Desconto hiperbólico, o que é e como te afeta?


O desconto hiperbólico é um tipo de viés cognitivo. As pessoas guiadas por este viés têm a tendência de dar maior valor para o hoje do que para benefícios futuros.

Isso é ruim pois pode te fazer tomar decisões prejudiciais para o seu futuro. Por exemplo, você pode optar por gastar todo o seu dinheiro hoje, ao invés de fazer uma reserva financeira pensando no futuro.

O que é desconto hiperbólico?

O desconto hiperbólico é um viés cognitivo. Em síntese, ele faz com que você dê mais valor para coisas imediatas do que para benefícios futuros.

Isso ocorre pois o ser humano é imediatista. Sendo assim, nós temos a tendência de valorizar muito mais o presente do que algo que pode acontecer no futuro.

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Por exemplo, se for para você escolher: você prefere receber R$ 1.000 hoje ou R$ 1.200 daqui um ano? No geral, as pessoas preferem receber R$ 1.000 hoje.

Esse viés explica um pouco o porque apenas cerca de 12% dos brasileiros tem uma reserva financeira. Isso de acordo com dados do banco mundial de 2017.

Ou seja, as pessoas preferem usar o dinheiro hoje do que construir uma reserva a longo prazo, com foco no futuro.

É claro que o viés de desconto hiperbólico não é a única explicação para isso. Existe também a falta de educação financeira dos brasileiros.

Surgimento do desconto hiperbólico

De acordo com a economia clássica e a comportamental, a propensão a poupar varia de uma pessoa para outra. No entanto, as duas escolas divergem muito na percepção de como cada pessoa desconta o futuro.

Isto é, o quanto mais precisa receber no futuro para aceitar deixar o consumo do presente para depois.

Segundo a teoria tradicional, o ser humano desconta o futuro usando uma função exponencial. Por exemplo, se você investisse R$ 1.000 com uma taxa de juros de 10% ao ano, você teria R$ 1.100 no final do período.

Se você continuasse a investir com a mesma taxa, em dez anos você teria um total de R$ 2.593,74. Observe que no primeiro ano, o dinheiro teria rendido apenas R$ 100,00. Mas no último renderia R$ 235,79.

Contudo, se dividirmos o valor do dinheiro no fim de cada ano pelo valor do início, temos como resultado fixo de 1,1, exatamente 10% de diferença entre os montantes.

Esse mesmo princípio pode ser usado para saber o valor atual de uma renda no futuro.

Por exemplo, você prefere ter R$ 1.000 hoje a R$ 1.100 daqui a um ano, provavelmente, também vai preferir R$ 2.357,95 em nove anos a R$ 2.593,74 em dez anos.

Enfim, essa curva exponencial é um forte pilar que embasa as finanças tradicionais. Mas as coisas não são tão simples no nosso cérebro.

Isso porque, de acordo com a economia comportamental, nós descontamos o futuro a uma taxa hiperbólica. Isso significa que nós damos um grande valor para o agora.

Portanto, a tendência é que as pessoas prefiram receber os R$ 1.000 do que esperarem dez anos para receberem R$ 2.593,74.

Exemplos

Para ficar mais claro o desconto hiperbólico, vamos levar em conta uma situação hipotética, onde você pode escolher entre duas opções de viagem:

  • A) Uma semana em Nova York no Natal desse ano, com direito a acompanhante, hotel pago e US$ 200 por dia para gastar
  • B) Ou uma semana em Nova York no Natal de 2026, com direito a acompanhante, hotel pago e US$ 200 por dia para gastar

Qual das duas opções você escolheria? Aposto que a primeira, certo? Afinal de contas, as duas viagens têm os mesmo benefícios, o que muda é apenas a data. No entanto, e se os benefícios fossem diferentes?

  • C) Uma semana em Nova York no Natal desse ano, com direito a acompanhante, US$ 200 por dia para gastar, voo em classe econômica e hotel três estrelas
  • D) Uma semana em Nova York no Natal de 2025, com direito a acompanhante, US$ 300 por dia para gastar, voo em classe executiva e hotel cinco estrelas

E aí, qual opção você escolheria? Pode ser que agora você prefira esperar ou que continue a achar que vale mais a pena ir logo.

Os economistas chamam isso de propensão marginal a poupar. Sendo assim, vamos reformular mais uma vez a proposta:

  • E) Uma semana em Nova York no Natal de 2025, com direito a acompanhante, US$ 200 por dia para gastar, voo em classe econômica e hotel três estrelas
  • F) Uma semana em Nova York no Natal de 2029, com direito a acompanhante, US$ 300 por dia para gastar, voo em classe executiva e hotel cinco estrelas

Se você descontar o futuro por uma função exponencial, se você tiver escolhido a opção C, você deveria ter escolhido a opção E.

Como afeta suas decisões de investimento?

O desconto hiperbólico afasta as pessoas dos investimentos. Isso porque, a vontade de satisfazer um desejo hoje pode ser maior do que a vontade de pensar no futuro.

Uma forma de trilhar esse viés cognitivo, é fazer um planejamento financeiro. Isso porque, ao se planejar, fica mais fácil focar nos seus objetivos ao invés de gastar seu dinheiro hoje.

Portanto, defina seus objetivos ao investir, faça um planejamento para alcançar esses objetivos e aplique em ativos que façam parte do seu perfil de investidor. Além disso, não se esqueça de fazer um bom gerenciamento de risco.

Como evitar o desconto hiperbólico?

Você já se sentiu mal depois de fazer uma compra? Já pensou que devia ter poupado o seu dinheiro ao invés de comprar algo que você nem ao menos precisava?

Muitas vezes, nós fazemos compras com base em emoções que sentimos no momento. Só que depois vem o sentimento de culpa e angústia por ter gastado.

Para evitar passar por isso, você deve ter consciência de que o seu cérebro vai tentar te fazer gastar. Um dos motivos para isso, é justamente o viés cognitivo de desconto hiperbólico.

Sabendo que o seu próprio cérebro vai tentar te tapear, fica mais fácil de não ser enganado por si mesmo. Para te ajudar, sempre que você for fazer uma compra ou tomar uma decisão financeira se pergunte:

  • Eu preciso realmente disso agora?
  • Essa compra pode ser adiada?
  • O que eu estou deixando de usufruir no futuro gastando o dinheiro agora?

Essas perguntas vão te ajudar a entender se você está sendo guiada pelo viés do desconto hiperbólico. Com isso, você pode tomar decisões mais racionais.

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Fontes: Warren, Ciclic e Tc.


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