26 de setembro de 2023 - por Nathalia Lourenço
O call spread é um jeito de investir com opções quando a sua expectativa é de alta para um certo ativo. É como se fosse uma “dupla” de negociações: você compra uma opção de compra (call) e vende outra call na mesma tacada.
A única diferença entre elas é o preço de exercício, o strike, já que o vencimento é o mesmo. O ponto-chave aqui é o equilíbrio. Essa estratégia foi criada para te dar a chance de lucrar com a subida do ativo, mas com um detalhe essencial: ela trava o seu prejuízo máximo, ao mesmo tempo que coloca um limite no seu ganho potencial.
Quer entender os detalhes de como montar essa operação? É só seguir a leitura!
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O que é o call spread?
Vamos imaginar que você acha que uma ação vai subir, mas não tanto a ponto de explodir de valor. Se você apenas comprasse uma call, poderia gastar bastante para ter esse direito.
No call spread, você monta uma “trava de alta”: compra uma call com strike mais baixo e vende outra call com strike mais alto, ambas com o mesmo vencimento.
O prêmio que você paga pela call comprada é parcialmente compensado pelo prêmio que você recebe ao vender a outra call, então o custo líquido é menor.
No vencimento, se a ação tiver subido bastante. mas não além do strike da call vendida, você exerce sua call comprada e vende pela call que vendeu: seu ganho máximo será justamente a diferença entre os strikes.
Por outro lado, se a ação não subir o suficiente, sua perda máxima é apenas o custo da operação (o “spread” que você pagou no começo;
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Para que serve o call spread?
O call spread serve para você apostar numa alta de um ativo (como uma ação), mas de uma forma mais controlada. É uma estratégia interessante quando você acha que o preço vai subir, mas não de forma explosiva.
Com o spread, seu custo inicial é menor (porque a venda da outra call ajuda a compensar) e seu risco é limitado ao valor que você pagou para montar a operação.
Quando o call spread é útil
- Quando você acredita numa valorização moderada de uma ação ou outro ativo.
- Quando você quer reduzir o custo inicial da operação, em comparação a simplesmente comprar uma call.
- Quando você prefere ter risco limitado: seu prejuízo máximo é bem definido pelo custo da montagem da estratégia.
- Quando você está confortável em “abrir mão” de ganhos muito grandes além de um ponto, para ter essa estrutura mais segura.
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Como o call spread funciona?
Suponha que você está otimista com uma ação, acredita que ela vai subir, mas não quer pagar o preço total de uma opção de compra para se expor a essa alta. É aí que o call spread entra.
A estratégia funciona como um pacote: você compra uma opção de compra (call) de um determinado preço de exercício e, ao mesmo tempo, vende outra opção de compra (call) com um preço de exercício mais alto. Ambas as opções são para o mesmo ativo e com a mesma data de vencimento.
O que isso gera? Ao vender a call mais cara, você recebe um prêmio. Esse prêmio abate parte do custo que você teve para comprar a call mais barata. O resultado é que seu custo total para entrar na operação fica menor, e seu risco máximo é limitado a esse custo líquido.
O lucro também é limitado. Ele ocorre se a ação subir e fechar acima do preço de exercício da call que você vendeu na data de vencimento. Seu ganho máximo é a diferença entre os dois preços de exercício, menos o custo inicial que você pagou.
É uma estratégia que troca o potencial de ganhos ilimitados de uma call simples por um custo menor e um risco controlado. É como travar sua expectativa em uma faixa de lucro predefinida.
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Exemplo de call spread
Suponha que a ação da PETR4 esteja cotada a R$ 35,00. Você acredita que ela tem espaço para uma valorização moderada até o vencimento das opções, mas quer limitar seu risco.
Você então monta a seguinte estratégia:
- Compra uma opção de compra (call) com preço de exercício de R$ 36,00, pagando um prêmio de R$ 1,20 por ação.
- Para reduzir esse custo, vende uma opção de compra (call) com preço de exercício de R$ 38,00, recebendo um prêmio de R$ 0,50 por ação.
