14 de julho de 2025 - por Sidemar Castro
A inflação inercial é um tipo de inflação meio “teimoso”, que se mantém alta por si só. Essa ideia, que surgiu no Brasil nos anos 80 com economistas daqui, serviu para entender por que a inflação aqui e em outros países da América Latina ficava alta e não caía, mesmo quando as causas iniciais sumiam.
É como se a economia tivesse uma “memória” dos aumentos passados, e as pessoas e empresas continuassem reajustando preços e salários com base nisso, criando um ciclo que se autoalimentava. Quer entender como ela funciona? Continue a ler!
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O que é inflação inercial?
O que acontece quando a inflação fica presa num ciclo vicioso, tipo uma roda que não para de girar? É mais ou menos isso que a gente chama de inflação inercial. Essa ideia foi muito discutida aqui no Brasil lá no começo dos anos 80, pra tentar entender por que a inflação teimava em não cair, mesmo quando o governo tentava controlar.
A ideia era essa: a inflação cria uma memória. O índice de hoje não vem do zero, ele carrega o peso da inflação de ontem e também o que todo mundo acha que vai acontecer amanhã. É como se os preços ficassem “travados” num patamar alto, sem necessariamente disparar, mas sem cair também. E o que mantém essa roda girando? Os famosos reajustes automáticos, a indexação.
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Esses reajustes podiam ser:
- Formais e na lei: Tipo os contratos de aluguel que subiam todo ano conforme a inflação passada, ou as mensalidades escolares que vinham com a correção já embutida no papel.
- Informais e no dia a dia: Quando o dono da padaria vê o concorrente aumentar o pão e pensa “melhor eu subir o meu também”, ou quando o prestador de serviço repassa o aumento porque todo mundo está repassando. É o “efeito manada” dos preços.
Resistência
O grande problema da inflação inercial é que ela cria uma resistência braba. Mesmo quando o governo tenta atacar as causas originais da inflação (como falta de produto ou gastos demais), os preços teimam em não baixar. Por quê? Por causa dessa memória inflacionária.
Os contratos e os hábitos das pessoas estavam programados para repassar automaticamente a inflação do período anterior. Então, mesmo que num mês específico não houvesse motivo real para os preços subirem (não faltasse produto nem a demanda estivesse alta), eles subiam de qualquer jeito. Era como se o aumento fosse “por garantia”, baseado no que já tinha acontecido antes.
Aqui no Brasil, durante a época da inflação galopante (anos 70 e 80), isso virou rotina. Praticamente todo contrato, de financiamento a serviço, tinha uma cláusula de correção automática pela inflação passada. Isso criou na população e nas empresas um comportamento automático: todo mês, o reajuste do mês anterior era simplesmente repassado adiante, como se fosse uma lei da física. Não importava se havia pressão de custo ou de demanda naquele momento, o aumento já estava “programado”.
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Como funciona a inflação inercial?
A inflação inercial é um tipo de inflação que continua existindo mesmo sem uma causa nova e “quente” na economia, como um grande aumento de custos ou um excesso de demanda. Pense nela como a inflação que se move pela “memória” e pelas expectativas das pessoas e empresas.
Funciona como num ciclo vicioso: se os preços sobem constantemente, a expectativa é que continuarão subindo. Com isso, os trabalhadores pedem salários mais altos para não perder poder de compra, e as empresas aumentam os preços dos produtos para cobrir esses novos custos. Essa dinâmica faz com que a inflação se alimente de si mesma, criando um movimento contínuo de alta nos preços, sem que haja uma pressão econômica “fresca” por trás.
O Legado no Brasil
Esse fenômeno foi muito marcante em países como o Brasil, especialmente nos anos 80. Nossa economia já estava “acostumada” a conviver com aumentos frequentes e altos de preços. Mesmo com esforços do governo para controlar, essa memória inflacionária, a crença de que os preços subiriam de qualquer forma, mantinha a inflação em alta.
Por isso, combater a inflação inercial é um desafio duplo: não basta apenas ajustar as políticas econômicas. É preciso também mudar a forma como a sociedade se comporta e pensa sobre os preços, quebrar esse ciclo de expectativas.
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Qual a origem e história da inflação inercial?
Origem
Tudo começou num período de vacas gordas, o assim chamado “Milagre Econômico” (1968-1973), durante o Regime Militar. O país crescia sem parar, até que veio a crise do petróleo em 1973 (e depois em 1979). O preço do óleo disparou, e como o Brasil importava a maior parte, tudo ficou mais caro: transporte, energia, insumos…
Resultado: A inflação, que já existia, deu um salto. O governo, para tentar controlar o estrago e não quebrar contratos longos (como financiamentos imobiliários pesados), teve uma ideia: fazer a indexação geral. Traduzindo: corrigir salários, aluguéis, tarifas e contratos automaticamente pela inflação passada. Parecia uma jogada inteligente, não é?
