23 de outubro de 2026 - por Raul sena
Todo mundo já ouviu que o mercado financeiro tem alergia a governo de esquerda. Em período eleitoral, essa frase vira verdade absoluta nas redes. Só que, quando a gente olha os dados com calma, a história é bem mais interessante (e menos ideológica) do que parece.
No dia 5 de outubro, logo depois do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro marcou 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O Ibovespa subiu 7,70% em um único dia e fechou em 206.912 pontos, pela primeira vez acima dos 200 mil. O dólar caiu 4,12%, fechando na casa dos R$ 5.
Um sinal claro, não é mesmo? Muita gente de esquerda ficou se perguntando: por que o Lula é tão mal visto por esse mercado? E para responder isso, primeiro precisamos entender quem é o “mercado”.
Veja também: Cuidado: o mercado já precificou o Flávio Bolsonaro
Quem é o mercado financeiro?
Quando se fala em “mercado”, a gente está falando de todos os agentes que negociam na bolsa e no câmbio. Isso inclui investidores estrangeiros, investidores brasileiros, grandes gestoras, consultorias, fundos e também você, pessoa física que compra ação.
E esse grupo não pensa igual. Em janeiro, em pleno governo Lula e com a reeleição no horizonte, os estrangeiros fizeram a maior compra de ações do período, enquanto os brasileiros vendiam. Ou seja, não dá para tratar tudo como uma coisa só.
Outro ponto: quem compra ação logo depois de uma notícia eleitoral, mesmo sendo de esquerda, aceita pagar um prêmio de risco maior e acaba fazendo parte daquele movimento. O mercado é feito de todo mundo que coloca dinheiro ali.
A bolsa em cada governo desde 1995
Os números da valorização da bolsa por governo ajudam a desmontar esse mito:
- FHC 1: valorização de 56%
- FHC 2: valorização de 66%
- Lula 1: valorização de 295%
- Lula 2: valorização de 56%
- Dilma 1: queda de 28%
- Dilma 2: valorização de 16%
- Temer: valorização de 52%
- Bolsonaro: valorização de 25% (com uma pandemia no meio, que afetou bolsas do mundo todo)
- Lula 3: valorização de 75%
Se o mercado odiasse o PT por definição, o melhor ciclo da bolsa brasileira não teria acontecido no primeiro mandato do Lula.
O ano de 2002
Antes da posse de Lula, em 2002, o dólar bateu R$ 3,99 e o risco-país chegou a 2.436 pontos. O mercado precifica o futuro e o futuro que ele imaginava era o do sindicalista radical.
Só que o governo entregou outra coisa: uma gestão conciliadora com os interesses das empresas e da base do PT. O superávit primário de 2003 foi de 4,3% do PIB, bem acima da meta. Sim, teve o boom das commodities ajudando, mas com ou sem ele, esses foram os números. Resultado: 295% de valorização do Ibovespa no mandato.
Com Dilma 1, a bolsa caiu 28%. Foi o PT ficando mais odiado? Não exatamente. Um dia depois da MP 579, que mudou as regras do setor elétrico para baixar a conta de luz na canetada, as elétricas despencaram: 27,5% na Cesp, 24% na CET, 19,7% na Cemig.
O ponto é que o mercado reage a regra do jogo, a conta pública e a lucro de empresa, não à cor do partido.
Direita também apanha
Quando o governo de direita não entrega o que o mercado quer, a reação vem do mesmo jeito. Em outubro de 2021, na semana em que o governo Bolsonaro furou o teto de gastos, o Ibovespa caiu 7,28%, a pior semana do ano. Quatro secretários do Ministério da Economia pediram demissão, e a bolsa terminou 2021 com queda de 11,93%.
O mercado funciona como uma espécie de coleira: ele sabe que mandar dinheiro para fora em grande quantidade aperta qualquer governo.
O que realmente move o mercado?
Alguns fatores pesam em qualquer gestão:
- Contas públicas: se o governo gasta mais do que arrecada, cresce o medo de calote ou de inflação.
- Regras do jogo: preço controlado, contrato alterado, estatal usada para fazer política. Imagine uma montadora que investe aqui e, de repente, vê o imposto dobrar.
