23 de setembro de 2025 - por Millena Santos
Você já ouviu falar em deflação e desinflação? Esses dois termos até podem parecer semelhantes, mas descrevem situações bem diferentes dentro da economia, e entender essa diferença é essencial para compreender os rumos do mercado e até mesmo como isso pode impactar o seu bolso.
Enquanto a deflação costuma estar ligada a sinais negativos, como retração econômica e queda no consumo, a desinflação aponta para um cenário de maior equilíbrio, marcado pela desaceleração da inflação. A gente te explica mais sobre esses cenários. Vamos lá?
O que é deflação?
A deflação é um termo da economia usado para explicar quando os preços de bens e serviços passam a cair de forma generalizada. À primeira vista, pode até parecer uma boa notícia, afinal, quem não gosta de pagar menos, não é? Mas a situação vai além de um simples alívio no bolso.
Esse fenômeno geralmente aparece em momentos de instabilidade econômica, quando a procura por produtos e serviços diminui.
Imagine um cenário em que as pessoas estão inseguras em gastar, preferem guardar dinheiro e, com isso, o comércio vende menos. Para tentar atrair consumidores, empresas acabam reduzindo os preços.
No curto prazo, isso até traz a sensação de vantagem para quem compra. No entanto, não é bem assim, já que se essa queda se prolonga, pode gerar um efeito em cadeia com empresas faturando menos, investindo menos, diminuindo empregos entre outras consequências.
Ou seja, aquilo que parecia positivo pode se transformar em um problema mais sério no futuro.
Causas da deflação
A deflação não acontece por acaso, uma vez que ela costuma estar ligada a alguns fatores que mexem diretamente com o funcionamento da economia.
Uma das principais causas da deflação é o excesso de oferta de produtos em comparação com a demanda. Aqui, inclusive, entra a lei lei da oferta e procura. A diferença, no entanto, é que a oferta de produtos é maior do que o consumo, o que consequentemente faz com que os preços caiam para que, assim, o consumo seja estimulado.
Entre outras causas, a gente pode mencionar ainda:
- Recessão ou contração no ciclo econômico: em momentos de crise, a produção diminui, o consumo cai e as empresas, para não ficarem com estoques encalhados, reduzem os preços.
- Política monetária mais rígida: quando o governo ou o Banco Central endurecem as regras de crédito ou aumentam os juros, o acesso ao dinheiro fica mais difícil. Isso freia o consumo e os investimentos, pressionando os preços para baixo.
- Menor circulação de moeda: quando há menos dinheiro em movimento na economia, as pessoas tendem a gastar menos. Com a demanda em baixa, os preços acabam caindo.
Diante disso, esses fatores, quando combinados, podem criar um cenário em que o consumo e os investimentos desaceleram, e assim acabam abrindo espaço para a deflação.
Consequências da deflação
A deflação costuma trazer uma série de consequências preocupantes para a economia. Quando os preços caem, empresas enfrentam dificuldades para manter suas receitas, o que pode levar à redução da produção, falências e, em muitos casos, ao aumento do desemprego.
Esse cenário abre espaço para a informalidade, já que muitos trabalhadores buscam alternativas fora do mercado formal para garantir renda.
Outro efeito é sobre os juros reais. Mesmo que a taxa básica não mude, a deflação faz com que o juro efetivo pago por quem contraiu dívidas aumente, tornando o crédito mais caro e pesado.
Além disso, o governo também sente o impacto, pois a queda no consumo e na atividade econômica reduz a arrecadação de impostos, limitando a capacidade de investir em serviços públicos.
Por fim, vale destacar ainda o comportamento dos consumidores e investidores nessa situação. Com a expectativa de que os preços continuem caindo, muitas pessoas adiam compras e empresas evitam investir, o que aprofunda ainda mais o ciclo de retração econômica.
Exemplo de deflação
Um primeiro exemplo, bem simples, para a gente começar a visualizar esse conceito, pode ser visto no mercado de celulares. Imagine que a procura por novos aparelhos caia. Nesse caso, fabricantes e revendedores precisam reduzir os preços para não ficarem com estoques parados.
Esse exemplo ilustra muito bem a lei da oferta e da demanda, tendo em vistá que há mais produtos disponíveis do que compradores interessados, o valor tende a cair.