Seu custo total de entrada (o débito) é de R$ 1,20 – R$ 0,50 = R$ 0,70 por ação. Esse é também o seu risco máximo.
No vencimento, se a PETR4 estiver cotada a R$ 39,00, a call de R$ 36,00 vale R$ 3,00, e a de R$ 38,00 vale R$ 1,00. O lucro é a diferença entre os valores intrínsecos (R$ 3,00 – R$ 1,00 = R$ 2,00), menos o custo inicial (R$ 0,70), resultando em R$ 1,30 de lucro por ação. Esse é seu ganho máximo, que ocorre sempre que a ação fecha acima de R$ 38,00.
Se a ação cair e ficar abaixo de R$ 36,00, ambas as opções expiram sem valor, e você perde apenas os R$ 0,70 investidos.
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Tipos de call spread
1) Trava de Alta (Long Call Spread)
A Trava de Alta é a forma mais comum e padrão do Call Spread. O investidor monta essa estrutura com um viés otimista moderado, buscando lucrar com uma alta limitada do preço do ativo.
A montagem é feita comprando-se a call com o strike mais baixo e vendendo-se a call com o strike mais alto. Por se tratar de uma operação a débito (o valor pago é maior que o valor recebido), tanto o prejuízo máximo quanto o lucro máximo são predeterminados e limitados.
2) Venda de Call Spread (Short Call Spread ou Trava de Baixa)
Este tipo é o inverso da Trava de Alta e é montado com um viés pessimista moderado ou neutro. O objetivo é lucrar com a estabilidade ou queda do preço do ativo. A montagem é feita vendendo-se a call com o strike mais baixo e comprando-se a call com o strike mais alto.
Essa operação geralmente é a crédito, o que significa que o investidor recebe um valor ao montar a trava. O lucro máximo é limitado ao crédito recebido, e o prejuízo máximo também é limitado.
3) Call Ratio Spread (Trava de Razão)
O Call Ratio Spread é uma estrutura mais avançada, caracterizada pelo uso de proporções desiguais de contratos, como 1:2 ou 1:3, onde o número de calls vendidas é maior do que o de calls compradas. É utilizado por investidores com um viés otimista, mas cauteloso, que esperam uma pequena valorização.
A atratividade dessa estrutura é que ela pode ser montada a custo zero ou até mesmo com um pequeno crédito. No entanto, o risco é ilimitado em caso de uma forte subida do ativo, pois o investidor fica descoberto na quantidade extra de opções vendidas.
4) Call Ratio Back Spread
Por fim, o Call Ratio Back Spread é a inversa do Ratio Spread. Ele é montado vendendo-se um número menor de calls com strike baixo e comprando-se um número maior de calls com strike alto.
Esta estrutura possui um viés fortemente otimista, visando um lucro muito alto se houver uma grande explosão no preço do ativo. O risco é limitado em caso de queda, mas o potencial de lucro é significativo em caso de uma forte alta.
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Vantagens e desvatagens do call spread
Pensando de forma pragmática, as vantagens do call spread saltam aos olhos na hora de abrir a posição. O custo inicial é menor, o que alivia o caixa e melhora o retorno sobre o investimento se a tese se concretizar.
E, talvez o mais importante para muitos, você pode operar com a mente tranquila, sabendo exatamente qual é a pior perda possível, o que ajuda a controlar a ansiedade comum no mercado de opções.
Entretanto, na hora do vencimento, as desvantagens podem ficar evidentes. A mais clara é ver um ativo subir muito além da sua expectativa e você não poder participar desse rally completo. Seu lucro foi “capado”.
Além disso, a estratégia exige um timing mais preciso do que uma simples compra de ação. Não basta a subida; ela precisa acontecer dentro de uma faixa de preço e dentro do prazo determinado para que o lucro seja maximizado.
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Custos e tributação do call spread
O call spread, assim como qualquer operação na Bolsa de Valores, possui seus custos e regras de Imposto de Renda bem definidos.
