18 de junho de 2025 - por Sidemar Castro
Antes do dinheiro de papel ou digital que usamos hoje, as sociedades experimentaram várias formas de troca. Uma das mais antigas foi a moeda-mercadoria, onde produtos como sal, gado ou grãos serviam como ‘moeda’. Isso aconteceu porque esses itens tinham aceitação geral, todo mundo reconhecia seu valor, principalmente quando eram difíceis de conseguir.
Justamente por essa raridade, eles ganhavam ainda mais valor e acabavam virando uma referência nas trocas comerciais. Foi um passo importante: saímos do escambo direto (uma coisa por outra) e evoluímos até chegar ao dinheiro fiduciário que move o mercado hoje. Continue a ler.
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O que é moeda-mercadoria?
Antes das cédulas e moedas que conhecemos, as sociedades usavam algo chamado moeda-mercadoria. Era simples: um produto físico — como sal, gado, grãos ou metais preciosos — passava a valer como dinheiro porque todo mundo aceitava seu valor. Imagine pagar uma roupa com um punhado de sal! Isso só funcionava porque esses itens tinham duas características essenciais: eram úteis no dia a dia e difíceis de conseguir.
Por exemplo, na antiguidade, o sal era precioso não só para temperar comida, mas principalmente para conservar alimentos algo vital antes da refrigeração. Por ser raro e necessário, ganhou aceitação geral e virou “moeda”. O mesmo aconteceu com o ouro e a prata: além de bonitos e duráveis, podiam ser transformados em joias ou objetos, então as pessoas naturalmente os usavam como meio de troca.
Mas atenção: para virar moeda-mercadoria, um produto precisava ter valor prático real. Quem recebesse aquilo precisava enxergar uma utilidade direta, seja para consumo, seja para trocar adiante. É por isso que, hoje, o sal não serviria mais como moeda: temos abundância dele, e ninguém trocaria um celular por alguns saquinhos. Já o ouro, mesmo fora do “padrão-ouro” (sistema que lastreava moedas nacionais no metal), ainda mantém seu valor intrínseco, afinal, é escasso e desejado globalmente.
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Principais exemplos de moeda-mercadoria
Ao longo da história, as sociedades foram criativas na hora de escolher o que valeria como moeda. Não eram só metais como ouro, prata ou bronze que circulavam como dinheiro. Itens do dia a dia, muitos deles surpreendentes, ganhavam aceitação coletiva e viram meio de troca.
Considere o que era pagar contas com sal na Roma Antiga… ou comprar roupas com pimenta preta na Idade Média. Em ilhas do Pacífico, pedras Rai (gigantescas e esculpidas) simbolizavam riqueza. Na América colonial, cintos decorados de wampum (feitos de conchas) serviam como moeda entre indígenas e europeus. Até conchas marinhas, como os búzios, foram usadas da África à Ásia.
Alguns casos são ainda mais curiosos:
Em prisões ou períodos de crise, cigarros, álcool, doces ou até maconha viraram moeda informal, prova de que qualquer mercadoria pode ganhar essa função se houver consenso sobre seu valor.
No fim das contas, seja uma barra de bronze ou um saco de sal, o que transformava mercadorias em moeda era sempre a mesma lógica: “Todo mundo aqui aceita isso, então vale como pagamento.”
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Moeda-mercadoria no Brasil
No Brasil colonial, antes das moedas oficiais circularem de norte a sul, o comércio se sustentava com uma solução engenhosa: produtos do dia a dia viraram dinheiro. Era um sistema nascido da necessidade. Afinal, as capitanias viviam isoladas, o metal era escasso, e cada região tinha suas riquezas naturais.
Açúcar, farinha de mandioca, aguardente, sal, tabaco, cacau e até cabeças de gado não eram apenas mercadorias: eram meios de pagamento aceitos por todos. Por quê? Cada um resolvia problemas práticos da época:
- O açúcar (ouro branco dos engenhos) pagava dívidas e salários;
- A farinha alimentava tropas e escravizados;
- A cachaça servia de moeda no interior, onde o dinheiro nem chegava;
- O gado circulava como reserva de valor no Nordeste e no Sul.
Até o tabaco, moeda forte na Bahia, era usado para comprar escravizados na África. E não era raro um funcionário público receber o salário em rolos de fumo ou barras de sal.
A chave estava na utilidade imediata desses itens. Ninguém questionava o valor do açúcar (exportação valiosa) ou da farinha (alimento básico). Eram bens: desejados por todos, duráveis (como o cacau seco) e divisíveis (podiam ser fracionados em medidas).
Essa prática só declinou quando o governo português passou a cunhar moedas metálicas no século XVIII, especialmente após a descoberta do ouro em Minas Gerais. Mas, nas fazendas distantes e vilarejos isolados, o fumo por tecido ou cachaça por trabalho seguiu vivo até o século XIX.
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Moeda-mercadoria e a inflação
Antes do dinheiro como a gente conhece, as pessoas usavam coisas de valor para trocar, tipo sal, gado, ou até ouro. Isso era a moeda-mercadoria. O valor dela vinha do fato de ser útil e rara.
Agora, a inflação é aquela sensação chata que todos conhecem, de que seu dinheiro está valendo cada vez menos… Ou seja, os preços sobem e as coisas ficam mais caras.
