O IPO da SpaceX não faz sentido

1 de julho de 2026 - por raulsena1


O IPO da SpaceX foi, sem exagero, uma das coisas mais estranhas que já vimos no mercado financeiro nos últimos anos. E o pior é que quase ninguém vai falar sobre isso abertamente, porque é o Elon Musk que está por trás. Hoje vou destrinchar com calma o que aconteceu e por que esse IPO foge completamente do padrão.

Antes de mais nada, vale relembrar o conceito. IPO significa Initial Public Offering, ou seja, a primeira vez que uma empresa abre o capital e vende ações no mercado. Esse é o único momento em que o dinheiro vai direto pro caixa da empresa ou pro bolso dos acionistas. Depois disso, as ações passam a ser negociadas só no mercado secundário, entre os próprios investidores.

Veja mais: Mercado primário e secundário: quais as diferenças entre eles

Por que o IPO da SpaceX é um delírio?

Agora vamos aos dados concretos desse IPO. O valuation da SpaceX no dia da oferta foi de 1,77 trilhão de dólares. O preço por ação ficou fixado em 135 dólares. E aqui já começa o estranhamento: a empresa colocou à venda apenas 4% do seu capital.

Isso é ridículo se comparado com qualquer outra empresa de capital aberto do planeta. O normal em um IPO é vender entre 20% e 25% da empresa. Vender só 4% significa que os acionistas minoritários não têm direito a praticamente nada. E pra completar, Elon Musk concentra 85% dos votos. É basicamente uma ditadura corporativa, onde ele pode fazer o que quiser.

Outro detalhe que chama atenção é o prejuízo. Só em 2025, a empresa teve um prejuízo de 4,9 bilhões de dólares. Isso sozinho não seria um problema, várias empresas abrem capital no vermelho. O problema é entender qual é a tese que justifica esse tamanho de aposta.

A maior abertura de capital da história

Esse foi o maior IPO já feito, superando até a Saudi Aramco, a gigante do petróleo que opera no mundo inteiro. A captação total ficou entre 75 e 86 bilhões de dólares. As 55 milhões de ações foram vendidas no modelo “pegar ou largar” sem formação de book, ou seja, Musk definiu o preço e o mercado só teve a opção de aceitar.

A demanda foi de duas a três vezes a oferta, totalizando 150 bilhões de dólares em ordens. E 30% dessas ordens vieram do varejo, bem acima do usual de 5% a 10%. Isso mostra que a maior parte de quem entrou foram pequenos investidores, fãs do Elon Musk, não grandes instituições.

A sacada genial (e perigosa) de Elon Musk

Se Musk tivesse feito um IPO tradicional, vendendo 20% a 25% da empresa, a oferta provavelmente não teria saído do papel, porque a demanda não cobriria esse volume todo. Ao vender apenas uma fatia mínima, ele consegue inflar o preço artificialmente, aproveitando uma base de fãs gigantesca que está disposta a pagar caro por uma fatia pequena.

É como se eu pegasse um produto qualquer e decidisse vender só 5% dele a um preço cinco ou seis vezes maior do que ele realmente vale. Funciona porque a demanda emocional supera a demanda racional do mercado.

No primeiro dia, a capitalização fechou em 2,1 trilhões de dólares, com a ação subindo 18%, ultrapassando os 160 dólares.

Os múltiplos fazem sentido?

A SpaceX está avaliada em 94 vezes a receita de 2025. Pra você ter noção do absurdo disso, se a gente aplicasse esse mesmo múltiplo na Petrobras, que tem uma receita líquida de 641 bilhões de reais, ela valeria algo em torno de 11 trilhões de dólares. Uma completa loucura!

Pra essa conta fazer sentido de verdade, a SpaceX deveria negociar no máximo a três vezes a receita, o que daria um valuation de uns 100 bilhões de dólares e não 1,77 trilhão.

E tem mais: 71% do valor da empresa está apoiado em expectativas sobre inteligência artificial, mais especificamente Grok e xAI, que ainda dão prejuízo.

Em 2024, a receita da empresa foi de 14 bilhões de dólares e em 2025, de 19 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, já foram 5 bilhões. É um crescimento, mas não é nada estratosférico considerando o tamanho do valuation.

O que assusta mesmo é o prejuízo. Em um trimestre só, a empresa quase igualou o prejuízo de todo o ano de 2025. O prejuízo acumulado desde 2002 já soma 41 bilhões de dólares.

A Starlink é o único motor de receita de verdade, respondendo por 70% do faturamento, com 10,3 milhões de assinantes e mais de 9.600 satélites. Já a divisão de foguetes opera no prejuízo, e a xAI queima cerca de 1 bilhão de dólares por mês.

Vale a pena investir na SpaceX?

A Starlink é, sem dúvida, uma máquina de fazer dinheiro de verdade, crescendo 86% ao ano. A demanda represada e o float baixíssimo de 4% criam um cenário de escassez artificial que pode sustentar o preço por um bom tempo, especialmente com fundos passivos sendo praticamente obrigados a comprar a ação pra seguir índices.

Mas o risco está claro: pagar 94 vezes a receita por uma empresa sem voz pros minoritários, com prejuízo recorrente e dependência extrema de uma única pessoa é uma aposta, não um investimento tradicional de buy and hold.

E por isso, eu mesmo não entrei nesse IPO. Não vejo problema em quem quiser colocar 1% do patrimônio, só pra acompanhar a história de perto, principalmente se for fã do Elon Musk. Mas em respeito ao seu dinheiro, eu não colocaria mais do que 3% a 4% do patrimônio nessa aposta. E fica aqui a minha recomendação para que tomem cuidado!

Quer entender melhor toda essa história e esse IPO? Então, assista ao vídeo em que conto melhor sobre tudo isso!

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