Só que aí a coisa desandou. A indexação, que era pra ser um remédio, virou a própria doença. Como a inflação já estava alta, os reajustes automáticos começaram a empurrar os preços do próximo mês pra cima, antes mesmo de qualquer problema novo aparecer. Virou um ciclo automático, quase inconsciente.
Em outras palavras, o padeiro reajustava o pão porque o trigo do mês passado tinha subido (e o contrato do gás também). E assim, sucessivamente, o sindicato pedia aumento baseado na inflação já medida e o aluguel subia sozinho pelo índice do governo.
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Desse modo, mesmo quando não tinha crise nova, os preços subiam só por “inércia”, por causa desses reajustes automáticos amarrados ao passado. A inflação ficou “grudada” num patamar alto. Era como se a economia tivesse um piloto automático travado na subida.
História
Nos anos 80, a coisa ficou feia. A inflação virou hiperinflação (chegou a passar de 80% ao mês em 1990!). Planos econômicos atrás de planos (Cruzado, Bresser, Verão) tentavam congelar preços ou cortar zeros da moeda, mas nada resolvia de verdade. Por quê? Porque eles não atacavam o coração do problema: a indexação generalizada e a expectativa de que tudo sempre subiria.
Foi aí que um time de economistas, principalmente da PUC-Rio (Persio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha, Francisco Lopes), olhou pra esse ciclo maluco e deu o nome que faltava: Inflação Inercial. Eles entenderam que a inflação alta do passado estava “contaminando” o presente e o futuro através desses mecanismos automáticos e da psicologia do “aumenta porque todo mundo aumenta”. A inflação tinha virado um hábito arraigado, uma memória viva na economia.
Qual é a base da Teoria da Inflação Inercial?
Qualquer corrente que discuta a inflação inercial parte de uma ideia central. É como se a inflação alta e persistente (aquela crônica) tivesse dois “motores” trabalhando juntos:
1) O Motor da Inércia (Tendência): Esse é o componente automático, que se autoalimenta. Ele faz a taxa de inflação querer continuar crescendo no mesmo ritmo, sem parar, como se tivesse vida própria. É a força da inércia em ação.
2) O Motor do Choque: Esse é o componente externo, o empurrão. Ele é o responsável por fazer a inflação pular de um nível (patamar) para outro, mais alto. São os eventos inesperados, como crises internacionais, disparada do dólar ou aumento súbito de custos.
O ponto importante a entender é o poder do primeiro motor, a “tendência inercial”. Se num período já existe inflação, essa própria existência já carrega dentro de si a semente para que a inflação continue no período seguinte, mantendo basicamente a mesma velocidade de aumento (a mesma aceleração). É um ciclo que se retroalimenta.
Analogia da Física
Vamos tomar emprestado da física básica o conceito de inércia. Um objeto em movimento tende a continuar em movimento, na mesma direção e velocidade, a menos que uma força externa atue sobre ele para mudar isso (parar, acelerar mais, desviar).
Transpondo para a economia:
- O objeto em movimento: É a taxa de inflação.
- A tendência da inércia: É ela querer continuar crescendo no mesmo ritmo.
- A força externa necessária: São as medidas de política econômica (como planos de estabilização) feitas justamente para frear ou mudar essa trajetória.
Portanto, a teoria da inflação inercial nos mostra que processos inflacionários persistentes têm uma “vontade própria” (a tendência inercial) que os faz continuar, alimentados pelo passado, e que saltos maiores acontecem quando eventos externos (choques) dão um empurrão. Sem uma intervenção forte (a tal força externa), a inflação tende a seguir seu curso inercial, crescendo de forma quase automática. Foi esse conceito poderoso que ajudou a entender (e combater) a hiperinflação, especialmente no Brasil.
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Como controlar a Inflação Inercial?
O debate sobre como domar a inflação inercial foi (e ainda é) uma das discussões mais quentes da economia brasileira. Vamos entender as principais correntes que surgiram, especialmente nos anos 80, quando o problema estava no auge:
Em 1984, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira propôs algo audacioso: um sistema de “guias de preço”. A ideia era que o governo estabelecesse reajustes previsíveis e coordenados para salários e preços-chave da economia. Não era um simples congelamento, mas uma tentativa de “orquestrar” os aumentos para que acontecessem de forma sincronizada e gradual, quebrando a lógica do repasse automático e desordenado que alimentava a inércia. Ela exigia um controle e uma intervenção estatal muito fortes.
Pensando em algo mais drástico e rápido, ainda em 84, Francisco Lopes (outro peso-pesado do tema) defendeu o congelamento geral e abrupto de preços e salários. A ideia era dar um “choque” na economia, congelando tudo de uma vez para quebrar imediatamente a inércia e a expectativa de aumentos contínuos. Era “heterodoxo” porque fugia completamente das receitas tradicionais (ortodoxas) e apostava numa intervenção direta e massiva. Vários planos posteriores (como Cruzado e Collor I) tentaram variações dessa ideia.