A grande questão é que, quando tem muita moeda-mercadoria circulando, mas não tem mais produtos para comprar, o que acontece? Todos tem mais grana, mas a quantidade de coisas pra vender é a mesma. Resultado: os preços sobem porque todo mundo quer comprar e não tem pra todo mundo. É a inflação batendo na porta.
Aconteceu muito na história, por exemplo, quando a Espanha encheu os cofres com o ouro e a prata das Américas. A moeda “sobrou” e os preços dispararam.
Em outras palavras: quando tem muito “dinheiro” (seja ele qual for) e pouca coisa pra comprar, os preços voam. É uma competição entre o que a gente tem pra gastar e o que tem disponível para ser comprado.
Entenda: Inflação: o que é, causas e consequências no nosso bolso
História da moeda-mercadoria
Antes da gente ter as moedas e as notas que usamos hoje, a vida era bem diferente. A história da moeda-mercadoria é a história de como a humanidade começou a simplificar as trocas.
Lá no começo, não existia dinheiro. As pessoas faziam escambo, ou seja, trocavam uma coisa por outra: “Eu te dou essas maçãs se você me der aquela pele de animal”. Funcionava, mas era uma complicação. Se você tinha maçãs e queria um peixe, mas o pescador não queria maçãs, só queria mel, você estava em apuros! Era difícil encontrar alguém que tivesse o que você queria e que quisesse o que você tinha.
Foi aí que surgiram as primeiras moedas-mercadoria.
- Gado: Sim, bois e vacas já foram “dinheiro”! Em sociedades pastoris, o gado era um sinal de riqueza e podia ser trocado. Daí vem a palavra “pecúnia” (sinônimo de dinheiro), que tem raiz no latim pecu, que significa rebanho. E até “capital” vem de caput, que significa cabeça, se referindo às cabeças de gado.
- Sal: Na Roma Antiga, o sal era supervalioso. Não existia geladeira, então o sal era essencial para conservar alimentos. Era tão importante que a palavra “salário” vem daí: salarium, que era o pagamento (ou uma parte dele) em sal para os soldados romanos.
- Cevada e Grãos: Lá na Mesopotâmia antiga, por volta de 3000 a.C., a cevada era usada como meio de troca. Inclusive, o “shekel” original, que a gente conhece como moeda, era uma unidade de peso de cevada!
- Metais: Com o tempo, vimos que metais como ouro, prata e cobre eram ideais. Eles não estragavam, podiam ser divididos em pedacinhos e eram valiosos por si só. No começo, eles eram pesados a cada troca. Depois, pra facilitar, começaram a colocar marcas neles para atestar o peso e a pureza. Assim nasceram as primeiras moedas cunhadas, as “de verdade”, lá na Lídia (atual Turquia), por volta do século VII a.C.
Com o tempo, ficou claro que a moeda-mercadoria tinha seus problemas. Era difícil de carregar grandes quantidades, algumas coisas estragavam (imagina pagar um salário em gado e ele morrer!), e o valor podia variar muito de um lugar para outro. Foi por causa dessas dificuldades que a gente evoluiu para o dinheiro como conhecemos hoje.
Veja: Papel-moeda: o que é, como surgiu e qual a importância?
Desvantagens da moeda-mercadoria
Se você quisesse comprar algo pequeno, tipo um pão, com uma cabeça de gado, como é que fazia? E carregar ouro ou sacos de grãos pra lá e pra cá era um perigo, fora que cansava. Sem falar que um monte de coisa estragava, tipo comida, e mesmo o ouro precisava de segurança para não ser roubado.
Além disso, não dava para controlar. A quantidade de ouro, por exemplo, era o que a natureza produzia. Se a economia começasse a crescer e precisasse de mais “dinheiro” para a população fazer negócio, não tinha como “imprimir” mais ouro. Isso travava tudo e podia até baixar os preços demais, o que é péssimo.
O valor dessas “moedas” podia virar de cabeça pra baixo. Se a colheita de grãos fosse ruim, o grão ficava supervalorizado, mas aí quem usava ele como dinheiro se dava mal, porque tudo ficava mais caro. Essa instabilidade deixava todo mundo de cabelo em pé pra planejar qualquer coisa no futuro.
No fim das contas, fomos trocando essas moedas-mercadoria por coisas mais fáceis de usar, como o dinheiro de papel e, hoje, o digital. É que ter um dinheiro que dá para dividir, transportar e ajustar a quantidade quando precisa é muito mais prático e faz a economia girar de um jeito bem melhor.
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Diferenças entre moeda-mercadoria e moeda fiduciária
Moeda-Mercadoria: O Dinheiro “Comum e Raro”
Era tipo o ouro ou o sal: valia por si só, porque era útil ou raro. O problema é que era um problema para carregar, dividir e não dava pra “fazer mais” se a economia precisasse.
Moeda Fiduciária: O Dinheiro da “Confiança”
É o que a gente usa hoje, como o Real ou o Dólar. Um pedaço de papel só vale porque o governo garante e a gente confia que vale. É super prático e o governo consegue controlar a quantidade, mas o valor depende totalmente da confiança que as pessoas têm nele. Se a confiança some, o valor evapora.
Basicamente, o primeiro tinha valor intrínseco, mas era inviável para o dia a dia moderno. O segundo não vale nada fisicamente, mas a confiança e a flexibilidade o tornaram essencial para nossa economia.
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Fontes: Suno, Investopedia e Nasdaq.