Mas a deflação não acontece apenas em setores específicos. Talvez você não saiba, mas ela já marcou a história de alguns países bem conhecidos. Um caso conhecido, inclusive, é o do Japão nos anos 1990, período que ficou conhecido como “década perdida”.
Após o estouro de uma bolha financeira e imobiliária, o país entrou em um longo período de crescimento fraco e deflação persistente. Os preços continuavam a cair, o consumo não reagia e a economia enfrentava grandes dificuldades para se recuperar.
Para finalizar, outro exemplo é justamente a Grande Depressão de 1929, nos Estados Unidos. Com o colapso da bolsa e o aumento do desemprego, a demanda despencou, e os preços caíram em vários setores, o que acabou agravando ainda mais a crise.
O que é desinflação?
A desinflação também é um termo econômico que trata da redução no ritmo da inflação. Isso significa que os preços ainda estão subindo, só que em um compasso mais lento do que antes.
Imagine que, em um ano, o preço médio de produtos suba 10%, e no ano seguinte essa alta fique em 5%. Os preços continuam crescendo, mas a velocidade dessa alta diminuiu, e é justamente nesse ponto que entra a desinflação.
Diferente da deflação, em que os preços caem, a desinflação indica apenas “um alívio” na pressão inflacionária. Muitas vezes, ela é resultado de medidas econômicas, como ajustes na taxa de juros, controle de gastos públicos ou até mesmo uma queda na demanda.
Para o consumidor, a desinflação traz a sensação de que o custo de vida não está disparando como antes, mas ainda assim não significa que as coisas ficaram mais baratas, apenas que ficaram, podemos dizer, “menos caras”.
Causas da desinflação
A desinflação pode surgir de diferentes situações dentro da economia, e algumas delas são bastante comuns. Entre as principais causas, estão:
- Desvalorização da moeda: quando a moeda de um país perde força em relação a outras, pode haver mudanças no comércio e no consumo interno. Dependendo do cenário, isso pode contribuir para a redução no ritmo da inflação.
- Queda na demanda agregada: se as famílias e empresas começam a consumir e investir menos, os preços até continuam subindo, mas de maneira mais lenta, já que há menos pressão da procura sobre os produtos e serviços.
- Aumento da oferta agregada: quando a produção cresce, seja pela entrada de novas empresas, avanços tecnológicos ou maior eficiência, a disponibilidade de bens e serviços aumenta. Isso ajuda a segurar a escalada dos preços.
Consequências da desinflação
Ao contrário da deflação, a desinflação pode trazer efeitos tanto positivos quanto negativos para a economia.
Começando pelos impactos negativos, quando os preços sobem de forma mais lenta, isso pode sinalizar uma desaceleração do crescimento econômico, já que a atividade produtiva perde fôlego.
Nesse contexto, empresas tendem a contratar menos, o que pode resultar em aumento do desemprego.
Além disso, vale mencionar que a dívida pública também sente esse movimento, pois o governo passa a enfrentar maior pressão em relação ao pagamento de seus compromissos.
Por outro lado, a desinflação também carrega alguns pontos positivos importantes. Um deles é a redução da incerteza econômica, já que preços mais estáveis transmitem confiança ao mercado.
Isso contribui para a atração de investimentos estrangeiros, fortalecendo a economia de forma mais estruturada. E, claro, a população em geral também sente um benefício direto: a melhora do poder de compra, já que o salário passa a ter um peso maior no orçamento diante da desaceleração dos preços.
Exemplo de desinflação
Assim como a deflação, a desinflação também pode ser vista em momentos bem importantes da economia mundial, mas com efeitos diferentes, claro.
Enquanto na deflação os preços caem de forma generalizada, na desinflação eles continuam subindo, só que em um ritmo mais lento.
Um bom exemplo disso aconteceu nos Estados Unidos durante os anos 1980. Na época, a inflação havia disparado e chegou a 14,8% em 1980. Para conter essa alta, o Federal Reserve, o banco central americano, adotou medidas rígidas, como o aumento da taxa de juros.
A estratégia funcionou e em 1983, a inflação já tinha recuado para 3,2%. Ou seja, os preços ainda subiam, mas de forma bem mais controlada.
Já no Japão, no fim da década de 1990, também ilustra esse processo, mas com uma diferença. Após o estouro da bolha imobiliária e financeira, o país entrou em um período de estagnação.