Outra tentativa de solução foi a “Larida” (Indexação Forte) de Arida & Resende: Nela, a a saída proposta por Persio Arida e André Lara Resende foi quase o oposto do congelamento. A Proposta Larida (nome que vem das iniciais dos autores) argumentava que a saída estava em aprofundar e corrigir a indexação, mas de uma forma inteligente. Eles propunham a criação de uma nova unidade de conta estável (uma espécie de moeda virtual indexada) que serviria de referência para contratos e preços. Gradualmente, essa unidade estável substituiria a moeda velha e desacreditada.
A grande sacada era desindexar a economia da inflação passada e ancorá-la numa expectativa de estabilidade futura. Essa ideia foi o alicerce intelectual do Plano Real. Não era simplesmente “mais indexação”, mas sim usar um mecanismo de indexação transitório e bem desenhado para conduzir a economia à estabilidade.
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A Crise das Soluções Ortodoxas
É fundamental entender que essas três alternativas surgiram justamente porque as políticas ortodoxas, aquelas mais convencionais, focadas basicamente em ajustes fiscais brutais (cortes de gastos, aumento de impostos) e âncoras monetárias rígidas (controle da oferta de dinheiro, juros altíssimos), não estavam funcionando para domar a inflação inercial.
E isso acontecia porque essas medidas ortodoxas atacavam (com sucesso variado) as causas primárias da inflação (excesso de demanda, gasto público descontrolado), mas não quebravam o ciclo psicológico e contratual da inércia. A indexação generalizada e as expectativas arraigadas de alta continuavam empurrando os preços, mesmo com o aperto fiscal e monetário. Era como tapar um vazamento enquanto outro cano estourava.
Entenda: Ortodoxia econômica: o que é e quais são os princípios?
Outros tipos de inflação
1) Inflação de Demanda
Essa é clássica. Acontece quando tem muita gente querendo comprar (demanda alta), mas a produção (oferta) não dá conta de acompanhar. É o famoso “muito dinheiro atrás de poucos produtos”.
O resultado? Os preços sobem. Pode ser causada por aumento geral da renda, crédito fácil, gastos públicos elevados ou até um boom de exportações que reduz a oferta interna. Já sentiu aquela época que tudo parece caro e difícil de achar? É ela.
2) Inflação de Custos
Aqui o problema começa antes do produto chegar na prateleira. Os custos de produção disparam, seja por aumento no preço de matérias-primas (como petróleo, grãos, minério), por salários que sobem muito rápido, por tarifas de energia mais caras ou até por problemas na cadeia de logística (como aconteceu na pandemia).
Aí, pra não sair no prejuízo, as empresas repassam esse aumento para o preço final. O consumidor sente no bolso.
3) Inflação Monetária
Essa é ligada diretamente à quantidade de dinheiro circulando na economia. Se o Banco Central ou o governo “imprimem” muito dinheiro (ou criam moeda digital em excesso), sem que isso corresponda a um crescimento real da produção de bens e serviços, o dinheiro perde valor.
É a velha lei: quando tem muito de algo, ele vale menos. Logo, os preços sobem. É uma visão mais clássica, associada à escola monetarista.
4) Inflação Estrutural
Esse tipo olha para problemas de base, estruturais da economia que travam a oferta e empurram os preços pra cima. Pense em gargalos crônicos: infraestrutura precária (portos, estradas, energia cara e instável), burocracia excessiva, baixa produtividade da indústria, ou um mercado interno pouco competitivo (com poucas empresas dominando).
Esses problemas dificultam o crescimento da oferta e tornam a economia mais suscetível a pressões inflacionárias, mesmo sem um boom de demanda.
5) Inflação de Lucros (ou Inercial de Markup)
Esse é mais polêmico e discutido recentemente. A ideia é que, em certos contextos (como após choques ou em mercados pouco competitivos), as empresas podem aproveitar para aumentar suas margens de lucro além do repasse dos custos.
Ou seja, elas não só repassam os aumentos que sofreram, como botam um “extra” pra lucrar mais, contribuindo para a inflação geral. É como se o poder de precificação das empresas fosse um motor adicional da alta de preços.
6) Inflação Importada
Quando o país depende muito de produtos vindos de fora (como petróleo, gás, trigo, peças industriais) e a moeda nacional se desvaloriza (o dólar sobe) ou os preços internacionais desses produtos disparam, o custo de importar fica muito mais caro.
Esse aumento de custo é repassado para os preços internos, gerando inflação. É um tipo que deixa economias abertas e dependentes bastante vulneráveis.
Leia mais: Conheça os principais tipos de Inflação
Fontes: Mais Retorno, Invest News, Infomoney, CPT e Toro.