A parte de custos é composta principalmente pela taxa de corretagem, que varia de acordo com a sua corretora, e pelos emolumentos e taxas de liquidação cobrados pela B3.
É importante lembrar que o call spread é uma trava que envolve a compra e a venda de opções simultaneamente, o que faz com que esses custos incidam sobre as duas pontas da operação, ou seja, em dobro.
Quanto à tributação, o imposto é devido sobre o lucro líquido da operação. Se você montar o call spread e o encerrar em dias diferentes (modalidade conhecida como swing trade ou posição), a alíquota de Imposto de Renda é de 15% sobre o ganho.
Caso a abertura e o fechamento da trava ocorram no mesmo dia (day trade), a alíquota sobe para 20%, havendo ainda uma retenção de 1% na fonte (o chamado “dedo-duro”).
É fundamental notar que, no mercado de opções, a regra de isenção para vendas mensais abaixo de R$ 20 mil não se aplica, o que significa que qualquer lucro obtido é tributável. O recolhimento do imposto é responsabilidade do próprio investidor e deve ser feito via DARF até o último dia útil do mês seguinte ao da apuração do lucro.
Quando usar a estratégia call spread?
1) Quando acredita em uma subida, mas sem exagero
Imagine que você aposta que uma ação vai subir um pouco, mas não virar foguete. O call spread é perfeito para esse cenário, porque te dá chance de lucrar sem precisar gastar demais.
2) Quando prefere jogar com regras claras
Essa estratégia é como entrar em um jogo em que você já sabe o máximo que pode perder e o máximo que pode ganhar. Isso ajuda a dormir tranquilo mesmo em dias de mercado agitado.
3) Quando quer economizar na entrada
Ao vender uma opção de compra mais cara, você recebe um prêmio que reduz o custo da operação. É como dividir a conta com alguém: você paga menos para participar.
4) Quando aceita abrir mão de ganhos ilimitados
Se a ação disparar, o lucro fica travado. Mas isso não é ruim: significa que você trocou a possibilidade de ganhos infinitos por uma operação mais barata e segura.
5) Quando busca uma forma inteligente de participar da alta
Em vez de comprar ações diretamente, você pode usar o call spread para aproveitar o movimento de valorização com menos dinheiro e mais controle. É uma alternativa prática para quem quer estar no jogo sem se expor demais.
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Como investir em call spread?
Para investir em um call spread, você precisa ter acesso a operações com opções pela sua corretora. Essa estratégia exige que você monte duas “pontas”:
- a compra de uma call com strike menor, e
- a venda de uma call com strike maior, ambas com vencimento idêntico.
No momento da montagem, o custo líquido (quanto você paga de fato) vai corresponder à diferença entre os prêmios das opções negociadas. Esse custo é também o seu risco máximo, você pode perder, no pior cenário, todo esse valor.
O seu lucro máximo também será limitado: na data de vencimento, se o ativo estiver acima do strike da call vendida, você exerce a call comprada (direito de comprar) e, ao mesmo tempo, será “forçado” a cumprir a call vendida. O ganho máximo corresponde à diferença entre os strikes menos o custo da montagem.
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Qual a diferença entre call spread e put spread?
A call spread é uma estratégia conhecida como trava de alta. O investidor compra uma opção de compra com strike menor e vende outra com strike maior. Essa estrutura limita tanto o lucro quanto o prejuízo, sendo indicada quando se espera uma valorização moderada do ativo.
Enquanto isso, a put spread é chamada de trava de baixa. Nesse caso, o investidor adquire uma opção de venda com strike maior e vende outra com menor. Assim, consegue lucrar se o ativo cair, também com risco e retorno limitados.
A diferença essencial é que a call spread aposta na alta controlada, enquanto a put spread aposta na queda. Ambas oferecem previsibilidade, mas em direções opostas às do mercado.
Leia mais: Call e put: o que são, como funcionam, mercado de opções
Fontes: Itaú Corretora, Mundo Invest, Modal Mais, Mais retorno, Suno, André Barbirato.