral (isto é, bancos podem comportar-se de forma mais arriscada porque “esperam” que maus ativos sejam transferidos), a necessidade de transparência, além de um desenho regulatório que evite abusos.
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Crítica ao Bad Bank
A ideia de criar um bad bank parece boa no papel: separar o que está dando prejuízo e deixar os bancos livres para seguir em frente. Mas será que isso resolve o problema ou só empurra a sujeira para debaixo do tapete?
Muita gente critica esse modelo justamente por isso. Ao transferir os ativos ruins para outra instituição, os bancos que tomaram decisões arriscadas acabam escapando das consequências. Isso pode incentivar uma cultura de irresponsabilidade, em que o erro não custa caro.
Outro ponto que incomoda é o uso de dinheiro público. Em muitos casos, o governo entra com recursos para manter o bad bank funcionando. E aí surge a pergunta: por que os contribuintes devem pagar a conta dos erros do setor financeiro?
Além disso, recuperar esses ativos não é tarefa fácil. Se o bad bank não conseguir reverter os prejuízos, ele pode virar um novo problema, drenando recursos e confiança.
Sem contar que, se não houver transparência, o modelo pode ser usado para favorecer interesses políticos ou corporativos, longe dos olhos da sociedade. Por isso, apesar de parecer uma solução rápida, o bad bank precisa ser tratado com cautela. Sem responsabilidade e controle, ele pode acabar fazendo mais mal do que bem.
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Fontes: Investopedia, Mckinsey, Fibe, Bajaj Finserv, HDFC Sky.