31 de julho de 2026 - por raulsena1
Há alguns meses, quem quisesse emprestar dinheiro para o governo brasileiro conseguia uma taxa de 7,5% mais o IPCA. Hoje, com a piora do quadro fiscal, alguns títulos do Tesouro Direto já oferecem IPCA mais 8%. Parece papo de vendedor, mas os números por trás dessa oferta merecem atenção.
O IPCA+ é um título público vendido pelo Tesouro Direto, o programa que abriu a compra de dívida do governo para pessoas físicas e não só para bancos e fundos como antigamente. Ele é tecnicamente chamado de NTN-B, mas o mercado deu esse apelido mais amigável para facilitar o entendimento.
Na prática, o nome já explica o produto: você recebe a inflação do período, medida pelo IPCA, mais uma taxa de juro real fixada no momento da compra. Se a inflação disparar, o título sobe junto. Se ela cair, o título também se ajusta, mas o juro real contratado continua garantido.
Veja também: Como investir em Tesouro IPCA? O passo a passo para começar a investir
Como funciona a matemática do juros real?
Se você trava um IPCA+8, está garantindo 8 pontos percentuais acima da inflação, todo ano, até o vencimento. Com a inflação rodando perto de 5%, isso equivale a receber quase 13% ao ano em termos nominais. Se a inflação subir para 10%, o título passa a pagar 18%. Se for para 20%, vira 28%. A conta é simples e o risco de perder poder de compra praticamente não existe, porque a correção acompanha a inflação real do período, independentemente do tamanho dela.
Outro ponto importante é o Imposto de Renda. A alíquota de 15% incide sobre o rendimento total, então ela é proporcional. Isso significa que você não corre o risco de a inflação subir e o imposto corroer todo o seu ganho real. A metodologia está disponível no site do Tesouro Nacional para quem quiser conferir com calma.
Por que 8% é uma taxa rara?
Olhando o histórico desde 2011, o Tesouro IPCA+ ficou acima de 7,5% de juro real em menos de 10% do tempo. Acima de 8%, esse número cai para algo entre 3% e 5% do tempo. Ou seja, comprar esse título agora significa apostar, com bastante segurança histórica, que a taxa vai cair no futuro, o que gera ganho extra pela chamada marcação a mercado.
Mesmo nos cenários mais pessimistas, os títulos mais longos como o IPCA 2040 e o IPCA 2050 ainda oferecem taxas na casa de 7,3% a 7,6%. São números elevados para os padrões brasileiros recentes.
Comparando com outros investimentos
Nos últimos 20 anos, o CDI rendeu cerca de 5,5% acima da inflação. O Ibovespa, para quem investiu no índice como um todo, entregou apenas 1,8% acima da inflação, um resultado fraco explicado em parte pela metodologia do índice, que pesa as empresas mais negociadas e não necessariamente as mais saudáveis financeiramente.
Já nos Estados Unidos, o S&P 500 entregou algo perto de 7% de juro real em dólar no mesmo período, com dividendos reinvestidos. Só que aí entra outra variável: o câmbio. Desde 2012, o dólar se valorizou bastante frente ao real, o que faz qualquer retorno em reais parecer menor quando convertido. Olhando os anos 2000, porém, essa relação era bem diferente, o dólar chegou a cair frente ao real. Previsão de câmbio no retrovisor é fácil, no para-brisa é outra história.
Os riscos que existem
Nem tudo é perfeito e o maior risco do IPCA+ está em quem precisa vender antes do vencimento. Se o juro real subir ainda mais depois da sua compra, o preço do título cai no curto prazo, e essa queda pode chegar a mais de 40% em títulos mais longos, mesmo que no final tudo se ajuste. Isso é a marcação a mercado.
Outro ponto é o horizonte de tempo. Um título com vencimento em 2035 ou 2045 exige que você consiga deixar esse dinheiro parado por muitos anos caso queira garantir a rentabilidade contratada até o fim. E, na prática, a maioria de quem compra esse tipo de título não pretende carregá-lo até o vencimento, quer aproveitar uma eventual queda de juros e vender antes.
A conclusão não é abandonar tudo e colocar o patrimônio inteiro em um único título, por melhor que ele pareça agora. O erro mais comum é a concentração: gente que só tem renda fixa prefixada e se machuca quando a inflação sobe, ou que só tem dinheiro em caixinha de banco e perde poder de compra quando os juros caem.
A estratégia mais sólida é diversificar: bolsa americana, bolsa europeia, bolsa asiática, tesouro brasileiro, tesouro americano, renda fixa, cada ativo cumprindo um papel. Quanto mais ativos descorrelacionados você tiver, menor a chance de levar um susto quando o cenário econômico virar.
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