- Segurança jurídica: vale para empresa de saneamento, de energia, de educação e para qualquer setor.
- Impostos: se você esperava X de dividendos e o governo aumenta o tributo, sobra menos para você.
- Inflação: preços altos reduzem vendas e lucros das empresas.
E isso não vale apenas aqui no Brasil, o padrão se repete em outros países.
Estados Unidos: entre 1927 e 2015, a bolsa rendeu 10,7% ao ano acima da renda fixa com presidentes democratas e perdeu 0,2% com republicanos. Os autores do estudo explicam que democratas costumam ser eleitos no meio de crises, quando a bolsa está barata. Em abril de 2025, as tarifas de Trump derrubaram o S&P 500 em 12,1% em quatro pregões, e a suspensão delas por 90 dias gerou uma alta de 9,5% em um dia.
Reino Unido: os 45 dias de Liz Truss, conservadora, trouxeram 45 bilhões de libras em cortes de impostos sem dizer de onde viria o dinheiro. A libra foi à menor cotação da história, e o Banco da Inglaterra precisou separar 65 bilhões de libras para segurar o mercado de títulos.
Espanha: com o socialista Pedro Sánchez desde 2018, Madrid subiu 49%, Milão 31%, Frankfurt 23%, Londres 15% e Paris 10%.
Portugal: o socialista António Costa governou de 2015 a 2024 e a dívida pública caiu de 131% para 99% do PIB. Em 2023, o governo gastou menos do que arrecadou, com superávit de 1,2% do PIB.
México: com López Obrador, o dólar saiu de 20,35 pesos em 2018 para 16,34 em abril de 2024, antes de subir para 19,69 após a reforma do judiciário.
Argentina: aqui o mercado puniu a esquerda. Em 12 de agosto de 2019, quando Alberto Fernández venceu as primárias, a bolsa de Buenos Aires caiu 37,9% em um dia e o peso perdeu 15%. O investidor lembrou do kirchnerismo e do controle de câmbio e vendeu tudo.
Leia mais: EU AVISEI POR ANOS. AGORA A BOLSA EXPLODIU (e quase todo mundo vai comprar errado)
Por que a eleição pesa tanto no Brasil?
A dívida bruta do governo está em 82,9% do PIB (agosto de 2026), e o mercado cobra 12,8% ao ano de juros para emprestar até 2035, mesmo depois da queda da segunda-feira. Quem deve muito e paga juro alto, como as empresas brasileiras, vive de expectativa.
Mas, o mercado também erra. Em 2002, o mercado previu desastre e veio o melhor ciclo da bolsa. Olhar um ano isolado é ruim, e uma escola ou uma estrada podem levar 20 anos para dar resultado. Além disso, o mercado fala por quem tem dinheiro investido, não necessariamente pela qualidade de vida da população.
Ele também muda de posição. Parte dele publicou uma carta em defesa da democracia na volta de Lula ao poder, e agora sinaliza preferência por Flávio nas compras e vendas. Mas não é um cheque em branco: se Lula mudar de sinalização, o mercado muda. Se Flávio emitir opiniões complicadas, o mercado pode soltar a mão dele.
Lula x Flávio
Isso quer dizer que Flávio não vai entregar? Não. Ele tem boas chances de fazer um bom governo. E Lula é o pior cenário possível para o mercado? Também não. O que pesa é que Lula tem comprado briga com o mercado, dizendo que superávit não é importante e que fechar no déficit não é o fim do mundo. Não foi o mercado que escolheu não apoiar Lula, foi o governo que escolheu o atrito.
O mercado reage a gasto, a promessa e a regra do jogo, não ao partido. Ele quer cortes de gasto, superávit e empresas lucrando mais, e isso nem sempre coincide com o interesse comum. Para você, investidor, a lição é não cair em narrativa simplificada e entender o que está por trás do movimento. Dá para ganhar dinheiro independente de quem esteja no poder, porque todos nós vivemos sob as mesmas regras.
Quer se aprofundar um pouco mais no tema e entender porque essa não é uma verdade absoluta? Então, assista ao vídeo em que explico melhor sobre!
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