Com isso, a inflação desacelerou gradualmente até ficar negativa em 1999, o que levou o Japão para a deflação, como a gente já viu no exemplo anterior sobre a “década perdida”.
Nesse caso, a desinflação foi um passo que acabou evoluindo para uma queda efetiva nos preços.
Qual é a diferença entre deflação e desinflação?
Tanto a deflação quanto a desinflação, como a gente já viu, são termos usados na esfera econômica. No entanto, cada um traz uma perspectiva diferente sobre o que está acontecendo no cenário econômico.
A deflação acontece quando os preços dos bens e serviços realmente caem. É como se a inflação “virasse para o lado negativo”. Nesse cenário, em vez de pagar mais caro a cada ano, os consumidores começam a pagar menos, algo que parece bom no curto prazo, mas pode ser sinal de fragilidade econômica.
Já a desinflação não significa que os preços caíram, e sim que continuam subindo, só que de forma mais lenta. Em outras palavras, ainda existe inflação, mas ela está perdendo força.
Para fica ainda mais claro, pense o seguinte:
- Se ontem o preço do pão aumentava 10% ao ano e agora sobe apenas 5%, estamos diante de uma desinflação.
- Se, ao contrário, o pão começa a ficar mais barato que no ano anterior, aí temos uma deflação.
Assim, enquanto a deflação indica para uma queda efetiva nos preços, a desinflação mostra apenas uma desaceleração da inflação.
Impactos da deflação e desinflação nos investimentos
A forma como a deflação e a desinflação afetam os investimentos está diretamente ligada ao comportamento dos preços, às taxas de juros e às expectativas sobre o futuro da economia. Para quem investe, saber disso é mais do que importante. Concorda?
No caso da deflação, os efeitos costumam ser mais desafiadores. Com a queda contínua dos preços, a atividade econômica desacelera, empresas reduzem seus lucros e a confiança do mercado diminui.
Nesse ambiente, muitos investidores evitam aplicar em títulos de renda fixa prefixados, pois a deflação eleva o juro real, tornando menos atrativas as taxas contratadas anteriormente.
Além disso, a retração da economia pode afetar negativamente os mercados acionários, já que empresas vendem menos e apresentam resultados mais fracos.
Outro ponto é a migração de investidores para ativos considerados mais seguros, como moedas fortes ou até mesmo ouro, na tentativa de preservar valor.
Já na desinflação, o cenário tende a ser menos turbulento. Os preços continuam subindo, mas em um ritmo mais controlado, o que traz previsibilidade. Isso reduz o risco de desvalorização abrupta dos ativos e pode atrair investidores em busca de estabilidade.
Nesse contexto, títulos indexados à inflação costumam apresentar retornos mais interessantes, já que ainda acompanham a variação de preços.
O mercado de ações também pode se beneficiar, especialmente em setores ligados ao consumo, pois a queda gradual da inflação aumenta o poder de compra das famílias e melhora as perspectivas para as empresas.
Ademais, a desinflação pode fortalecer a confiança dos investidores estrangeiros, que veem maior equilíbrio na economia e maior segurança para aplicar capital no país.
Impactos da deflação e desinflação na economia
Os efeitos da deflação e da desinflação são bem diferentes, e cada um deles gera consequências para a economia.
No caso da deflação, a lógica é a seguinte: quando os preços caem de forma contínua, muitos consumidores preferem adiar compras na expectativa de encontrar valores ainda mais baixos no futuro.
Esse comportamento faz a demanda encolher, o que reduz as receitas das empresas. Com menos faturamento, há cortes em investimentos, demissões e até risco de falências.
Além disso, a arrecadação de impostos pelo governo diminui, já que ela depende justamente do nível de consumo e da atividade econômica. Se a deflação persiste, a economia pode entrar em um ciclo difícil de reverter.
A desinflação, por outro lado, costuma trazer impactos menos pesados. Ela representa apenas uma desaceleração no ritmo da inflação, ou seja, os preços continuam subindo, mas de maneira mais controlada.
Isso pode ser positivo em momentos em que a inflação está muito alta, ajudando a equilibrar o poder de compra e a dar mais previsibilidade para consumidores e empresas.
- Leia também: Rentabilidade bruta x rentabilidade líquida
Fonte: Serasa, Suno, Investopedia, Bora Investir, Exame, Tutor2u.